domingo, fevereiro 20, 2011

Resignação

"Notícias às 24", RTPi, há minutos: "O presidente Saleh, do Iémen, anunciou que se vai resignar dentro de dois anos".

E nós, resignamo-nos com este "jornalismo"? 

sábado, fevereiro 19, 2011

João Moniz

Há já algum tempo, tive uma mostra sua na Embaixada. Na sexta-feira, fui ver os seus novos trabalhos, nas paredes do Consulado-Geral de Portugal em Paris, na exposição "Singularités du blanc", que é possível visitar até 11 de março.

João Moniz trabalha entre Lisboa e Paris. Nesta sua nova série, a cor desempenha um papel cada vez mais relevante, sobre o seu branco tradicional.

Cristina Branco

Uma das maiores vozes do nosso fado regressa agora com um novo disco, chamado "Não há só tangos em Paris". 

Pois não, também há por aqui fados e, na minha muito pessoal opinião, pena é que a fadista os não privilegie nos seus discos e no seu percurso musical. É que se a sua inegável versatilidade lhe facilita tomar outros caminhos, para além do fado, talvez Cristina Branco um dia venha a perceber - como outros cantores portugueses tardiamente entenderam - que a fidelização de um público se faz pela afirmação de uma identidade específica. O ecletismo é uma virtude, mas a virtude nem sempre é popular.

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

Carta de Inglaterra

Para um diplomata, o regresso a uma cidade onde viveu estimula um inevitável (e às vezes obsessivo) exercício de comparação das duas realidades temporais. No meu caso, sinto também um incontrolável tropismo para fazer juízos pessoais de valor sobre as permanências e as mudanças. Feitios...

Sucedeu-me agora com Londres, em dois dias que por lá passei.

Gostei de passear na calma de algumas ruas de Kightsbridge ou no bulício da Oxford Circus, de voltar a testar os sentidos no majestoso Food Hall do Harrods, de comprar chás bizarros no Fortnum & Mason, de me "atulhar" de livros na serenidade civilizada da Waterstone's de Picadilly, de apreciar as montras de fatos em Saville Row e das lojas de camisas em Jermyn Street. Não gostei de ver a Ryman, onde comprei as minhas primeiras "agendas-para-ano-e-meio", ter sido substituída por um loja de tecidos, de ver fechado para sempre o Oriel de Sloane Square, onde almoçava a lavar o olhar nas belezas londrinas, ao primeiro sol da primavera, de concluir que destruíram a casa de Park Lane onde Edgard P. Jacobs colocou o professor Mortimer a morar, no "A marca amarela". Gostei de ver a noite da City transformada numa festa que não existia no meu tempo, de sentir que o Peter Jones continua orgulhosamente impermeável à mudança, e que, poucos metros adiante, numa transversal a King's Road, a John Sandoe persiste com a mais criteriosa (e que só é anárquica para os não iniciados) escolha de livros de toda a cidade. Gostei de regressar à poeira de pub do Granadier, de ler que Taki segue politicamente incorreto e reacionário no insubstituível The Spectator, que o Evening Standard, apesar de gratuito, continua a dar razão a quantos acham imprescindível um jornal da tarde e de confirmar que, em matéria de rigor financeiro os motoristas de táxis londrinos batem bem a Standard & Poor's. E gostei, muito!, de rever amigas e amigos de sempre, essas âncoras, dispersas mas sempre sólidas, de uma vida de andarilho.

E, claro!, gostei de estar com mais de duas das quatro centenas de colegas "scholars" da Crabtree Foundation, no jantar anual de gala, que, desde 1954, sempre tem lugar na 4ª feira mais próxima do Valentine's Day, nessa perene instituição que se dedica ao culto da etérea memória de um homem que tem um passado cada vez mais cheio de futuro, que dá pelo nome de Joseph Crabtree. E, embora com o peso da especial responsabilidade que incumbe a um "foreigner" (não devemos ser mais de uma dezena, num mar de "bifes"), não direi que não tenha gostado da surpresa de ser entronizado como presidente anual da Crabtree Foundation, para 2011/2012. O Bartolomeu Cid dos Santos, por cuja mão entrei para este clube de culto, há quase duas décadas, deve estar a rir-se a bom rir...

quinta-feira, fevereiro 17, 2011

"Diplomatie"

Intitula-se "Diplomatie" uma peça recentemente estreada, aqui em Paris, em que é imaginado um diálogo, em agosto de 1944, entre o cônsul sueco em Paris e o general alemão que comandava as tropas ocupantes, a quem Hitler havia ordenado que destruísse a capital francesa, na véspera da sua libertação pelas tropas aliadas. 

Na peça, o diplomata acaba por convencer o militar a não respeitar as suas instruções, através de um argumentário feito de inteligência e de intuição, onde elementos de humanidade se confrontam e misturam com lógicas políticas. Para a História: sabe-se que o diálogo nunca teve lugar, embora o cônsul sueco conhecesse pessoalmente o general. Este último viria a explicar as razões da sua decisão num livro de memórias, em que revelou como superou - da melhor forma! - o dilema que o atravessava.

Na audiência, os parisienses como que tomam consciência de que a sua bela cidade esteve "por um fio", com todos os seus grandes monumentos prestes a serem dinamitados. E, não obstante nunca se deixar de estar no domínio da ficção, talvez esta peça possa contribuir para saiam da sala com uma melhor imagem dos diplomatas...

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

"Convite"

O truque só ficou revelado após alguns dos interlocutores terem trocado, entre si, experiências similares.

Aquele diplomata, homem jovial e simpático, já desaparecido há muito do mundo dos vivos, cuidava sempre em inquirir, através dos seus contactos, qual era a data e hora da partida das delegações portuguesas que lhe constava que visitavam a cidade onde estava colocado, como Cônsul-Geral.

Imaginemos, então, que uma delegação tinha previsto partir, de regresso a Portugal, numa 5ª feira, num voo à hora do almoço. Sabedor disto, o nosso homem, aí pela 3ª feira, cuidava em procurar o contacto com a chefia da delegação e formulava o seu "convite":

- Soube que estão por cá. Tenho uma semana complicada, cheia de compromissos há muito agendados, mas teria um grande prazer em convidá-los para jantar, em minha casa, na 5ª feira à noite.

A resposta era a óbvia. Os convidados "revelavam" que iriam partir na tarde desse mesmo dia, pelo que não podiam corresponder ao amável "convite" do Cônsul geral.

E o diplomata, "compungido", lá retorquia:

- Que pena! Tinha tanto gosto...

terça-feira, fevereiro 15, 2011

Françoise Giroud

Françoise Giroud foi uma figura marcante do jornalismo francês. Fundadora, com Jean-Jacques Servan-Schreiber, do "L'Express", destacou-se na afirmação do papel da mulher na sociedade francesa, o que a levaria a um governo de Valéry Giscard d'Estaing.

A sua biografia, agora publicada pela Grasset, representa-a como uma mulher cuja genialidade se cruza com a tragédia, onde os êxitos profissionais da vida se confundem com uma vida pessoal atribulada. O livro de Laure Adler tende, porventura, a sobrevalorizar excessivamente o tempo do "L'Express" e a dar a este, bem como a Servan-Schreiber, um lugar central no texto, assentando muito na (bem conhecida) bibliografia de Giroud e menos em testemunhos que a tenham por centro da investigação.

Mesmo assim, ou talvez porque na história do "L'Express" muita da nossa geração se revê bastante, o livro agora publicado tem interesse.

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Navegações

Era no tempo em que, no palácio das Necessidades, ainda havia ocasião para longas conversas (mas podia passar-se hoje...). Um jovem diplomata, em diálogo com um colega mais velho, revelava o seu inconformismo. A situação económica do país era complexa, os índices nacionais de crescimento e bem-estar, se bem que em progressão, revelavam uma distância, ainda significativa, face aos dos nossos parceiros. Olhando retrospetivamente, tudo parecia indicar que uma qualquer "sina" nos condenava a esta permanente "décalage". E, contudo, olhando para o nosso passado, Portugal "partira" bem:

- Francamente, senhor embaixador, devo confessar que não percebo o que correu mal na nossa história. Como é possível que nós, um povo que descende das gerações de portugueses que "deram novos mundos ao mundo", que criaram o Brasil, que viajaram pela África e pela Índia, que foram até ao Japão e a lugares bem longínquos, que deixaram uma língua e traços de cultura que ainda hoje sobrevivem e são lembrados com admiração, como é possível que hoje sejamos o mais pobre país da Europa ocidental.

O embaixador sorriu, benévolo e sábio, ao responder ao seu jovem colaborador:

- Meu caro, você está muito enganado. Nós não descendemos dessa gente aventureira, que teve a audácia e a coragem de partir pelo mundo, nas caravelas, que fez uma obra notável, de rasgo e ambição.

- Não descendemos? - reagiu, perplexo, o jovem diplomata - Então de quem descendemos nós?

- Nós descendemos dos que ficaram por aqui...

Bilhete de Paris

Há dias, passou aqui por Paris a jornalista Maria João Avillez. Falámos bastante sobre a Europa, em especial sobre o que resultou do último Conselho Europeu. 

No seu "Dia sim, dia não", na revista "Sábado" (10.2.11), que só ontem pude ler, sou citado a dizer:

"Daqui de Paris, sinto existir, um pouco por toda a Europa, a consciência de que chegámos a um processo de inevitável reajustamento dos equilíbrios de poder, que está já muito para além daquilo que pode ser gerido no quadro do Tratado de Lisboa. Goste-se ou não, as estruturas comunitárias foram ultrapassadas pela força do poder que determina a gestão do euro. A Europa percebe agora, com toda a crueza, que, no fundo, “aderiu ao marco”, pelo que tem de adotar, não apenas os critérios do “pacto de estabilidade e crescimento” que Theo Weigel impôs em 1997, mas outros que Berlim agora acha imperativos, à luz da recente experiência, para controlar possíveis derivas na zona euro, para cuja colmatação é pedido um esforço financeiro particular à Alemanha."

E, sobre a nossa posição nacional, disse:

"Neste contexto de exigência, Portugal assume, sem pejo, a sua fragilidade conjuntural mas, igualmente, mostra uma determinação rara para tomar todas medidas necessárias para lhe fazer face. Sem surpresa, alguns países europeus mostram bem maiores dificuldades do que nós para incorporarem o novo “pacto para a competitividade”. Não o lemos como um “diktat” de Berlim, mas como o último e razoável comboio para salvar a família do euro. Também por isso, parece-nos prematura a imputação de que, de uma Alemanha europeia, está a nascer uma simples Europa alemã."

É, de facto, o que eu penso. Outra coisa é saber se terei, ou não, razão.

domingo, fevereiro 13, 2011

Vergès

Jacques Vergès é uma espécie de "advogado do diabo". Aos 86 anos, esteve, há semanas, na Costa do Marfim a preparar a fundamentação para sustentar juridicamente a teimosia de Laurent Gbagbo em não abandonar o poder. No passado, entre muitas outras figuras, defendeu o terrorista Carlos, o nazi Klaus Barbie, o exterminador Pol Pot e outras figuras de recorte controverso. Saddam Hussein e Slobodan Milosevic estão entre os que não aceitaram a sua ajuda. George W. Bush é um nome que já anunciou desejar defender, no caso de ser possível a sua inculpação.

Membro da resistência francesa na 2ª guerra mundial, foi militante comunista e anti-colonialista, mantendo-se sempre próximo das ideias radicais de esquerda. É filho de pai francês e de mãe vietnamita, tendo vivido na ilha de Reunião e na Argélia, onde se tornou mundialmente famoso pela defesa com sucesso de uma militante da FLN, que viria a ser sua mulher. A sua história pessoal tem um "buraco negro" entre 1970 e 1978, período em que, sem explicação até hoje, desapareceu  de cena - o que gerou lendas sobre a sua eventual presença junto dos Khmers Vermelhos, do Cambodja, ou em campos da guerrilha palestiniana.

Mas a que propósito falo hoje dele aqui? Porque Vergès, numa iniciativa inédita mas muito curiosa, apresenta, duas vezes por semana, um espetáculo num teatro parisiense. Num monólogo de mais de hora e meia, em cenário do um escritório de advogado, fala dos criminosos e dos seus casos, contando histórias e desenhando perfis, tentando demonstrar que a sua famosa "estratégia de rutura", com que orienta as defesas, acaba por ser um modo de melhor fazer conhecer as pessoas por detrás dos crimes. A forma como apresenta a sua relação com a justiça torna a sua apresentação, apesar de algo monocórdica, bastante atrativa na substância. Com o caráter chocante que sempre confere a tudo em que se envolve, Vergès dá à sua prestação teatral o título de "Serial plaideur", da mesma forma que, em 2007, se prestou a ser a cara do filme com o nome de "O advogado do terror".

A juristas conhecidos que venham a Paris - com especial dedicatória ao meu velho amigo Marinho Pinto, bastonário da Ordem dos Advogados - recomendo esta provocatória "performance" do seu incómodo confrade francês, em cena até 11 de abril.

Cumplicidades

Quando, aqui, há dias, eu me referia à proximidade das diplomacias da Índia e de Portugal, estava longe de pensar no que iria suceder, horas depois, no Conselho de Segurança da ONU.

Durante uma sessão a que estavam presentes os ministros dos Negócios Estrangeiros dos países que têm assento nesse órgão, o ministro indiano, por lapso, agarrou no texto que estava sobre a mesa, que o ministro português tinha preparado para a sua anterior intervenção (mas que não tinha usado, porque fez um improviso) e leu-o, durante alguns minutos. Só quando, a certo ponto, se dá conta de que o ministro fala como se fosse membro de um país da União Europeia é que é interrompido pelo seu embaixador, que lhe dá o texto do discurso indiano, não sem que tivesse havido uma embaraçosa hesitação.

Alguns detratores da vida diplomática viram neste incidente a prova de que, salvo em pormenores, a "langue de bois" das intervenções "onusinas" acaba por ser comum aos vários países. Mas as coisas podem ser vistas de outra forma: é cada vez mais natural que membros de governos democráticos possam sentir-se próximos na afirmação de uma linguagem comum sobre grandes temáticas internacionais. Por isso, o político indiano ter-se-á sentido confortável com o tom adotado no nosso discurso. A qualidade de membro da UE é que já seria demais!

Veja tudo aqui.

Gerard Castello-Lopes (1925-2011)

Há quase dois anos, tive o gosto de estar presente na inauguração de uma exposição de Gérard Castello-Lopes, num festival próximo de Angoulême. O fotógrafo estava, de há muito, incapacitado por doença. Faleceu ontem, aqui em Paris, aos 85 anos.

Conheci Gérard Castello-Lopes há uma boa década, num daqueles divertidos almoços de Agosto, em Sintra, em casa do Bartolomeu Cid dos Santos, em que o também já desaparecido anfitrião tinha o condão de juntar um grupo magnífico, de alguns dentre os seus inúmeros amigos. Recordo-lhe a voz forte e as gargalhadas francas, com que desfiava e acompanhava histórias da vida. Conhecia as suas anteriores andanças pelo quadro do meu ministério, quando fora tentado por José Cutileiro a fazer parte da delegação junto do Conselho da Europa, em Estrasburgo. E, naturalmente, sabia do seu trabalho na área da cultura, em especial ligado ao cinema, uma paixão e negócio de família.

Curiosamente, iria ser na fotografia que Gérard Castello-Lopes mereceria um maior reconhecimento público. Os seus trabalhos, onde se podem ver as influências de Cartier-Bresson, desenharam um inultrapassado retrato antropológico de um certo Portugal e colocaram-no na escassa galeria dos nossos grandes fotógrafos. Por isso, creio que a melhor maneira de lembrá-lo hoje é publicar uma das suas belas fotografias.

À Danièle, deixo aqui o nosso abraço solidário.

sábado, fevereiro 12, 2011

"Les gardiens des murs"

 
Argel, a cidade branca, é uma das mais interessantes paisagens urbanas do Mediterrâneo. Ontem foi cenário de fortes tensões, ecoando o Cairo e Tunis.

A cidade tem uma história trágica de violência, desde a heróica luta pela independência até aos "anos de chumbo" dos atentados islamistas, que muito ajudam a explicar, embora não a justificar, os equilíbrios do seu atual regime.

A Argélia é também um país que diz bastante a muitos portugueses, que  aí foram acolhidos em tempos de exílio. Exílios que começaram com um dos últimos presidentes da I República, Teixeira Gomes, que se recolheu, até à sua morte, em Bougie (hoje Béjaia). Mais tarde, nos anos 60 e 70, Argel viria a funcionar como um dos principais centros da oposição ao Estado Novo, que por lá se cruzava com os independentistas das colónias portuguesas, para quem o novo país era um apoio seguro. O endereço da rue Auber, nº 13, onde funcionava a "Rádio Voz da Liberdade", que, pela noite, nos trazia épicas mensagens dos revolucionários portugueses, faz parte da memória de muitas pessoas da minha geração.

Estive em Argel algumas vezes, infelizmente quase sempre em grupos com forte segurança, pouco podendo usufruir daquele magnífico panorama que borda o porto e sobe pela encosta, com uma bela arquitetura colonial que, aos poucos, se perde no dédalo do casbah. Um dia, ao conseguir passear um pouco por uma rua comercial, com várias lojas a exibirem posters de Madjer, dei por mim a perguntar  à pessoa que me acompanhava, numa distração pateta, apenas para fazer conversa, o que fazia tanta gente sentada ou encostada aos prédios. A resposta dada pelo funcionário teve a graça cruel de quem assim qualificava os seus compatriotas sem emprego: "sont les gardiens des murs..."

Ontem, os "gardiens des murs" terão dado um passo em frente.

Temores

Telejornal do almoço da RTP 1, hoje: "Depois dos acontecimentos no Egito, teme-se que o movimento alastre a outros países vizinhos".

Teme-se?

Saudades de Brasília

Oferecido por um amigo brasileiro, chegou-me hoje um belo livro produzido pela "Camargo Corrêa", comemorativo dos 50 anos da cidade de Brasília. 

Das fotografias contemporâneas que o trabalho apresenta faz parte esta imagem. No típico léxico brasiliense, ela representa as "tesourinhas", o "eixão" e os "eixinhos", na "Asa Norte".

Em tempo: o "Correio Braziliense", o mais importante jornal de Brasília, herdeiro de um órgão de informação homónimo criado em 1808, em Londres, faz hoje (4.3.11) a este post. Leia aqui.

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Notas egípcias

1. É impossível, para quem o viveu, não deixar de pensar no nosso 25 de abril, ao observar a alegria simples do povo egípcio. Estes são os momentos mágicos da esperança, que antecedem o que aí vai vir, inevitavelmente, as muitas divisões e contradições de um processo que só agora começou. Mas este dia, para o Egito e não só, será sempre um fantástico momento.

2. Uma grande interrogação é saber o que farão as Forças Armadas egípcias, a partir de agora. Convém ter presente que elas estão no poder, naquele país, há quase 60 anos, sempre apoiando ditadores. Todos os presidentes egípcios, desde Nasser, foram militares. Não o tendo assumido até agora, poderão as Forças Armadas egípcias vir a ser tentadas a ter um papel "kemalista", como na Turquia?

3. Se as coisas correrem bem, esta nova situação pode abrir uma "janela de oportunidade" para a resolução da questão israelo-árabe. Pena é que o poder em Israel não dê mostras de perceber esse ensejo e se feche na sua lógica tradicional de só se sentir confortado com a instabilidade fragilizante ou com ditaduras à sua volta, como melhor alibi para justificar a sua própria rigidez.

4. Se "houvesse" Europa, o que se conseguiria agora fazer com o Egito! Não "havendo", vamos assistir, nos próximos tempos, à agitada coreografia de alguns Estados europeus, colocando-se em bicos de pés para seduzir as forças que lhes parecerem mais aptas a assumir o poder no Cairo. E ainda há quem por aí se preocupe com o Serviço Europeu de Ação Externa...

5. Se há algo que, depois dos acontecimentos da Tunísia e do Egito, ficou bem provado foi a importância da internet, o papel decisivo das redes informáticas para o contacto entre as pessoas e para a difusão da informação. Quase que valeria a pena, como gesto de reforço da liberdade e da democracia, incluir o livre acesso informático como um dos novos Direitos do Homem.

"Live"

Começo a ficar farto da sofreguidão imediatista de quem me telefona, logo de manhã, a comentar "Já viste o estado da praça Tahrir?'" ou, à tarde, "Olha que o Mubarak já está em Charm el-Cheikh!".

Será que não podemos esperar pelos telejornais da noite?

Em tempo: pelos vistos, não! Chegou-me, entretanto, o "O Mubarak já se demitiu!".

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Embaixadas

A embaixada britânica em Paris situa-se hoje no nº 39 da rue du Faubourg Saint-Honoré, um imponente edifício, a dois passos do palácio do Eliseu, sede da presidência da República francesa.

Ontem estive por lá, num encontro de trabalho. A certo ponto, quando alguém gabava a dimensão e o porte da residência, bem como o seu belo jardim, não me contive de dizer, para espanto de muitos: "Este prédio já foi a Embaixada de Portugal, no final do século XVIII". E revelei que também o edifício onde hoje está o Hotel Ritz, na place Vendôme, foi também residência de antecessores meus.

A Embaixada de Portugal está hoje muito bem instalada, num edificio adquirido em 1936, no nº 3 da rue de Noisiel. Mas muitos outros endereços tivemos já por esta cidade de Paris, como o hotêl des Bretonvilliers, na Île de Saint-Louis, de que mostro uma imagem da época.

Bem gostaria de, um dia, poder fazer um completo inventário da nossa presença por aqui.

Em tempo: um nosso comentador fez notar que a nossa atual Embaixada fará, em 2011, 75 anos. Boa lembrança para ser explorada... 

Alberto Oliveira e Silva (1924-2011)

Alberto Oliveira e Silva tinha um belo historial de luta contra a ditadura. Era advogado. Foi ministro da Administração Interna, em 1974, e governador civil de Viana do Castelo. 

Em Outubro passado, por motivos ligados à sua qualidade de provedor da Santa Casa da Misericórdia de Viana de Castelo, tivemos uma derradeira e longa conversa ao telefone. Relembrámos então a sua velha amizade com a minha família e, em especial, um último jantar em que havíamos estado juntos, aquando de uma iniciativa do jornal "Aurora do Lima". Prometi visitá-lo no Natal, compromisso que não cumpri. Faleceu em Viana, hoje, com 86 anos.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

De acordo!

A intervenção pretendia-se incisiva, com um argumentário que o diplomata tinha por inequívoco. Aquela reunião, em sessão restrita, entre delegados de Estados da então União Europeia a "quinze", estava a destinada apenas a confirmar a "separação das águas", no âmbito de uma negociação muito complexa, em que as posições assumidas por cada país eram mais ou menos expectáveis. No fundo, pouco mais havia a fazer do que constatar a impossibilidade de se gerar um consenso, ainda que mínimo, com todas as consequências políticas que esse impasse iria gerar, obrigando o assunto a subir a outras instâncias.

Tendo acabado de tomar a palavra, o diplomata recostou-se na cadeira, colocou o auscultador da interpretação simultânea no ouvido e dispôs-se a escutar as duas intervenções que se iriam seguir, oriundas de delegados de países que, de uma forma há muito evidenciada, estavam abertamente do outro lado da "barricada".

E, no entanto... o nosso homem começou a ficar perplexo quando ouviu o primeiro dos oradores afirmar que concordava, no essencial, com aquilo que acabara de ser dito, felicitando-o mesmo pela "evolução" que mostrara, na "nova" posição assumida. Pensou tratar-se de um equívoco desse colega, facilmente corrigível. Mas, com espanto, escutou o orador seguinte dizer, basicamente, a mesma coisa, também se congratulando com a sua intervenção.

O diplomata ficou angustiado. A sala começava a olhar para ele. Não sabendo bem o que fazer, não podendo "agarrar-se" a coisas substanciais, porque aquelas duas intervenções tinham sido curtas e genéricas, limitado-se a "apoiar", com assumido entusiasmo, a sua intervenção, decidiu pedir a palavra à presidência da sessão. Esta procurou dissuadi-lo, até porque havia ainda mais oradores inscritos. Em desespero, o diplomata pediu então para fazer um "ponto de ordem" - um vetusto truque, em torno de aspetos da "ordem de trabalhos", que permite efetuar uma interrupção e que, com habilidade e rapidez na passagem da mensagem, dá ocasião para dizer o que se quer:

- "Senhor presidente. Esta minha intervenção prende-se com as que os dois oradores precedentes fizeram. Verifiquei, com surpresa, que eles concordaram com o que eu disse. Ora eles não podem estar de acordo comigo, porque eu sei que não estou de acordo com eles! Por isso, ou eu me enganei no que disse, embora não consiga perceber em quê, ou a interpretação não funcionou. De qualquer forma, peço que da ata desta sessão não conste que eu disse o que parece que terei dito..."

A sala explodiu de riso, claro!

Lembrar

Seria importante que os parceiros do G7 aproveitassem para lembrar publicamente a Trump que os palestinos de Gaza e da Cisjordânia não podem...