Há dias, veio-me à lembrança uma história curiosa que, vai para uns anos, um velho diplomata me contou, a propósito das dificuldades que, por vezes, surgiam no Protocolo do Estado, antes do 25 de Abril.
A hierarquia a estabelecer entre os convidados para refeições oficiais nem sempre é uma coisa óbvia e, muitas vezes, a solução final encontrada acaba por ser contestada. Já deparei com situações bem delicadas, com um ou vários convidados a ficarem furibundos com os lugares que lhes foram atribuídos num almoço ou jantar. Algumas regras básicas existem e são essenciais, mas o bom-senso e a experiência acabam sempre por ser o melhor conselheiro para as decisões neste domínio, em especial quando se misturam personalidades oriundas de meios muito diversos, sem uma "ordem" natural entre si. Percebo que estas coisas possam parecer "chinesices" a quem não é do "métier", mas posso garantir que, em todo o mundo, esta questão tem sempre a maior importância.
Comentava eu com esse meu colega uma dificuldade com que um dia nos havíamos confrontado na gestão protocolar de uma mesa, e que tinha provocado um incidente sério, quando ele me perguntou: "E os "perdigões"? Ainda têm problemas com eles?"
Era a primeira vez que eu ouvia falar dos "perdigões"! Foi então que o meu amigo me esclareceu que, nos seus tempos no MNE, havia sido criada essa figura "protocolar", para designar personalidades cujo "ranking" relativo com outras entidades, nomeadamente oficiais, era discutível, mas cuja importância pela função ocupada justificava claramente um "upgrading" nos planos das mesas. De onde vinha o nome? Claro, de Azeredo Perdigão, então presidente da Fundação Calouste Gulbenkian.
Não tenho ideia de que, nos dias de hoje, o nosso Protocolo de Estado ainda utilize esse conceito, mas de uma coisa estou certo: com esse ou com outro nome há certas figuras, dentre os convidados regulares dos banquetes oficiais, que requerem um cuidado à altura dos antigos "perdigões".
