Dizia-se que ela nunca decidia nada. Era injusto, não era verdade. Havia uma coisa em que era vertiginosa: na decisão de adiar.
domingo, agosto 29, 2010
Decisão
sábado, agosto 28, 2010
Salazar
Filipe Ribeiro de Menezes, um investigador português residente na Irlanda, publicou uma biografia política de Salazar nos Estados Unidos, como aqui já se referiu, há meses. Essa obra está prestes a ser editada em português, pela Dom Quixote.
De uma entrevista que concedeu à última "Visão", acho interessante citar:
"Não encontrei nada que me fizesse acreditar que Salazar alguma vez pensou, a sério, e desejou, sinceramente, retirar-se da cena política e, sobretudo, da presidência do Conselho de Ministros."
"Salazar era mais dono do seu tempo do que qualquer seu sucessor o conseguiu ser. Não tinha de comparecer perante o parlamento, raramente reunia o Conselho de Ministros, não se tinha de preocupar em manter a liderança partidária, não tinha de ir a Bruxelas semana sim, semana não... Tinha a vida que queria e trabalhou como quis."
"Salazar desejava o poder, e convenceu-se que governaria melhor que qualquer outro português. Estou convencido de que ele acreditava ser (ou que a certa altura acreditou ser) uma figura providencial."
"Se o Estado Novo mal sobreviveu a Salazar não foi devido ao enorme vazio que este deixou e que Marcelo Caetano não conseguiu colmatar - foi porque, graças à guerra colonial, Salazar deixou o regime numa situação impossível de resolver."
"O homem que se orgulhava de ter 'nascido pobre' é insensível à pobreza extrema que se encontra no país, ou à emigração que a política económica dos seus governos provoca."
"O facto de Salazar nunca ter denunciado o Holocausto, mesmo depois de finda a guerra, conta contra ele."
"O 'orgulhosamente sós' foi muito mais perigoso para a soberania nacional, e o papel de Portugal no mundo, do que qualquer outra política desde então seguida."
Labels:
Estado Novo,
Figuras,
Livros,
Política portuguesa
Godard
Acaba de ser anunciado que a Academia de Hollywood vai atribuir um Óscar de carreira a Jean-Luc Godard.
Este blogue, cujo nome é inspirado num seu filme, e quem o escreve, que deve muito a Godard no modo como ele o ajudou a ver o cinema, regozijam-se com esta decisão, que representa o reconhecimento da indústria americana pelo trabalho que, deste lado do Atlântico, muito contribuiu para a história do cinema.
A obra de Godard evoluiu entretanto para outros terrenos e muitos dos seus admiradores, como é o meu caso, não se reconhecem na sua última fase. Isso não impede que saudemos o seu incontestável génio.
"Long drink"
No ano de 2004, aquele pobre país da Ásia Central mantinha, no essencial, todos os reflexos típicos da época comunista, tal como eu os recordava dos anos 80. O único hotel disponível, marcado pelas autoridades, era mais do que espartano, com o elevador avariado e uma desfuncionalidade geral irritante. Só os preços tinham um mínimo de "elevação", provavelmente inflacionados para estrangeiros. Os quartos estavam decorados de uma forma inenarrável, as casas de banho eram dignas de pensões portuguesas do tempo do Estado Novo, as camas suscitavam insuperáveis dúvidas de limpeza. Como era só por uma noite, não valia a pena fazer de tudo aquilo um drama.
Logo que instalado, desci para o "hall", juntando-me aos quatro colegas que comigo vinham de Viena, cúmplices desse périplo de "fact-finding mission" que nos faria atravessar todas as cinco Repúblicas da região. Rimo-nos um pouco da situação, sob o olhar patibular de uma matrona mal encarada que, na receção, era um modelo acabado de inospitalidade. Perguntámos se podiamos beber qualquer coisa. Com um gesto displicente, apontou-nos um bar ao fundo da sala. Ao balcão, estavam dois personagens de blusão de couro, manifestamente dedicados à observação dos nossos movimentos.
Os meus colegas pediram refrigerantes, mas eu tive a ideia de querer um vodka tónico, honrando o álcool preferido daquela parte do mundo. O barman, que tinha sido educado na mesma escola de simpatia da rececionista, respondeu-me, em macarrónico inglês, que só serviam "long drinks" depois das 7 horas. E eram aí 6 e picos.
Pedi, assim, uma água tónica. Depois, pedi algum gelo. Deixei passar uns minutos. Como eu suspeitara, os dois matulões da segurança bebiam vodka, em pequenos copos. Quando os vi pedir outra dose, disse ao barman que também queria, para mim, um vodka. Hesitou por um segundo, mas não tinha nenhuma razão para recusar o que acabara de dar aos seguranças. E lá me trouxe um copo com vodka.
Aí, não resisti: com um gesto largo, verti o vodka sobre a água tónica com gelo e exclamei: "Vodka tonic!". Os meus colegas desataram às gargalhadas e tenho a impressão que os seguranças também sorriram. Só temi que o barman tivesse uma Kalashnikov para poder concretizar o ódio com que me olhava.
Labels:
Histórias da diplomacia,
Memórias
sexta-feira, agosto 27, 2010
Carter
O antigo presidente americano, Jimmy Carter, acaba de obter a libertação de um cidadão do seu país, que havia sido condenado na Coreia do Norte. Para além do efeito político que os seus anfitriões possam ter tido como objetivo nesta ato, a verdade é que esta não é a primeira vez que a intervenção de Carter proporciona a resolução de certos casos complexos, na ordem internacional.
Jimmy Carter, que foi presidente entre 1977 e 1981, não é uma figura que tenha ficado gravada de forma muito positiva no imaginário histórico americano, talvez por não ter assumido a atitude jingoísta que muito dos seus concidadãos esperavam, em casos como a tomada de reféns na Embaixada americana em Teerão ou a invasão russa do Afeganistão.
Talvez o mundo, mais do que os EUA, tenha apreciado o fantástico êxito que consistiu a assinatura dos acordos de Camp David, que acabaram com a conflitualidade entre Israel e o Egito e lhe valeram o prémio Nobel da paz, o ato de devolução do canal do Panamá ao panamenhos, a distensão com Cuba, que permitiu a abertura da secção de interesses em Havana, bem como a assinatura do tratado de desarmamento SALT II. E, mais do que isso, parte da América talvez não tenha gostado do seu "puxar de tapete" a certas ditaduras latino-americanas, num recuo em relação à lógica subjacente à "doutrina Monroe".
Carter é um homem de bem, o presidente que trouxe os Direitos Humanos para a primeira linha da agenda externa americana. De certo modo, pode dizer-se que Barack Obama, sem o poder assumir, é um herdeiro da linha de Carter, o qual talvez tenha tido razão cedo demais.
Labels:
Estados Unidos,
Figuras,
Relações internacionais
quinta-feira, agosto 26, 2010
Perdigões
Há dias, veio-me à lembrança uma história curiosa que, vai para uns anos, um velho diplomata me contou, a propósito das dificuldades que, por vezes, surgiam no Protocolo do Estado, antes do 25 de Abril.
A hierarquia a estabelecer entre os convidados para refeições oficiais nem sempre é uma coisa óbvia e, muitas vezes, a solução final encontrada acaba por ser contestada. Já deparei com situações bem delicadas, com um ou vários convidados a ficarem furibundos com os lugares que lhes foram atribuídos num almoço ou jantar. Algumas regras básicas existem e são essenciais, mas o bom-senso e a experiência acabam sempre por ser o melhor conselheiro para as decisões neste domínio, em especial quando se misturam personalidades oriundas de meios muito diversos, sem uma "ordem" natural entre si. Percebo que estas coisas possam parecer "chinesices" a quem não é do "métier", mas posso garantir que, em todo o mundo, esta questão tem sempre a maior importância.
Comentava eu com esse meu colega uma dificuldade com que um dia nos havíamos confrontado na gestão protocolar de uma mesa, e que tinha provocado um incidente sério, quando ele me perguntou: "E os "perdigões"? Ainda têm problemas com eles?"
Era a primeira vez que eu ouvia falar dos "perdigões"! Foi então que o meu amigo me esclareceu que, nos seus tempos no MNE, havia sido criada essa figura "protocolar", para designar personalidades cujo "ranking" relativo com outras entidades, nomeadamente oficiais, era discutível, mas cuja importância pela função ocupada justificava claramente um "upgrading" nos planos das mesas. De onde vinha o nome? Claro, de Azeredo Perdigão, então presidente da Fundação Calouste Gulbenkian.
Não tenho ideia de que, nos dias de hoje, o nosso Protocolo de Estado ainda utilize esse conceito, mas de uma coisa estou certo: com esse ou com outro nome há certas figuras, dentre os convidados regulares dos banquetes oficiais, que requerem um cuidado à altura dos antigos "perdigões".
Gameiro
Chama-se Kevin Gameiro. É francês e uma das grandes surpresas da lista de escolhidos para a seleção nacional de futebol, há poucos minutos.
A sua ascendência é, claro!, portuguesa. O seu avô imigrou para França há muitos anos.
Labels:
Comunidade,
Desporto,
Figuras
Duas ou três coisas
Joyce, brasileira, compôs e canta com Ney Matogrosso... "Duas ou três coisas":
Duas ou três coisas que eu sei da vida
Posso até te aconselhar
Antes de mais nada esqueça os conselhos
Deixa o coração mandar
Duas ou três coisas que eu sei da estrada
Posso até te sugerir
Não vá pela sombra não, deixa o dia
Deixa a luz te colorir
Quem já viajou no bonde do sonho
Sabe onde ele vai parar
Salta muito antes do fim da linha
Na curva do mar
Duas ou três que eu sei do mundo
Eu podia te ensinar
Mas cada mergulho é um
Vá bem fundo e aprenda logo a nadar
Duas ou três coisas guardo comigo
Que eu podia te contar
Mas quem ta com Deus não corre perigo
Vá...
Onde o vento te levar
Oferta de um amigo, para ouvir aqui.
Posso até te aconselhar
Antes de mais nada esqueça os conselhos
Deixa o coração mandar
Duas ou três coisas que eu sei da estrada
Posso até te sugerir
Não vá pela sombra não, deixa o dia
Deixa a luz te colorir
Quem já viajou no bonde do sonho
Sabe onde ele vai parar
Salta muito antes do fim da linha
Na curva do mar
Duas ou três que eu sei do mundo
Eu podia te ensinar
Mas cada mergulho é um
Vá bem fundo e aprenda logo a nadar
Duas ou três coisas guardo comigo
Que eu podia te contar
Mas quem ta com Deus não corre perigo
Vá...
Onde o vento te levar
Oferta de um amigo, para ouvir aqui.
quarta-feira, agosto 25, 2010
Craveiro Lopes
O nome, agora conhecido, do próximo candidado presidencial do Partido Comunista Português, Francisco Lopes, leva a recordar que o nosso país já teve um presidente com um nome similar: Francisco Higino Craveiro Lopes.
Craveiro Lopes, um general da Força Aérea, surgiu na ribalta por virtude da morte súbita do presidente Óscar Fragoso Carmona, em 1951.
"Eleito" sob ditadura, em 1928, Carmona havia sido a resultante final dos golpes e contragolpes no seio das forças que fizeram o "28 de Maio", em 1926. O seu mandato, discretamente renovado em 1935 e 1942, viria a ser contestado, em 1949, pelo general oposicionista Norton de Matos, que desistiu antes do sufrágio. Ao que se sabe, as relações de Carmona com Salazar já não seriam as melhores, nos últimos anos de presidência, mas o velho general nunca se sentiu impelido a pôr em causa o aval que os militares, por seu intermédio, sempre deram formalmente ao Estado Novo. É que outro tipo de aval, complementar deste, e provavelmente mais eficaz na prática, era concedido ao ditador por Santos Costa, um hábil manobrador da corporação militar, que Salazar alcandorara à pasta da Defesa.
"Eleito" sob ditadura, em 1928, Carmona havia sido a resultante final dos golpes e contragolpes no seio das forças que fizeram o "28 de Maio", em 1926. O seu mandato, discretamente renovado em 1935 e 1942, viria a ser contestado, em 1949, pelo general oposicionista Norton de Matos, que desistiu antes do sufrágio. Ao que se sabe, as relações de Carmona com Salazar já não seriam as melhores, nos últimos anos de presidência, mas o velho general nunca se sentiu impelido a pôr em causa o aval que os militares, por seu intermédio, sempre deram formalmente ao Estado Novo. É que outro tipo de aval, complementar deste, e provavelmente mais eficaz na prática, era concedido ao ditador por Santos Costa, um hábil manobrador da corporação militar, que Salazar alcandorara à pasta da Defesa.
A morte de Carmona induziu no regime um tempo político muito interessante, com os monárquicos a vislumbrarem, na conjuntura, uma oportunidade para colocarem, como "rei", Duarte Nuno. Este último era um "herdeiro da coroa", oriundo da linha miguelista, ungido como candidato ao trono pelo facto do último rei efetivo, dom Manuel de Bragança, exilado desde a implantação da República, não ter deixado descendentes. Salazar, ao que parece, não nutria especial apreço pela figura de Duarte Nuno, quanto mais não fosse pelo facto de este falar um português sofrível e por ser muito duvidoso que um "estrangeirado" desconhecido pudesse vir a criar uma relação afetiva com o país, numa "restauração" realista que poderia mesmo abalar alguns equilíbrios internos do regime. Há quem entenda que Salazar, ao levar o partido único, União Nacional, a não acolher a ideia de uma reimplantação da Monarquia, optando por voltar a escolher um novo presidente, terá quebrado definitivamente o laço que, praticamente desde 1926, vinha a manter com setores da linha monárquica, numa hábil ambiguidade que havia permitido o esmagador apoio desta corrente à ditadura. Seja isto verdade ou não, o facto é que, a partir desse momento, alguns monárquicos passaram a contestar publicamente Salazar e a alinhar, com alguma regularidade, com a oposição contra o regime.
Para a "eleição" em que Craveiro Lopes foi escolhido - que decorreu já sob a égide da Guerra Fria, sem que a ditadura, recém-admitida na NATO, sofresse grande pressão internacional para a democratização - o regime considerou inelegível um oposicionista mais radical, o professor Rui Luis Gomes, e criou condições repressivas que forçaram a desistência de um militar moderado, o almirante Quintão Meireles. O general da "situação" acabaria por ser, assim, o candidato único.
Francisco Craveiro Lopes revelou-se, de início, um presidente dócil, mostrando mesmo uma grande reverência face a Salazar. Tinha uma boa presença protocolar e a memória fotográfica portuguesa recorda um tempo recheado de visitas de Estado que protagonizou pelo lado português, desde a rainha Isabel II à rainha Juliana dos Países Baixos, passando pelos presidentes brasileiros Café Filho e Juscelino Kubitschek. As suas deslocações a África ou ao Brasil (35 dias!) ficaram no imaginário de quem, por essa época, lia a "Flama" ou "O Século Ilustrado". Sinais há, porém, de que, a exemplo da distância criada com Carmona, também Craveiro Lopes, nos últimos anos do seu mandato, pode ter dado a Salazar razões políticas que aconselharam a sua não reeleição. Fala-se, em particular, do progressivo agravamento das relações do presidente com o ministro da Defesa, Santos Costa, com o primeiro a dar crescente expressão política junto de Salazar do desagrado de setores castrenses contra o segundo. Talvez por isso, em 1958, Salazar levou a União Nacional a prescindir de Craveiro Lopes e optou pelo contra-almirante Américo Tomás, que, depois de uma "eleição" contra o general oposicionista Humberto Delgado (ver aqui e aqui), haveria de ficar na chefia formal do Estado até ao 25 de Abril.
Craveiro Lopes terá ficado agastado com o seu afastamento e, após este, viria a tomar duas atitudes públicas com algum significado político. A primeira foi o seu inesperado prefácio ao livro do advogado Manuel José Homem de Melo, "Portugal, o Ultramar e o Futuro", em que subscreveu aquela que foi considerada uma proposta muito heterodoxa de nova política para as possessões africanas. A segunda atitude foi o seu aberto apoio à chamada "abrilada de 1961", a tentativa de golpe de Estado liderada pelo general Botelho Moniz, gorada por ingénuos formalismos dos seus promotores. É histórica, embora de certo modo caricata, a cena de Craveiro Lopes a entrar no Palácio da Cova da Moura, em 13 de Março de 1961, com uma mala na mão, na qual traria a sua farda de Marechal, com que tencionava reassumir as funções de chefe de Estado, após o esperado êxito do "pronunciamento".
Há uns anos, autorizei que fosse filmado no meu antigo gabinete de secretário de Estado - lugar exato onde a reunião final da conspiração de 1961 se realizou - o que julgo ter sido um "remake" desse patético momento. O último em que alguns generais das Forças Armadas portuguesas tiveram oportunidade de dar um novo rumo à política colonial, poupando o país a 13 anos de tragédia. Não o fizeram e tiveram de ser os capitães a intervir...
Labels:
Estado Novo,
Figuras,
História,
Política portuguesa
Remessas
A comunidade portuguesa ou luso-descendente em França continua a ser aquela que, em volume, envia mais remessas de dinheiro para Portugal, de acordo com números agora divulgados. Tais remessas cresceram mesmo 1,8% no primeiro semestre de 2010, se comparado com idêntico semestre do ano anterior, representando 407 milhões de euros.
Em geral, os portugueses no exterior enviaram, na primeira metade do ano, mais 5,2% do que no período homólogo de 2009, o que repercute uma forte inversão da tendência de decréscimo que vinha a registar-se desde 2007. Os portugueses na Suíça continuam a ser aqueles que, per capita, enviam um volume de remessas mais significativo.
O perfil da presença portuguesa em França - com uma maior taxa de fixação, em especial na 2ª e 3ª gerações - pode ajudar a justificar este comportamento diferenciado face à comunidade na Suíça.
Labels:
Comunidade,
Economia
Republicanismo
Fernando Catroga é um dos grandes historiadores portugueses. Ontem, no "Público", publicou um texto síntese exemplar, intitulado "O Republicanismo em Portugal", título, aliás, que retira de uma sua obra homónima.
Recomendo vivamente a sua leitura aqui.
Labels:
História,
Notas soltas,
República
terça-feira, agosto 24, 2010
Paris
Não, não estava assim Paris, ao final da tarde de ontem, quando aqui regressei.
Mas as nuvens que esta foto "roubada" do "Criativemo-nos" nos mostram são uma inspiração a que não resisti.
Labels:
Exclamações,
Paris
Braga
No sofrido mas brilhante resultado obtido contra o Sevilha, o Sporting Clube de Braga mostrou que não foi por acaso que, na época passada, chegou onde chegou.
É excelente constatar que há mais futebol em Portugal, para além dos três "grandes".
Labels:
Desporto,
Exclamações
Delito de opinião
O "Delito de Opinião", um espaço que já se transformou num referência da blogosfera portuguesa, estendeu-me hoje a sua passadeira vermelha, convidando-me amavelmente a publicar um texto por lá.
Quem tiver curiosidade, visite-(n)os aqui.
Labels:
Blogue(s),
Notas soltas
Fados
"Ela terá nascido cá?", perguntou aquele nosso embaixador, de visita de trabalho a Luanda, nos anos 80. E apontava para a placa "Avenida Deolinda Rodrigues". "Não era má fadista, mas daí a ter uma avenida com o nome dela...", continuou ele, bem perplexo.
Do banco de trás do meu Golf, saltou uma gargalhada sonora do funcionário do Ministério das Relações Exteriores, um querido amigo angolano. Imagino que tenha lançado também o seu imenso sorriso branco, reluzente na cara muito negra.
Deolinda Rodrigues, homónima de uma fadista lisboeta, foi uma guerrilheira e heroína do MPLA, presa e assassinada pela UPA/FNLA, em 1968. Na suposta data da sua morte é comemorado o dia da mulher angolana.
O meu colega, hoje já reformado, desfez-se em desculpas. Ainda há poucos anos me perguntava se eu achava que o diplomata angolano tinha ficado muito ofendido com a sua "gaffe". Ainda um dia tenho de perguntar isso ao meu amigo angolano.
segunda-feira, agosto 23, 2010
Brecht
Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho o meu emprego
Também não me importei
Agora estão a levar-me a mim
Mas já é tarde
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo
Poema de Bertolt Brecht, por amabilidade de Gil
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho o meu emprego
Também não me importei
Agora estão a levar-me a mim
Mas já é tarde
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo
Poema de Bertolt Brecht, por amabilidade de Gil
domingo, agosto 22, 2010
Voleibol
Era uma Embaixada pequena, idêntica a muitas que Portugal tem pelo mundo. Para além do "staff" administrativo, nela só havia o embaixador e um jovem diplomata, o chamado secretário de Embaixada.
Naqueles tempos, a agenda diplomática portuguesa era bastante limitada, com a Europa comunitária ainda distante e a defesa da política colonial já na história. Assim, e não havendo uma comunidade portuguesa relevante, o trabalho da Embaixada resumia-se ao acompanhamento das então escassas questões económicas e culturais, para além do reportar rotineiro a Lisboa da vida política do país, em especial nas suas relações externas com algumas áreas ou países que nos fossem mais relevantes.
Nestas circunstâncias, para o secretário de Embaixada, com o sangue-na-guelra dos primeiros anos de profissão, desejoso de aprender algo, qualquer trabalho que aparecesse acabava por ser bem-vindo, por forma a cortar a monotonia dos dias.
Já o mesmo se não podia dizer do embaixador, que, à medida que o trabalho rareava, parecia apostado em fazer cada vez menos. Aparentemente, mostrava-se mesmo deliciado com a ausência de quaisquer tarefas.
Um dia, chegou de Lisboa uma instrução para se praticar uma "diligência" (as chamadas "démarches" diplomáticas) junto do Ministério dos Negócios Estrangeiros local, inquirindo da posição do país perante uma situação internacional qualquer. Foi aí que o secretário teve uma surpresa: viu o seu embaixador, com um empenhamento que até então desconhecia, pedir uma audiência urgente ao chefe de departamento relevante, com um caráter expedito que parecia exceder em muito a importância objetiva do assunto.
Mas o espanto não se ficou por aí. Nem um dia era passado e o embaixador já estava dependurado ao telefone com o seu interlocutor diplomático local, insistindo por uma resposta breve. Obtida a mesma, num final de tarde, seguiu de imediato para Lisboa um telegrama detalhado, encerrando o assunto.
O nosso jovem estava siderado. Da placidez imobilista habitual, que tanto o irritava, o seu chefe passara a uma agitação quase frenética, numa matéria que talvez o não justificasse. Esta alteração de atitude intrigou-o. Com jeito, dias depois, numa conversa com o embaixador, deixou "cair": "Desculpe dizer isto, senhor embaixador, mas acha que o assunto merecia um tratamento tão urgente? Da comunicação de Lisboa, não se deduzia nenhuma pressa..."
Foi então que o jovem secretário recebeu uma magistral "lição" diplomática: "Meu caro. A vida numa Embaixada é como num jogo de voleibol: o grande risco é você ter a bola no seu lado do terreno. Assim, logo que você a recebe de Lisboa, passa-a de imediato ao parceiro (neste caso, o Ministério de cá) e não descansa enquanto não a remete para o outro lado da rede. Com a bola desse lado, você não perde pontos e pode ficar descansado...".
Pensando bem, não deixava de ter alguma razão!
sábado, agosto 21, 2010
Aldeia
Três histórias pessoais, verídicas.
Ia num taxi, em Paris, com um português, conhecimento muito recente. Toca o meu telefone, atendo, falo com uma amiga de Portugal. Ao desligar, o meu acompanhante pergunta: "Era 'fulana'?". Respondo que sim e pergunto: "Conhece-a?" "Fui casado com ela quase vinte anos..."
Outra história.
Almoço de trabalho em Lisboa. Falo de uma pessoa e, por uma qualquer razão, acrescento: "Ele tem várias irmãs". Resposta do meu interlocutor: "Eu sei, sou casado com uma delas".
E ainda outra.
Jantar em Brasília. Sou apresentado a um engenheiro português, que vive no Brasil há mais de três décadas. Pergunto-lhe onde se formou. No Porto. "Em que ano entrou para a faculdade?". Em 1966. Eu também frequentei Engenharia nesse ano. No Porto. Tínhamos andado no mesmo curso, nas mesmas aulas e lembrávamo-nos de histórias comuns...
Se isto não é uma aldeia...
Em tempo: Recomendo vivamente a leitura do comentário de Helena Oneto
Em tempo: Recomendo vivamente a leitura do comentário de Helena Oneto
Labels:
Coincidências,
Notas soltas
Burla
A placidez da vida de Vila Real foi abalada, nas últimas horas, por uma aparente burla, que envolveu os organizadores do festival "Querido mês de agosto", que prometia algumas dezenas de horas de música.
O escândalo surgiu com o cancelamento de um concerto de Pedro Abrunhosa, que já se encontrava na cidade, mas que se recusou a atuar por falta de pagamento do "cachet".
Ontem, ao comentar estes factos, um irónico interlocutor dizia-me: "O Abrunhosa não cantou? De qualquer forma, ele nunca cantaria..."
Labels:
Música,
Notas soltas,
Vila Real
Subscrever:
Mensagens (Atom)

















