Idade é quando uma estação de rádio nos convida a fazer a nossa “playlist” e nos damos ao luxo de recusar, não lhes dizendo que o fazemos apenas para bem deles, para não gastarem o que lhes resta de vinil e para que ninguém os confunda com a “Rádio Sim”.
sexta-feira, abril 17, 2020
A cor do charme
Hoje, um amigo perguntou-me: ”Olha lá! Onde é que consegues arranjar tinta para manteres o teu cabelo branco? É que, daqui a dias, vou começar a sair à rua com o meu cabelo original, que já voltou a ser preto, e isso tira-me todo o charme“.
Não lhe disse o meu truque.
Christophe
Há muitos anos, Christophe, que hoje morreu, cantava “Aline”, que foi um imenso êxito. Ouçam aqui: https://www.youtube.com/watch?v=-E_Hyn53acA
Letra morta
Não sou um grande leitor de ficção, confesso desde já. Mas conheço (com proveito, diga-se) alguma coisa de Rubem Fonseca, que aliás cruzei um dia, num divertido almoço no Brasil, com Agustina Bessa Luís e Lígia Fagundes Telles. Humildemente, digo, alto e bom som, que nunca li uma linha que fosse de Luís Sepúlveda, de que bastante ouvira falar e de cuja escrita vejo agora dizer tão bem. E, também com a modéstia dos que assumem, sem complexos, as suas lacunas, atrevo-me a revelar que não conhecia, nem de nome, Luiz Alfredo Garcia-Roza. Todos estes escritores latino-americanos morreram nos últimos dias.
Falta-me ler tanta coisa! Mas, se não mantivesse a certeza de que ainda vou a tempo de ler muito daquilo que me falta, “sem razão seria a vida, sem razão!”, como canta o meu amigo Manuel Freire.
“À poeta”
Alguns, poucos, eram mesmo poetas, mesmo que apenas nas horas vagas. De outros, em tempos idos, na minha terra, só se dizia que tinham um “cabelo à poeta”. Era um estilo de penteado “négligé”, usado por homens de idade madura, que deixavam o cabelo crescer na parte traseira da nuca, subindo pela gola. Raramente isso lhes ficava bem, em geral dava-lhes mesmo um ar desmazelado.
A pergunta que se me coloca, nestes tempos de confinamento, é saber quando é que poderei, finalmente, ir visitar o meu barbeiro, o senhor Joaquim Pinto, com vista a evitar que alguém, gente da minha idade e da minha terra, me possa vir a mandar a “boca” de que ando já com “um cabelo à poeta”.
quinta-feira, abril 16, 2020
De culto
Há dias, passando de carro por um bairro de Campo de Ourique quase deserto, olhei o lugar onde, durante muitos anos, existiu aquele que foi um restaurante “de culto” de Lisboa: o “Stop do Bairro”.
O “Stop” mudou-se, já há uns tempos, para um novo espaço, em Campolide, por onde também já passei e onde, a bem dizer, comi assim-assim.
É, com certeza, defeito meu nunca ter engraçado muito com o “Stop” e com o que ali nos era servido. Não era mau, mas nunca me recordo de nada de muito especial que por lá houvesse alguma vez comido. Mas havia sempre quem fizesse comentários superlativos, que, infelizmente, nunca encontrei razões para subscrever.
Tenho amigos que se mantinham verdadeiros fãs daquele espaço acanhado, onde estávamos todos em cima uns dos outros, em mesas coladas, sem a menor privacidade nas conversas. Era típico por isso, o que, num certo sentido, podia ser considerado simpático.
Pelas paredes do “Stop”, havia camisolas de jogadores de futebol, onde as referências ao Belenenses, clube da predileção do dono, tendiam a ser dominantes. A simpatia de quem servia às mesas era, aliás, a compensação pelo carão que o patrão sempre fazia questão de exibir, no que parecia ser uma apreciada marca da casa.
Se o “distanciamento social”, essa praga anticomunitária que por aí se instalou por via do vírus, acabar por vir a ser a matriz futura dos locais comerciais de convívio coletivo, não sei o que virá a acontecer a tanto espaços esconsos que existem por esse país fora, como era o “Stop do Bairro” (ou o “Baralto”, quem ainda se lembra?).
Esse mundo vai mesmo mudar? O importante é continuar a andar por cá, com o pretexto de assim poder constatar se isso acontecerá ou não. O resto é conversa fiada.
quarta-feira, abril 15, 2020
A carta de Rio
Rui Rui escreveu uma carta aos militantes do PSD. Nela se diz, por exemplo:
“Dada a gravidade da situação - seja na vertente da saúde pública, da economia ou nos aspetos de ordem social que dentro em breve se irão agravar - temos todos de estar unidos e solidários, de molde a que o nosso País consiga enfrentar este combate com o menor número de vítimas e o menor desconforto possível.
Lamentavelmente, na vida política nem sempre essa união contra o inimigo comum acontece, pois, não raras vezes, aparecem os que não resistem à tentação de agravar os ataques aos governos em funções, aproveitando-se partidariamente das fragilidades políticas que a gestão de uma tão complexa realidade sempre acarreta.
Em minha opinião, essa não é, neste momento, uma postura eticamente correta. E não é, acima de tudo, uma posição patriótica. O que as pessoas querem (e bem!) é eliminar o vírus o mais depressa possível, dispensando uma instabilidade política que só dificulta o que já, de si, não é fácil de resolver.”
Parece que muitos não estão a gostar daquilo que um líder que mostra ter sentido de Estado recomenda àqueles a quem falta isso e muito mais.
Extraordinário!
A inveja é uma “qualidade” que não me assiste, como dizia o outro. Até ver isto! A genialidade de quem organizou esta estante devia merecer um prémio!
Rubem Fonseca
Detestava aparecer. Era uma das figuras mais geniais da escrita brasileira. No dia das mentiras de 1964, declarou-se ao lado dos “milicos”. Depois, com a censura por estes imposta, sofreu alguns dissabores. Morreu agora, com 95 anos. Chamava-se Rubem Fonseca.
Talvez Bolsonaro, se acaso soubesse quem ele foi, pudesse, em sua homenagem, enviar Mandrake para o lugar do Supremo por que Moro anseia. Afinal, já quase só falta dar uma oportunidade ao sub-mundo.
Um abraço a dois amigos
José Ferreira Fernandes e Catarina Carvalho demitiram-se de diretores do “Diário de Notícias”, como consequência da decisão da administração da empresa de efetuar alguns cortes drásticos, com efeitos no funcionamento do jornal.
Deixo aqui um abraço solidário a esses dois bons amigos, dois excelentes jornalistas, que tiveram a coragem de “agarrar” o jornal num tempo muito complexo. Logo que possível, Zé e Catarina, voltaremos ao nosso almoço no “Galito”.
O DN vai agora continuar, sob a direção de Leonídio Paulo Ferreira. Só lhe posso desejar muitas felicidades, bem como para o futuro do DN.
Um “nabo” em quarentena
Não tenho “stock” de lâmpadas. E fundiram-se já duas. Haverá por aí lojas de material elétrico abertas? Ou um “take-away” de eletricistas? O rebordo de madeira de uma janela abriu um buraco. Está tudo podre por dentro. Por onde andais, carpinteiros do meu país? Hoje, de manhã (vamos ser honestos, ao fim da manhã, porque os fusos mudaram muito, cá por casa), interroguei-me: e se o comando automático dos estores das portas/janelas para o jardim, que abro da cama (já tenho idade para ter estes luxos, não acham) para ver se está sol ou se faz chuva, se avariam? O “senhor dos estores”, como diria a minha empregada (que já não vejo há um mês e que só espero que esteja bem), estará disponível para cá vir, em caso desse desastre ocorrer? Até temo que falhe a pilha (deve dizer-se bateria?) da balança? Esta, no entanto, seria a única “tragédia” sem drama: não constataria o que tenho engordado, nesta quarentena, sem dieta pascal, como acontece aos ímpios.
Quando vivi na Noruega, tinha um amigo (que será feito de ti, Erik? E da Marta?) que construiu, ele próprio, a sua casa. Construiu? Sim, de cima abaixo, das fundações ao telhado. Uma moradia, que recordo bem confortável. Deve ser uma sensação muito boa, viver na casa que é produto do nosso esforço pessoal. Lembro-me bem de que, quando ele me contava, com o orgulho contido dos nórdicos, os pormenores dessa árdua tarefa, que lhe levou largos meses, muitos fins-de-semana completos, eu me sentia bem “pequeno”. Hoje, quando, apenas por premente necessidade, entro a medo num AKI, quando vejo alguns amigos dedicados, com amesquinhante êxito, às tarefas caseiras de “bricolage”, quando constato que “rebento” com um parafuso (acontece-me muito) porque usei, com a brutalidade dos nabos, uma chave de fendas (na minha terra, dizia-se “desandador”) inadequada, sinto um princípio de vergonha. Mas é só um princípio, porque passa-me logo: cada um é para o que nasce, não é? Se não é, eu faço de conta que é.
A bolsa e a vida
“Governar é escolher, por muito difíceis que sejam as escolhas”, disse Pierre Mendès-France. Lembrei-me da frase do antigo primeiro-ministro francês ao imaginar o que poderá ser, por estes dias, o dilema de quem nos governa, quanto ao tempo e ao modo de retoma da atividade do país, sem que tal ponha em causa a travagem da epidemia que a todos nos traz sob temor.
Uma decisão precipitada, forçada por quantos desesperam por ver a sua vida estiolada e a economia a degradar-se, poderia ter consequências trágicas, como o reacelerar da propagação do vírus, deitando a perder o esforço feito. A clausura cautelar feita doutrina, que seria realmente a única receita infalível para prevenir a disseminação, teria como consequência pôr o país num insustentável “coma induzido”. Conseguir encontrar o ponto de equilíbrio razoável entre ambas as perspetivas, garantindo que o estado da bolsa de cada um não se deteriora a extremos, sem pôr em causa a sua própria vida, é a decisão que hoje se pede a quem dirige o país.
Há muito que uma classe política se não via confrontada com um desafio desta dimensão, porque nunca, na existência coletiva dos portugueses de hoje, tinha ocorrido algo de tão dramático.
Num tempo como este, exigir-se-ia uma extrema racionalidade nas decisões, baseada em pareceres técnicos irrefutáveis. Se a racionalidade é sempre um bem escasso num ambiente emocional, com muitos mortos e vidas em risco, o rigor científico incontestável tem visivelmente escasseado. É assim um pouco por todo o mundo, o que justifica que as políticas seguidas estejam longe de ser uniformes. É que os especialistas em quem se apoiam os decisores políticos vivem, eles próprios, numa navegação à vista, lendo os sinais que retiram de exemplos alheios, aprendendo com as más e as boas práticas, incorrendo, aqui ou ali, em inevitáveis contradições, que a cruel memória da informação se compraz em relembrar.
Esse é o pasto ideal para a chicana política, ansiosa por escapar da “quarentena” de relativo silêncio a que um mínimo artificial de decência a confinou, e que hoje vive à cata de hipotéticas faltas à verdade. É também disso que alimentam os adeptos do “não é por acaso que”, que têm as suas horas de glória nos antros de “bitaitismo” que são as redes sociais.
Não invejo o papel do presidente ou do primeiro-ministro. A ambos deixo outra definição, também de um politico francês, desta vez François Mitterrand: “Governar não é agradar“. É ter a coragem de fazer o que acham certo, digo eu.
terça-feira, abril 14, 2020
Maria de Sousa (1939-2020)
Morreu hoje, vítima do vírus que por aí anda, a cientista Maria de Sousa, uma grande figura da investigação portuguesa, com projeção internacional.
Conheci-a há uns anos, quando ambos fizemos parte do júri do Prémio Universidade de Coimbra. Cruzámo-nos depois algumas vezes mais, guardando dela uma imagem de fina inteligência e um humor delicado.
segunda-feira, abril 13, 2020
Notas da rotina
Desde que me reformei, isto é, desde que passei a ”ex-reformado”, a minha vida profissional deixou de ser “from-nine-to-five”, como até então fora, por décadas.
Os dias da semana passaram a ser sempre atípicos: em alguns, com reuniões de manhã bem cedo, outras vezes da parte da tarde. Numas ocasiões, torna-se essencial usar gravata, mesmo fato completo, às vezes chega um traje mais leve, até jeans. Muitas vezes havia viagens, “lá fora” ou pelo país.
Quando dava aulas em universidades, havia horários a cumprir - uns matutinos, outros ao final da tarde, outros noturnos, alguns até bem tarde. Um dia, cansei-me de dar aulas. Ponto final, de vez. O mesmo aconteceu com um programa que regularmente fazia na RTP. No termo de uma gravação, uma tarde, saiu-me: “Foi o último! Não me apetece fazer isto mais!” E, desde então, não fiz.
Já tentei assumir uma atitude idêntica face outras atividades que me tomam muito tempo e paciência, mas fui dissuadido, com amiga insistência, de ir avante com a minha decisão de parar com elas.
Há ainda, é claro, as palestras, as conferências, as aulas esparsas - mas essas são isso mesmo, esparsas, “quando o rei faz anos”. Isso, às vezes, até pode ter alguma graça, outras vezes implicam um trabalho prévio pesado. Estou a começar a aprender a dizer que não. Até nas idas às televisões, para comentários; só vou quando (julgo que) possa ter alguma coisa a dizer.
As tertúlias, essas, variavam: cheguei a ter uma às nove e meia da manhã, as restantes eram (e voltarão a a ser, ora essa!) à mesa, ao almoço ou ao jantar. Mas, com duas exceções, era tudo aperiódico. Por isso, cada dia meu era diferente do outro. O facto de, de quando em quando, eu almoçar em casa acabava por ser tão raro que se chegava a abrir um vinho, só para celebrar essa raridade. Talvez só a escrita no blogue (e, por tabela, no Facebook e no Twitter) e nos jornais se aproximasse de uma rotina - mas, mesmo essa, sem horas marcadas.
Neste mês que passou, percebi, finalmente, o que podia ser ter uma rotina de vida. É claro que há teleconferências, relatórios a ler, textos a produzir, pareceres a dar. Há ainda telefonemas, que nos caem no meio de tudo (como caíram enquanto escrevia este texto), como se o tempo tivesse parado e eu tivesse de estar “on call”, em permanência.
Mas, no essencial, por estes dias, vivo, cada vez mais, com rotinas simplórias. Até no uso alternado das dependências da casa, no regar do jardim (quando a chuva não faz isso por mim), no pôr comida à passarada (só agora percebi que os melros não deixam comer os pardais, há por ali uma “luta de classes”), na ajuda em algumas tarefas da casa, no (demasiado lento) destruir dos papéis antigos. Ando com uma vida muito mais arrumada. Mais calma? É. Mas, acreditem, estou mais do que “morto” por desarrumá-la!
Os portugueses
Os portugueses gostam muito de falar dos portugueses. Dizia um certo aristocrata, há dois séculos: “Os portugueses hão-de ser sempre os mesmos, até porque não há outros...”
domingo, abril 12, 2020
Esta outra Páscoa
O cabrito não era, como costuma ser, da dona Rosa, ali à beira da Tosta Fina, lá por Vila Real. Desta vez, não houve folar da Seramota, que se ia buscar a Mirandela. As únicas contribuições da região foram uns sólidos contributos líquidos: um extraordinário “Abandonado”, oferta muito antiga do meu amigo, dono e senhor da Quinta da Gaivosa, Domingos Alves de Sousa. E um “shot” de um “late harvest” Grandjó, para ir com o “foie-gras”. A família, desta vez, não esteve à volta da mesa, mas à distância de uma video-conversa. A Páscoa, nestes tempos de confinamento, é em Lisboa, como um homem e uma mulher quiserem. Ou puderem!
E esta?
E a imprensa que traz anúncios de prostituição, como se estivéssemos em tempos de “business as usual”?
PAN ?
Começo a estranhar não ver protestos do PAN, ao ter sido já amplamente anunciado que, nos testes para a descoberta da vacina contra este vírus, estão a ser usadas cobaias. Ou há coerência...
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