quinta-feira, fevereiro 06, 2020

O Luís e o Procópio


O Luís, o esteio do “Procópio”, fez 50 anos. Caramba, como o tempo passa! Ainda me recordo dele, recém-chegado do Értilas, há vinte e tal anos!

Como cliente já com algumas “diuturnidades”, posso testemunhar que o Luís foi das “coisas” boas que aconteceu ao meu bar de estimação. Sereno, simpático, educado, atento, impecável no serviço, tornou-se amigo de todos os que passámos pela “catedral” da “Sedonalice”. Há muitos anos que ele é uma das grandes referências daquela casa.

Um forte abraço de parabéns, Luís! Aos 50, a vida acaba de começar...

(roubo esta fotografia à Sofia, como “vingança” de me não terem chamado para a festa)

Blogue

Estou a começar a ficar preocupado: estou a ter um número crescente de visitantes diários aqui blogue. No passado, isto só me aconteceu quando a direita estava no poder...

quarta-feira, fevereiro 05, 2020

OGE

A aprovação do OGE está a transformar-se num palco de negócios políticos obscenos, com toda a demagogia à solta. Rio teme dar parte de fraco, o CDS já não conta, o Bloco anda ressabiado e o PCP tinha fama de ser mais coerente. Os outros três “da vida airada” são apenas isso mesmo.

Retrump

Os democratas sabiam que a destituição de Trump era inviável, dada a relação de forças no Senado. Esperavam que o desgaste que o processo lhe iria provocar favorecesse uma candidatura forte do seu lado. Nada disso aconteceu e, agora, “o que não mata engorda”. Trump fica até 2025.

O jornalismo a que temos direito

Em alguma da nossa comunicação social, vivem-se tempos similares aos do “Diário”, o jornal do PCP: reduzida diversidade opinativa nas redações, ascensão dos “his master’s voice”. Às vezes, nem se trata de agendas políticas, mas de quem faz ganhar mais dinheiro, mesmo sem ética.

Saudades dos jornais

O tempo em que se dizia “se veio no jornal é porque é verdade” acabou. Os média já admitem que a pressão concorrencial os obriga a publicar de imediato o que recebem, nomeadamente das agências, com ou sem o cobarde “alegadamente”, sem “checkarem” a fiabilidade das notícias. Tempos tristes, estes.

O CDS e os cravos


Há uns anos, quando era embaixador em Paris, decidi comemorar o 25 de abril convidando para um almoço na embaixada os representantes dos partidos políticos portugueses em França. Ali tive pessoas do Bloco de Esquerda, do CDS, do PCP, do PS e do PSD. tudo pessoas com as quais tinha, aliás, uma excelente relação pessoal.

Os partidos políticos são a cara institucional da democracia. Não foi por acaso que a ditadura salazarista sempre diabolizou os partidos, como igualmente não é por acaso que o discurso populista que anda pelas redes sociais - quase sempre travestido de demagógica “indignação” - os tem por alvo constante. Os “bons espíritos” encontram-se sempre.

A homenagem que então quis prestar às forças partidárias representadas na Assembleia da República fazia-se na comemoração da data da liberdade.

À chegada à mesa, cada convidado tinha um cravo vermelho ao lado do seu lugar. O representante do CDS foi o único que recusou a flor. Impressionou-me o gesto de repúdio, mas aceitei-o. Embora eles não saibam, e nunca o possam entender, o 25 de abril também foi feito para aqueles que dele não gostam.

Os inglusos


Formam uma raça à parte, uma espécie de casta, embora pálida e sem turbante. Representam-se como o genérico lusitano de uma elite. Não se juntam muito entre si, porque são de tempos diferentes ou porque os feitios e os afetos os fizeram conflituar e, vá lá!, porque todos têm o individualismo como o único modo filosófico de vida que é “bem” adotar. Alguns já não vão para novos, outros assumem uma postura eterna de maduros, outros são velhos há muito, embora sem disso se terem dado conta. Todos, um dia, por qualquer razão, atravessaram a Mancha, graças aos cabedais da família ou à ajuda da Gulbenkian. Tal como Baptista Pereira chegava a nado às praias de Dover, as braçadas burocráticas deles levaram-nos até às ruas de Oxbridge. Nas bibliotecas da sabedoria, nos claustros dos “colleges” ou sob o fumo dos pubs cruzaram por ali nomes famosos. Que hoje citam, claro. Passarinharam por cursos que, por cá, nem se imaginavam, fizeram teses definitivas, que lhes adubam o currículo com que arrasam a concorrência. Começaram todos - mas todos! - na esquerda, a maioria vive hoje na esperança de que a direita os perdoe desse pecadilho pouco original, afadigando-se em contribuir para a sua instrução - com artigos, com livros ou apenas com dichotes, mais ou menos espirituosos. Ainda não se percebeu bem o que lhes irá acontecer com o Brexit. Às tantas, ficam apátridas. Nasceram em Portugal (ninguém é perfeito!), mas mantêm o coração nessa grã-ilha a que pertencem, por direito natural. Idealmente, a maternidade do St Antony's College seria o seu berço óbvio, mas têm de contentar-se com o facto de S. Sebastião da Pedreira figurar no seu Cartão de Cidadão. Alguns falam e vestem como acham que os ingleses devem falar e vestir. Quando atingidos pelos "blues" da vivência nesta "piolheira" que lhes caiu em rifa natal, à falta dos couros de Pall Mall, vão tomar chá à York House, pelas tardes pardacentas. Adoram Churchill e os Church's. Escrevem (às vezes, bem), bebem (alguns já tiveram melhores fígados) e todos resmungam (de preferência, por escrito) contra este país onde não há um "Spectator" capaz, este lugar que verdadeiramente os não merece - no que têm toda a razão: Portugal nada fez de mal ao mundo para ter de os aturar. São os inglusos. Não são nem ingleses nem lusos. São uma espécie de náufragos do autocarro, mas do tempo em que a Carris era britânica. Não passam de uns expatriados, não de cá, mas de lá. Era justo que Boris Johnson se preocupasse com eles.

terça-feira, fevereiro 04, 2020

Um CDS novo a cheirar a velho


Acaba de se demitir da direção do CDS uma figura que, além de abertos elogios a Salazar e à Pide, tinha escrito esta ”pérola” sobre o 25 de abril: “Era preciso uma Revolução? O país crescia mais de 6 pontos percentuais por ano, a guerra do Ultramar estava ganha, havia emprego e estabilidade, Portugal era reconhecido internacionalmente, tudo estava calmo!”.

A mesma criatura chamou também a Aristides Sousa Mendes “agiota de judeus”, ecoando a raiva que a ditadura tinha ao diplomata que, contrariando as ordens de Salazar, decidiu salvar a vida a milhares de refugiados que procuravam fugir da França, sob o terror alemão.

Longe de mim negar a quem quer que seja o direito a ter aquelas ideias. Foi para isso que se fez o 25 de abril... aliás, contra a vontade dessa mesma gente! Mas um partido que se afirma democrático não pode ter, na sua direção de topo, uma figura daquele jaez. Ou, se a mantém, autoqualifica-se por simbiose.

Ora o CDS, o “novo” CDS, procurou até ao fim proteger politicamente aquele seu dirigente, claramente com o “olho” no eleitorado que pensa da mesma forma que aquela figura. Fica a suspeita, bem fundamentada, de que pretende concorrer no mesmo “mercado” político do Chega.

Com este incidente, o “novo” CDS ficou muito mal na fotografia. Se, ao ser confrontada com o conjunto de afirmações do tal cavalheiro, a direção (ia a escrever “centrista”, mas tive receio de que considerassem isso um insulto!) o tivesse logo posto com dono, teria dado um sinal de aberto repúdio face àquele tipo de posições. Pelo contrário, ao ser apenas “empurrada” pelo escândalo público instalado, procurando mesmo confortar a retirada da figura, deu a ideia de que, afinal, podia viver bem com ela na direção - não fora a circunstância do assunto ter tido a amplitude que teve.

Fica assim provado que o “jeunisme”, em si mesmo, não é uma qualidade, mas apenas uma deriva de sectarismo etário. E quando a isso se soma uma visível misoginia, disfarçada de opção por uma melhor “adequação” às funções, tudo fica ainda pior.

segunda-feira, fevereiro 03, 2020

O carregador de bananas


“Só vou levar pão. Não preciso de cesto”. Comprar pão era a única tarefa da qual tinha sido encarregado por quem manda nestas coisas, lá por casa. Saco pequeno na mão, lá fui eu, corredores adiante, mas de olho guloso nas prateleiras. “Olha que belo shampoo em promoção!” Dava para segurar, mesmo sem cesto! Andei mais um pouco por ali. “E bananas? Ainda haverá, lá em casa? Pelo sim, pelo não...”. Coloquei-as junto ao peito. Estava quase a chegar à caixa, quando vi uma garrafa de “Rola” e pensei: “Este tinto vai lindamente com as alheiras do almoço!” 

E foi assim que fiquei na fila, uns minutos que pareceram imensos, atulhado de coisas que repousavam sobre mim, tudo já num equilíbrio mais do que duvidoso, com as mãos a abarrotar, sem um dedo livre para sequer poder vir a colocar a placa do “Próximo cliente”, depois da tralha da anterior cliente que, como todas as anteriores clientes, nos parece sempre levarem meia loja com elas, não se despachando como deviam.

Algumas senhoras da fila olhavam-me com uma ironia pouco discreta, num leve sorriso piedoso, a pensarem, lá para elas: “Este vem pouco ao Pingo Doce!” (Nem elas sabem da minha missa a metade!).

Foi então que aquele meu conhecido se aproximou. É um vizinho do bairro, reformado, figura que foi histórica nos meios ultra-conservadores lusitanos. Disse-me, com voz que se ouviu por ali: “Há uma teoria segundo a qual os homens são os mais renitentes a usar os cestos nos supermercados”. Ele ia de cesto, claro. Ainda pensei explicar os apelos consumistas cumulativos que me tinham conduzido àquela ridícula figura. Mas era tarde! Ali estava eu, a imagem viva a confirmar a sábia doutrina empírica!

Leões


Um verdadeiro sportinguista não leva a sério o facto de ontem ter perdido aquilo a que alguns chamam o terceiro lugar. O terceiro lugar não é coisa que nos incomode. O Sporting está bem acima disso. Os tempos não nos correm de feição? O Sporting tem todo o tempo do mundo à sua frente. Os clubes eternos são diferentes dos outros! Esses outros não percebem? Claro que não! Por isso é que essa gente não é do Sporting! E ainda bem!

domingo, fevereiro 02, 2020

Tolos

 
Estacionei o carro (Aleluia! Havia um lugar!), peguei no Ipad e no livro com fitinha elástica da Moleskine e dirigi-me ao escritório da empresa onde ia ter uma reunião. Esperavam-me, pelo menos, três horas de trabalho. Estava exatamente em cima da hora. Era raro acontecer-me ser tão pontual!

Foi a meio da tarde da passada sexta-feira. Perguntei pelo “dono” da casa. A simpática jovem da receção disse-me duas coisas, definitivas: que ele não estava e que não havia nenhuma reunião prevista.

Fui então à minha agenda eletrónica. Tinha-me distraído. De facto, a reunião era só na próxima semana. A data daquela sexta-feira tinha sido uma espécie de pré-reserva que eu tinha anotado, mas que não fora necessário utilizar e que eu me esquecera de “deletar”, como dizem os brasileiros. Erro meu! Má fortuna? Nem por isso!

Um imenso banho de felicidade caiu sobre mim. Ali estava eu, sem ter nada para fazer, com três horas livres à minha frente - rigorosamente livres! Três horas sem tarefas para cumprir eram uma vida! Feliz!

A menina que me atendia ficou estupefacta. Em lugar da minha reação ser de expectável aborrecimento, pelo trabalho que tinha tido de me deslocar até ali, de constatar que me tinha enganado e, por isso, de ter de mudar de planos, afinal, eu, pelo contrário, exibia um sorriso rasgado. Deve ter achado bem estranho!

Senti-me na obrigação de lhe dizer: “Perceba que acabo de conseguir ter três horas livres na minha vida, que as vou aproveitar para ir a lojas, comprar livros, beber um copo ou sentar-me num café a ler, sem pressas, um jornal ou uma revista“.

Ela olhava-me, um pouco incrédula perante a minha alegria, tentando interpretar se eu não estaria, afinal, a “fazer um número”. E, em desespero de convição, tentou atenuá-la: “Mas está a chover!” 

A jovem não me conhecia. Avancei então com um argumento de sabedoria, tributário da idade: “Nunca experimentou o prazer que é, com uma chuva miúda como a que por aí está, num dia como o de hoje, sem frio e sem vento, fazer um passeio sereno a pé, sem pressas, a apreciar o brilho giro que a chuva dá às ruas, ao cair da noite, juntamente com o “barulho” das luzes dos carros e das montras? Faça um dia isso e verá que não se vai arrepender!”

Olhei-a nos olhos e, mesmo assim, fiquei sem saber se ela tinha percebido. Infelizmente, acho que não. E imaginei que, dela para ela, deve ter dito: “Se calhar é por causa de tipos como este, que, pelos vistos, gostam de apanhar desta chuva, que chamam a isto “chuva de molhar tolos” “.

Blogues & ofícios correlativos


Entre nós, creio que os blogues entraram verdadeiramente “na moda” na viragem do século. Tratava-se de uma nova plataforma de escrita, que federava amigos e gente interessada no que os outros escreviam, estimulando o comentário e o debate. Tinha a vantagem de poder tornar-se graficamente atrativa, mesmo para os não iniciados nas artes informáticas.

Muita gente surgiu então pelos blogues: intelectuais, escritores, um mundo de pessoas anónimas. Nomes da imprensa apareceram a escrever em blogues, às vezes num registo de Dr. Jeckyll and Mr. Hyde. Outros, pouco conhecidos, viriam a criar aí a sua imagem, e a imprensa viria, posteriormente, a “apanhá-los”. Os blogues foram uma curiosa montra de talentos. A boa escrita de muitas pessoas só me foi acessível graças a eles.

Em Portugal, uma certa opinião de direita, mais radical e liberal, então menos opinativa na imprensa, encontrou o seu espaço no que então se convencionou chamar a “blogosfera”. Muitas figuras do neoconservadorismo partiram dos blogues. Alguns foram mesmo dos blogues para governos. Mas também a esquerda não desprezou a plataforma, longe disso. Verdade seja que os blogues e o seu estilo tiveram então muito a ver com os ciclos políticos e, em alguns casos, tornaram-se interessantes trincheiras da luta partidária: cáusticos, duros, até cruéis. Como os tempos impunham.

Chegou a haver bastantes blogues coletivos, com gente mais ou menos conhecida. Hoje restam poucos. Neles foi interessante observar os “desistentes”, muitas vezes cooptados para funções menos compatíveis com a continuidade naquele tipo de escrita. Ficaram os “resistentes”, algumas almas saudavelmente persistentes, empunhando com teimosia a bandeira.

E, claro, pulularam os blogues individuais, feitos para “solitários”, para quem não quer qualquer confusão com a escrita alheia ou se sente menos cómodo ao ver-se publicado ao lado de quem tem ideias em que se não revê. Conheço alguns! Muitos desses espaços individuais de escrita foram entretanto fenecendo: escrever para si próprio é escassamente estimulante...

Falando apenas de Portugal, acho legítimo concluir que chegou a haver por cá blogues de grande qualidade, alguns tendo dado mesmo origem a livros. E, para ser justo, ainda há por aí blogues bem interessantes, embora não muitos.

Há, porém, uma realidade, que é preciso assumir sem reticências: os blogues passaram de moda. Já ninguém fala nos blogues. E tempos houve em que os próprios jornais, recordam-se?, os citavam. Há uns anos, começava o meu dia pela consulta do que vinha publicado nos meus blogues favoritos. Hoje, passam-se dias em que não visito nenhum blogue, revendo alguns, e muito poucos, quase por atacado, aos fins de semana.

O mundo dos blogues mudou, entretanto, de natureza. Chama-se hoje blogue àquilo que mais não é do que uma montra de produtos comerciais, em lugar de ser uma montra de escrita. Se falarmos da palavra “bloguista” em certos meios, vêm logo à baila as divulgadoras de roupa ou acessórios, promovedoras de conselhos maternais, receitas culinárias e coisas assim. Mulheres, na maioria dos casos. Foi esta a evolução da blogosfera. 

Termino fazendo notar que resistem alguns blogues do passado - uns bons, outros maus, outros péssimos. A maioria dos que ficaram são apenas fonte de opinião, outros são puras tribunas de “fake news”, outros ainda são espaços de insídia e “vendetta”. Há blogues serenos, da mesma forma que há blogues excitados. Há blogues bem escritos, como há blogues escritos com os pés. Há por aqui de tudo, como na farmácia...

11 anos


Olhei há pouco para a data e era isso mesmo: 2 de fevereiro. Foi nesta data, em 2009, há precisamente 11 anos, que iniciei a escrita deste blogue. Fui agora ver as estatísticas. Mais de 4000 dias, nenhum dia sem publicar, pelo menos, um post. Foram mais de 7500 publicações, que originaram mais de 60 mil comentários, cerca de seis milhões e 500 mil visitas, oriundas de 185 países, numa média diária de leitores que hoje anda pelos 1400, dos quais 967 seguidores que recebem os posts à medida que são publicados. Até ver, vamos andando...

Arrependidos


O conceito de “arrependidos” tem várias conotações, algumas aceitáveis, outras à margem da decência. É destes últimos que quero falar.

Aqueles que, entre nós, tinham a idade de todas as aventuras ao tempo do 25 de abril frequentaram, por essa altura, algumas das “capelinhas” radicais em que, à época, a sociedade política se fraturou. A maioria era à esquerda, mas a direita teve também as suas.

O radicalismo de direita, do MDLP ao ELP, que eu desse conta, não trouxe ninguém para a esquerda. Quando muito, essas pessoas moderaram os seus “azeites” e passaram para o CDS ou para o PSD, e parece que ainda os há lá pelo Chega.

À esquerda, as coisas foram diferentes. Alguma gente que andou pelo extremismo dos tempos aúreos da Revolução distribuiu-se por diversos destinos.

Uma parte, parece que maioritária, ingressou na esquerda moderada, com o PS a ser a “casa” de acolhimento mais comum. (Sei do que falo).

Ao PCP, que nem faz parte da esquerda que aqui cuido em caricaturar, só “regressou” quem já lá estava ou, por algum tempo, se fazia de “amigo” no MDP-CDE.

Outros, menos complacentes, recusando-se a enterrar com facilidade a rebeldia que os cabelos brancos lhes aconselhava, tributários do maoísmo, do trotskismo ou saídos do PCP por via crítica, juntamente com alguns “vencidos do catolicismo”, com um certo “pintasilguismo” à mistura, acharam graça à ideia de andar pelo Bloco ou pelas suas franjas. Um amigo meu chama-lhes os “velhoquistas”.

Muita outra dessa gente dos “anos da brasa”, deixou-se de políticas e foi à sua vida, com o voto à esquerda como destino regular mais normal, embora com respeitáveis exceções.

Ah! Ninguém, de toda essa gente de quem aqui falo, tem hoje menos de 60 anos, note-se!

Houve também um número considerável de pessoas oriundas do extremismo de esquerda desses dias que decidiu seguir o caminho da direita. Quase todos, no entanto, eram militantes depois de abril, onde a luta contra o PCP lhes marcou fortemente os genes politicos. Nada a dizer dessa opção. A democracia é isso mesmo e a mudança de ideias, desde que feita por convicção e com sinceridade, é extremamente respeitável. Ver hoje pessoas saídas de grupos radicais dos tempos “de Abril” no PSD e até no CDS não me choca rigorosamente nada. Há-os bem estimáveis, tenho amigos entre eles!

Mas então, perguntará o leitor, a que propósito vem este texto e, em especial, o seu título? É que eu quero distinguir quem, com naturalidade, transitou para a direita democrática, mais ou menos conservadora ou liberal, e aquele núcleo de figuras que, não apenas fizeram essa deriva, mas que hoje se abespinham num novo e ácido radicalismo, numa fúria escrita ou vocal constante contra toda a esquerda, desde logo contra aquela onde empenhadamente começaram o seu percurso político ou a que evoluiu para registos mais moderados, nomeadamente na área socialista.

Esses são os tais “arrependidos”! Eles falam hoje da esquerda, em cujas catacumbas radicais estiveram e prosperaram nesse tempo, com uma espécie de assumido asco, com a falta de pudor com que um divorciado revela segredos de alcova de quem com ele se deitou. São cáusticos para com os antigos amigos que os não seguiram, têm o zelo feroz dos recém-convertidos, são os cristãos-novos do conservadorismo radical. Alguns tentam passar mesmo o rubicão filosófico, adotam, com fervor, os clássicos que em tempos zurziram, ficam extasiados perante os novoS “amanhãs que cantam” (agora os do liberalismo), bebem à pressa (é que eles já não vão para novos...) os teóricos que fazem as delícias de algumas “business schools” e da filosofia política que se ensina onde nós sabemos, amen!

Com o PSD caído nas mãos de Rio, com Passos Coelho em casa, com Marcelo imprestável para o seu projeto, com a “troika” que era a sua esperança posta com dono, com as agências de “rating” a parecerem ”feitas” com a Geringonça, com o diabo atrasado e Bruxelas a sorrir ao país, esses “arrependidos”, angustiados e deserdados do futuro, hoje mergulhados, de forma melancólica, em “blues” de alma que lhes atazanam o sono, estão agora a aproximar-se, ainda a medo, do que lhes chega do Chega, mas ainda não se decidiram se vale a pena ou não investir no Chicão.

Eles vão observando. Nós vamos topando-os.

sexta-feira, janeiro 31, 2020

Adeus, Caixa!


A minha primeira conta na Caixa Geral de Depósitos foi criada quando eu tinha creio que 13 anos. O meu pai era gerente de uma filial da Caixa, em Vila Real. Foi funcionário 47 anos. A Caixa era a sua vida e o seu orgulho. Morávamos no edifício da Caixa.

Era um tempo em que a Caixa era vista pelos seus depositantes como o banco mais seguro do país, onde os mais humildes depositavam, não apenas os seus bens mas, igualmente, a sua confiança. A Caixa era uma imensa pessoa de bem.

Em 1971, fazendo uma surpresa ao meu pai, fiz um concurso público e, a meio do meu curso universitário, entrei para funcionário da Caixa. Foi o meu primeiro emprego no serviço público, onde fiquei, com imenso gosto, 42 anos da minha vida. Creio que data dessa altura uma nova conta que por lá ainda tenho, onde, desde então, os meus salários e a minha reforma sempre foram depositados. Até ao final deste mês.

Durante anos, a Caixa Geral de Depósitos (que então se chamava também “Crédito e Previdência“) foi, para mim, o sinónimo de banco. A minha afetividade pela Caixa era imensa.

Até um dia, até ter começado a ser “agredido” pela Caixa.

Há uns anos, assisti ao espetáculo degradante de ver uma pobre senhora de aldeia gritar, numa dependência da Caixa, em Vila Real. Queria levantar um dinheiro que tinha depositado mas, afinal, tinha-lhe sido impingido, anos antes, um “produto” e, para o movimentar no final da maturidade, tinha de perder parte do capital. A senhora não tinha lido o “small print”. Desmaiou e foi necessário chamar o 112, perante a revolta de quem por ali estava. Fiquei escandalizado, saí dali e queixei-me a pessoas que conhecia na administração da Caixa. Nada aconteceu! Meses mais tarde, um funcionário, a quem contei o episódio, comentou: “Se soubesse o que somos obrigados a induzir os clientes a comprar. Às vezes, até tenho vergonha...”

A Caixa, nos últimos anos, tornou-se, a meu ver, nos dias que correm num dos piores bancos portugueses. Se não mesmo o pior. As suas comissões são obscenas e a qualidade dos serviços bateu no fundo. Há muito tempo que não tenho uma experiência medíocre sempre que recorro aos serviços da Caixa: são todas más!

A Caixa foi recapitalizada pelo Estado (isto é, também por mim e por si, que me lê). Em troca, a Caixa comprometeu-se a comportar-se exatamente como qualquer outro banco. Logo, a Caixa não pode financiar, com quaisquer vantagens, as políticas públicas, nem se sente na obrigação de manter uma rede de âmbito nacional, nomeadamente em locais de onde não extrai lucros, mas onde se pensava que pudesse exercer uma presença de serviço público. Tem de reduzir balcões e pessoal. Mas então, se a lógica é a Caixa funcionar como qualquer outro banco, por que diabo o erário público tem de colocar lá dinheiro? Eu, como contribuinte, não quero ser banqueiro. Mas, dizem alguns, é importante ter um banco do Estado! A mim, confesso, não me apetece ver a Caixa privatizada, apenas por um reflexo ideológico. Mas, intimamente, por muito que puxe pela cabeça, não consigo vislumbrar, com o atual modelo de funcionamento da Caixa, qualquer vantagem em tê-la pública. Para me explorarem nas comissões e depois darem parte dos lucros ao Estado? Talvez preferisse que me baixassem as comissões e os impostos. Mas estou aberto a ser convencido.

Nos dias de hoje, chega-se a uma dependência da Caixa e as filas desestimulam-nos logo dessa triste ideia que tivemos. Ligar pelo telefone para lá é uma missão impossível. Há semanas, estive numa dependência e os telefones tocavam, sob a olímpica desatenção geral. Dizem-me que é a regra. Uma das chamadas desse dia era minha, ali ao lado. Nunca foi atendida. Alguma rapaziada, entretanto, conversava jovialmente e uma parte saía para almoçar...

Há meses, cansado de mudar de “meninas“ que me vinham a impor, sucessivamente, como “gestoras de conta”, tentei mudar de local de agência. Fui ignorado, mesmo depois de vários pedidos. Ando nisto há quase um ano! A Caixa anda a gozar comigo...

Hoje, dia em que a Caixa anuncia que teve lucros de 776 milhões de euros, estive aí uns 45 minutos à espera, numa linha telefónica 707. No final, ninguém me atendeu. Paguei quase seis euros. A Caixa não tem vergonha de sujeitar os seus clientes à exploração das chamadas de valor acrescentado? Vale tudo para ganhar dinheiro, é?

Tenho imensa consideração pessoal pelo Dr. Paulo Macedo, um qualificado gestor graças a quem, noutras funções que exerceu, o fisco é hoje mais eficiente e todos pagamos os medicamentos mais baratos. Mas tenho que confessar que perdi, por completo, a confiança na instituição que hoje dirige.

Depois de quase seis décadas de cliente da Caixa, daqui a dias vou encerrar a minha conta, vou pedir à Caixa Geral de Aposentações para alterar o destino da minha reforma e vou mudar de banco. E levo a família comigo. E alertarei os meus amigos.

Pelos vistos, a Caixa acha que lhe não faço falta, como cliente. Eu, como cliente, também acho que a Caixa, a ”minha” Caixa de sempre, deixou de me fazer falta. Estamos quites. Podemos “desquitar-nos”

Deixo assim de ter “dinheiro em Caixa”. Creio que o meu pai, que entrou para a Caixa em 1929 e saiu em 1976, me perceberia. Talvez com alguma tristeza, como é hoje a minha.

No comments!


Brexit


Ontem à noite, debate na TVI com o presidente da Confederação Empresarial Portuguesa, António Saraiva, moderado por Carla Moita, sobre as questões suscitadas pelo Brexit

Pode ver extratos aqui

Gente Livre


O Livre afastou Joacine Katar Moreira, que passa a deputada independente. Joacine nunca teria sido eleita se o Livre a não tivesse apoiado e o Livre, pela certa, não teria elegido ninguém se não tivesse escolhido uma pessoa como Joacine. Ambos pensaram ter acertado. Enganaram-se. É a vida! Que importância é que isto tem?

O reino


Foi em 2016, em Londres, no caminho para o aeroporto, num “mini-cab”. Viviam-se os tempos anteriores ao referendo sobre o Brexit.

Perguntei ao motorista o que é que ele pensava da possibilidade do Reino Unido vir a sair da União Europeia.

O homem, de tez escura e sotaque iniludível, tinha ideias firmes sobre o assunto: nas últimas eleições tinha votado pelo partido anti-europeu UKIP, por achar que havia toda a vantagem em que o país abandonasse “essa coisa de Bruxelas”. E logo acrescentou: “Não sei de que país o senhor é, mas nós já estamos cheios de estrangeiros, não queremos cá mais”.

Expliquei que era português, mas que não vivia no Reino Unido. Ele comentou, pouco afável: “Há já cá muitos portugueses”.

Deixei “pousar” a conversa. “Onde é que nasceu?”, perguntei, minutos depois. O homem: “No Sri Lanka. Vim há 11 anos para cá. Tenho nacionalidade britânica”. Não me enganara e não resisti a comentar: “Como a raínha...”

Um cidadão da Comunidade britânica, como era aquele motorista, sentia-se “um deles” (lembrei-me da expressão clássica de Margareth Thatcher: “one of us”). E “eles”, sentiriam o mesmo?

Estrangeiro, para aquele homem, era um português ou um grego que, graças a “essa coisa de Bruxelas”, andava a disputar-lhe os postos de trabalho.

Semanas depois, no referendo, esse meu motorista ocasional iria votar “leave”. Ao seu lado, exatamente com o mesmo sentido de voto, iriam estar milhões de cidadãos nascidos e residentes fora das grandes cidades do Reino Unido. Essa sua atitude era, entre outras razões, o resultado dos crescentes receios contra a imigração, nomeadamente de pessoas como o meu motorista, o qual, por outro motivo, iria também ser favorável ao Brexit.

A graça do mundo é que ele nunca é linear.

Verde

Mesmo ficando em casa, continuo equipado de verde.