quarta-feira, setembro 02, 2009

Profundidade de campo

Como esperado, o novo filme de Manoel de Oliveira, "Singularidades de uma Rapariga Loira", está a merecer em França um acolhimento muito positivo, nas áreas da cultura que, desde há muito, mantêm um fascínio e veneração pelo realizador português. Um texto de página, no "Libération" de hoje, é disso prova clara.

Num dos pontos desse texto, o crítico refere que o filme tem a cena de uma jovem vista de longe: "La jeune fille a toujours l'air absent et comme filmée de loin, à la fois idéale et détachée, ou alors de si près qu'elle perd tout le sortilège de son charme".

Ao ler esta frase, lembrei-me de uma história que me foi contada pela minha colega embaixadora Margarida Figueiredo, que se terá passado, um dia, com um membro de um Governo português que presidia a um qualquer Conselho de Ministros, numa reunião da União Europeia, em Bruxelas.

Ao que ela me relatou - sem revelar, "bien entendu", o nome do político -, esse governante terá, a certa altura, ficado como que deslumbrado com a entrada na sala de uma nova ministra, oriunda de um qualquer país onde o loiro costuma abundar. Porque essa senhora chegara atrasada à reunião, o nosso homem, logo que teve a oportunidade de retomar a palavra, ter-se-á desvanecido numa manifestação de expressivas boas-vindas à recém-chegada, num exagero que por pouco não roçava o assédio verbal - a acreditar, como sempre acredito, na versão daquela minha colega. Alguns dos presentes terão mesmo ficado um tanto perplexos com tão calorosa manifestação por parte da presidência portuguesa. Mas, verdade seja, a União Europeia começa hoje a ser uma entidade no seio da qual já ninguém se surpreende com nada. Note-se ainda, porque não é irrelevante, que a tal ministra loira estaria sentada precisamente do outro lado da sala, naquelas mesas imensas, num lugar muito distante da nossa delegação.

No termo do almoço de trabalho, onde apenas tomam assento os ministros e o contacto é mais chegado entre eles, a embaixadora Margarida Figueiredo, cuja confiança de alguns anos com o governante já lhe permitia alguma ousadia, inquiriu-o ironicamente sobre como achara, no contacto pessoal, a nova colega, que visivelmente tanto o impressionara na sessão. A resposta foi cortante: "Afinal é uma velha! Parecia muito gira, mas está toda encarquilhada! Vou ter de mudar de óculos para ver à distância", concluiu, agastado. A galanteria portuguesa já não é o que era...

Angola

Não posso deixar de recomendar, no "Expresso" do passado sábado, que só hoje me chegou (Paris é longe...), o emocionante texto que Francisca Van Dunen dedica ao seu irmão e à sua cunhada, José Van Dunen e Sita Valles, mortos nessa maré de tragédia que foram os acontecimentos de 27 de Maio de 1977, em Angola.

Cheguei a Luanda em Maio de 1982, precisamente 5 anos depois desse tempo terrível e ouvi às vezes, sempre num sussurro de prudência, relatos esparsos desses dias em que, para sempre, se quebrou o encanto em torno de um certo sonho colectivo. Durante todos os anos seguintes que passei em Angola, raramente encontrei alguém disposto a abrir-se comigo sobre esses momentos, qualquer que houvesse sido o lado da barricada em que se tivesse então situado. Na altura, eu havia ficado com a sensação de que os angolanos faziam um esforço deliberado para provocar o esquecimento sobre esse período, como se as feridas acabassem por sarar melhor se se não olhasse para elas. Não era verdade. Muito do que, entretanto, se publicou sobre o 27 de Maio provou que nada substitui o trabalho em torno da verdade, qualquer que seja o preço que isso possa ainda ter e por muito que essa mesma verdade possa doer a alguns.

No seu texto, a Francisca, pessoa por quem tenho uma grande admiração e que é hoje um expoente de dignidade na turbulenta Justiça portuguesa, confronta a sua trágica memória por via da ternura e fá-lo com uma serenidade por onde perpassa bem todo o seu amor a uma certa Angola. Leiam o texto com atenção. Todos temos muito a aprender com ele.

terça-feira, setembro 01, 2009

Pedras Salgadas

Acaba de ser anunciado que a Unicer decidiu fazer entrega do Hotel Palace de Vidago ("do" Vidago, como dizem as gentes de lá) a um grupo hoteleiro de luxo francês, depois da intervenção feita por Siza Vieira naquele belo edifício - e cujo resultado arquitectónico ainda não tive o gosto de conhecer.

Mas o que eu já conheço - e bem! - é o impressionante atraso em que a Unicer está a arrastar as obras a que se comprometeu no Parque Termal das Pedras Salgadas, onde concentra todo o seu sistema industrial de engarrafamento de águas minerais, essa mina de ouro líquido que se esvai daquela terra, sem que para ela redunde um mínimo de contrapartidas. O já considerável atraso de tais obras está a criar uma situação angustiante para o comércio local, cujos últimos anos foram altamente penosos, precisamente devido ao encerramento do Parque e à perca progressiva da habituação da frequência do complexo termal.

Que fique claro: esta não é uma questão de natureza política, como alguns, de ambos os lados do espectro partidário, no calor das eleições que aí vêm, querem fazer crer e pretendem instrumentalizar, cada um à sua maneira. Trata-se apenas de um simples teste de honorabilidade da palavra de uma empresa que, perante as instituições oficiais do país, se comprometeu, para além de um conjunto de outras medidas, a abrir o Parque Termal das Pedras Salgadas e a construir, num prazo contratualmente bem determinado, um novo hotel - e não a estimular o surgimento de quaisquer sucedâneos, como já consta como pode vir a ser a alternativa.

A realidade é muito clara: o parque esteve e permanece fechado, as obras do hotel ainda não se iniciaram. Ora tudo isto contraria, em absoluto, aquilo a que a Unicer se comprometeu. Já corre que, como um também atrasado paliativo, a Unicer terá feito saber que o parque poderá abrir em 2010. Logo veremos, mas a grande questão, para a população local, aquilo que seria essencial a que a Unicer respondesse com clareza e precisão, seria dar a conhecer a data exacta do início e termo das obras do hotel - a única estrutura que tem verdadeiras condições para poder alavancar o renascimento das Pedras Salgadas como destino termal. Ou será que, afinal, já não haverá nenhum hotel, como muitos suspeitam? O grande teste para a boa fé da Unicer, em toda esta questão, seria ela responder - sim ou não - a esta simples pergunta. Terá frontalidade para isso?

Se a Unicer quer continuar a ser vista no país como uma entidade económica de bem, prolongando a relação de confiança que havia construído inicialmente com as Pedras Salgadas, e também para justificar os fundos públicos que entretanto já recebeu, tem de devolver todo o conjunto termal das Pedras Salgadas... em ponto!

Se o fizer, exactamente nos termos que subscreveu, sem recuos nem revisões de projecto, efectuados com o acordo ou não de complacentes entidades públicas sensíveis aos seus argumentos dilatórios, serei o primeiro a reconhecer que estive enganado e pedirei desculpas à Unicer por esta minha tomada de posição.

Se não o fizer, estarei entre os primeiros a ajudar a denunciar publicamente, por todos os meios que forem possíveis e necessários, que a empresa está a enganar as Pedras Salgadas e, em geral, a enganar o país, cujos fundos públicos lhe serviram para subsidiar esta sua operação de exploração económica, efectuada sob a condição de contrapartidas em matéria de melhoramentos turísticos, que até agora continuam a ser apenas uma miragem. A escolha é da Unicer, claro.

Este post foge um pouco do tom normal deste blogue, mas até um embaixador tem o direito à indignação. E eu estou sinceramente indignado com esta situação, que diz bastante a uma terra a que estou muito ligado.

Fitas

Manoel de Oliveira é uma unanimidade adquirida nos meios culturais franceses. Amanhã, será estreada em Paris a sua adaptação de "Singularidades de uma Rapariga Loura", um conto de Eça de Queirós que estava bastante esquecido. O "Le Figaro", de hoje, traz uma entrevista com o realizador. O sucesso do filme parece garantido.

O mesmo se não poderá dizer do filme "La Religieuse Portugaise", de Eugene Green, com Leonor Baldaque como protagonista e que é passado em Lisboa, que Marc-André Lussier, também hoje, "desfaz" no Cyberpresse, considerando inexplicável o respectivo êxito no recente Festival de Locarno.

O excessivo tempo dos planos e sequências, o tom monocórdico de alguns actores e das respectivas réplicas - tido isso é criticado neste último filme. Com o tempo, tenho esperança de ainda um dia vir a conseguir perceber a dualidade de critérios de alguma crítica cinematográfica.

segunda-feira, agosto 31, 2009

Cultura Europeia?

A questão da existência ou não de uma cultura europeia comum é um tema que atravessa a peça de teatro "L'Européenne", que vai ser apresentada no Théâtre de Ville, dirigido por Emmanuel Demarcy-Mota, e de aqui se falará mais tarde. A este propósito, deixo um texto retirado ontem do Télérama, da autoria de Alexis Tain.

E permito-me a imodéstia de juntar um artigo meu, sobre o mesmo tema, que proximamente será publicado numa obra colectiva a editar pela Fondation André Malraux. E que, se alguém tiver paciência, pode ler aqui.

Futebóis

Há dias, na televisão por cabo, a Comunidade portuguesa em França teve o privilégio de poder ver o Académica-Sporting, através da RTP Internacional, e... o Académica-Sporting, pela SIC Internacional. Simultaneamente, claro.

Hoje, tivemos o Benfica-Vitória de Setúbal, precisamente no mesmo modelo de programação.

Grande diversidade, esta que nos está a ser oferecida por duas grandes estações portuguesas de televisão! Obrigado!

Memória de Agostos (IV) - 1975

Em 1975, a vida estava a mudar. Simultaneamente, para o país e para mim.

O Verão desse ano ficou conhecido, na História política portuguesa, como o "Verão quente", por virtude de nele se terem agudizado os conflitos que vinham a opor os sectores mais moderados do Movimento das Forças Armadas com as correntes radicais, em especial com a chamada "esquerda militar", onde a influência do Partido Comunista se fazia sentir como determinante.

Foi em Agosto desse ano que assumiu funções o efémero V Governo Provisório, tributário de um vanguardismo que veio a revelar-se suicida e que era, ele próprio, sintoma do crescente isolamento em que o general Vasco Gonçalves e os que o acompanhavam se iam acantonando.

É também nesse mês que surge o chamado "Documento dos Nove", uma espécie de manifesto de militares moderados, da autoria de Melo Antunes (e muito com o dedo de escrita do actual embaixador Luís Castro Mendes, diga-se), à sombra do qual logo se colocaram todas as forças moderadas e conservadoras, que temiam a deriva radical que pressentiam que o país estava a seguir.

(Já agora, vale a pena dizer aqui, de forma bem clara, que a classe política cujo poder veio a emergir, no seio da vida democrática que a coragem dos "Nove" ajudou a proporcionar ao país, acabou por ser fortemente ingrata para com muitos desses homens. Mas isso são outras histórias...).

Agosto de 1975 foi também o mês da minha entrada no Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Tempos antes, num impulso que teve muito mais de lúdico do que de reflectido, eu decidira candidatar-me à carreira diplomática, um passo estimulado pelo diplomata e meu colega de tropa, António Franco, e que eu via também como um desafio interessante para mim mesmo. Estava no serviço militar desde 1973, andava fortemente envolvido nas ondas da Revolução, e achei graça testar a minha capacidade numa área que sempre me interessara, mas por onde nunca sonhara passar - por ser, diga-se em abono da verdade, um terreno profissional cuja imagem pública me não seduzia minimamente e de cuja caricatura tudo me afastava.

As múltiplas provas de acesso, espalhadas ao longo do primeiro semestre de 1975, foram já como que um prenúncio da vida civil a que, em qualquer circunstância, eu regressaria em breve. Desde 1971 que era funcionário da Caixa Geral de Depósitos e, acabado o serviço militar, para aí voltaria, com um salário bem melhor do que aquele que o MNE então oferecia.

Com alguma surpresa minha, face às expectativas que tinha, acabei por ser admitido na carreira diplomática! E agora?! Que fazer? para utilizar o título de um autor que, à época, estava a ter dias de glória nas estantes portuguesas. Acabei por "arriscar"...

E foi assim que, na cálida manhã de 13 de Agosto de 1975, de cabelo bastante comprido e com um bigode façanhudo, coloquei uma relutante gravata e tomei posse como diplomata, num grupo de "adidos de embaixada", o primeiro, aliás, em que às mulheres foi autorizada a admissão na profissão - uma abertura que, registe-se, se havia ficado a dever ao anterior MNE, Mário Soares.

Graças ao 25 de Abril, não tive então de ler o juramento a que o Estado Novo obrigava os funcionários públicos (e que cito, de cor, sem a total certeza de estar a a ser 100% fiel ao texto): "Declaro, por minha honra, que estou integrado na ordem política e social instituída pela Constituição da República portuguesa de 1933, com activo repúdio do comunismo e de todas as ideias subversivas".

A partir de então, podia pensar o que quisesse. Pelo menos, eu julgava isso.

domingo, agosto 30, 2009

Deolinda

Viver fora do país tem este preço: só há pouco tempo, por indicação de amigos, comprei o disco "Canção ao Lado", dos Deolinda.

Tenho de revelar que há muito que um primeiro disco de um grupo português não me impressionava tanto. Trata-se de um conjunto variado de temas, com grande força e consistência, que traduzem umas expressiva maturidade musical, produto, ao que parece, das origens dos membros do grupo. A sonoridade é muito moderna, ao mesmo tempo que bastante popular, sem cair no "popularucho". Aqui e ali, tem mesmi um toque de certa sofisticação, patente nas letras e nalguma sua ironia. A combinação de intrumentos tradicionais com uma voz magnífica da vocalista é algo de muito diferente do que estamos habituados a ouvir. Já escutou fado sem guitarra portuguesa? Pois, com os "Deolinda", tem isso. E que fados!

Não sei se este blogue pode fazer propaganda (ou publicidade, como uma leitora preciosista me aconselha a escrever), mas eu arrisco: comprem o disco dos "Deolinda" e não se arrependerão. E fiquem, desde já, com este som ou visitem o seu excelente site.

Retrato de um amigo

Nestes que são os últimos dias de férias para a maioria das pessoas, lembrei-me de quem tem a sorte de estar quase permanentemente nelas. Desde há muitos anos que tenho um amigo, com uma actividade cuja matriz é em tudo alheia à da minha profissão, cuja capacidade para conseguir escapar à rotina do trabalho se tornou já lendária. Procura, em primeiro lugar, não ter nada para fazer e, se isso se torna em absoluto impossível, tenta fazer apenas o que lhe apetece e, mesmo assim, no tempo que lhe apraz. Como é inteligente, tem já um insuperável "know-how" na matéria, uma soma de truques que confundem os não iniciados, pouco aptos a detectar essa imparável deriva lúdica em que consegue transformar o seu quotidiano.

Mas não julguem que se trata de tarefa fácil: ele tem imenso "trabalho" em lutar por funções que o isentem de trabalhos, em que os horários possam ser detalhes despiciendos, onde sejam viáveis exercícios criativos de ubiquidade administrativa, mas também onde sempre possa, a olhos desprevenidos, fazer passar um sopro de actividade virtual, dando permanentemente a ideia de ter alguma coisa em curso de execução. Ah! e queixa-se das episódicas tarefas que lhe cabem, como é natural. Enfim, trata-se de um génio na gestão do seu tempo, que deveria mesmo escrever um manual sobre o tema, se isso não desse trabalho...

Como (algum) mundo é o que é, como ele sabe "mexer-se" e não é mau rapaz, lá vai (não) fazendo pela vida, nesse seu anti-stakhanovismo endémico, o qual, a meu ver, deve fatigar imenso. Sempre achei que, quando um dia ele vier a ter um epitáfio - e não será "morto de cansaço"... -, deveria ser uma corruptela do lema do infante dom Henrique: "Talent de rien faire".

Absorto

Um dos mais interessantes e empenhados espaços da blogosfera portuguesa, o Absorto, acaba de designar este blogue como um dos seus destinos de consulta "viciante".

Ao seu autor, Eduardo Graça, homem entusiasmado com a vida e com a descoberta incessante do modo como nos compete melhorá-la para usufruto de todos, deixo aqui um forte e grato abraço. É um abraço que vem já de muito longe - das longas noites das RIA's, das conversas de esperança na parada da EPAM, do Abril comum e das madrugadas que se cantaram pelas agitadas salas da dom Carlos, nessa aventura sem par que foi o MES. E de várias cumplicidades posteriores.

Pela razão que é óbvia, dedico-lhe, de Paris, este eterno Moustaki.

Dívida

A propósito do debate em torno do "grande empréstimo", que o Governo francês de apresta para lançar, julgo curioso referir um comentário que hoje surge no "Le Monde": "La dette existe depuis le début de l'Histoire et dans tous les pays! Elle est indispensable pour permettre aux états, entreprises et particuliers d'anticiper des recettes pour investir davantage! Un pays sans dette c'est le Portugal de Salazar, avec l'escudo en Or et que la population fuit en émigrant!"

sábado, agosto 29, 2009

Edward Kennedy

Não me seduzem as dinastias, embora tenha o maior respeito pelas famílias. Nunca olhei para Edward Kennedy como o putativo e frustrado sucessor do sonho interrompido dos seus irmãos, essa mitologia aristocrática de "Camelot", construída por sebastianismos de linhagem, que radica numa triste saga de tragédias familiares, explorada à exaustão pelos "media".

Edward Kennedy foi "his own Kennedy", um homem sério, íntegro e digno, que acreditava nos valores de uma América solidária e justa e que, em alguns momentos importantes, teve a coragem de os assumir e afirmar. Como o presidente Obama ontem bem recordou. É por isso, e só por isso, que ele merece o nosso respeito.

659 !

As editoras francesas anunciam, para a "rentrée" deste Outono, a publicação de 659 romances.

Uau!

sexta-feira, agosto 28, 2009

Geremek

Bronislaw Geremek, que dá o nome ao prémio e que foi o criador da Comunidade das Democracia, era um polaco sábio e amável, que nos deixou há pouco mais de um ano e que, em cada tempo, acreditou naquilo que entendeu que era preciso acreditar – desde os “amanhãs que cantam” ao projecto da Europa unida, passando pela luta pela liberdade do seu povo, dessa magnífica Polónia que soube sofrer, com serena dignidade, as tragédias que a sorte lhe destinou.

Ouvir de Geremek a palavra suave, dita numa tonalidade tranquila de comovente convicção, sublinhada numa cadência silábica que soava a doutrinária, foi um privilégio que fui tendo, ao longo de vários anos. No seu magnífico francês, em que exprimia as duras lições de um tempo de traumáticas transições, sempre lhe descortinei, por detrás da barba professoral, o sorriso leve, um tanto entre o triste e o nostálgico, mas uns olhos brilhantes que não traíam a genuinidade do que afirmava.

Conheci-o pela primeira vez em Varsóvia, no seu gabinete de chefe da diplomacia polaca. Uma curta visita de cortesia que lhe solicitara, em que me falou pela primeira vez na sua proposta da Comunidade das Democracias, transformou-se, a partir de uma pergunta que lhe fiz sobre a evolução política recente em Moscovo, em cerca de hora e meia de conversa, dedicada ao peso histórico que essa vizinhança eterna determinava. Por detrás das palavras, como que se podia descortinar, assumida a ironia, o modo profundo como o medievalista que ele era se comprazia na desconstrução contemporânea da Rússia eterna.

Do modo claro como falou das novas lideranças de Moscovo, da preocupação com a Ucrânia e dos desafios comuns que seriam necessários para a superação de um passado traumático recente, julgo ter aprendido, nessa manhã, o que os livros nunca me haviam ensinado. E talvez tenha então percebido, definitivamente, que o alargamento da União Europeia ao centro e leste do continente, que então se perspectivava, era a resultante natural do processo de reconciliação que a Europa estava a dever a si própria, a vitória final sobre a hipocrisia que Ialta tinha imposto às gerações sacrificadas pelo cinismo da realpolitik - gerações que Geremek bem representava.

Recordo que os diplomatas Carlos Neves Ferreira e Ana Gomes, esta última que viria a ser sua colega no Parlamento Europeu, me acompanharam na escuta atenta dessa sua leitura, serena e convicta, muito diferente das que íamos ouvindo sobre o tema, por parte de outros dirigentes dessa “nova Europa” nascente.

Inquiriu então sobre o modo como Portugal vivia a unificação europeia, quis saber como os portugueses – um povo cuja História o apaixonava – haviam conseguido apagar, no seu imaginário colectivo, a longa mitologia ultramarina, que a ditadura explorara em proveito da sua própria sobrevivência, para embarcarem na nova aventura de um continente que, afinal, nunca tinham verdadeiramente abandonado.

A convite de Jaime Gama, por quem confessava amizade e grande admiração, Geremek passou uma vez por Lisboa, para falar aos diplomatas portugueses sobre o modo como a sua Europa nos olhava, ainda de fora. Do que disse, julgo que todos intuíamos já que a Europa de que ele nos falava não era, afinal, uma outra Europa, era a Europa que sempre existira dentro de quem, como ele, via no projecto colectivo a chave para a estabilidade e para a paz.

Um dia, a seu pedido, fui a Varsóvia falar a jovens polacos sobre o percurso português na União Europeia. Num pequeno jantar que ofereceu, num restaurante de que apenas recordo o ambiente de acolhedora decadência, colocou-me ao lado de Tadeusz Mazowiecki, seu velho companheiro do Solidariedade e então primeiro-ministro. Geremek desafiou-me: “Veja se convence o Tadeusz que Portugal é dos países que acreditam que, sem a Polónia, nunca haverá uma verdadeira Europa”. Não me recordo se tive êxito nessa minha tarefa, mas lembro-me bem da citação de Montesquieu que Geremek repetiu nesse jantar: “A Europa é a nação de bem das nações". Apetece-me repetir a certeza que tenho de que Bronislaw Geremek era um singular europeu de bem entre os europeus.

Duas luas

Anda por aí na internet uma história de duas luas. Os mais cépticos duvidam, os mais crédulos aceitam-na.

Ora bem: leiam Hugo Pratt e o seu "Tango", onde Corto Maltese explica tudo. E divirtam-se.

"Nègres"

Alguns políticos franceses, como aqui já se referiu um dia, publicam regularmente livros, seja de reflexões temáticas, seja de memórias, seja - o que é ainda mais frequente - de ambições. De quando em vez, parte dos actores da vida política no activo sente necessidade de fazer uma espécie de "prova de vida" escrita. Isso leva-os à televisão, aos jornais e aos espaços nas mesas e estantes que as livrarias acordam com as distribuidoras. Os livros com êxito têm críticas nos jornais ou revistas e, muitas vezes, acabam mesmo por ter edições "de poche" - suprema glória. Quando não caem no goto dos leitores, a cobertura fica-se por umas meras recensões. Nestes casos, semanas depois, tais livros desaparecem da vista. Ou melhor, aparecem já pelos "bouquinistes", então a preço convidativo.

Foi agora revelada uma estatística curiosa: cerca de 80% dos livros subscritos pelos políticos franceses são, na realidade, redigidos por colaboradores, aqui chamados de "nègres" ou, numa versão mais simpática, de "plumes". Porque é que isso acontece? Por falta de tempo ou, as mais das vezes, por falta de jeito. Mesmo figuras com reconhecida capacidade própria de escrita, como De Gaulle, Pompidou, Mitterrand ou, mais recentemente, Dominique de Villepin, não dispensaram a ajuda constante de colaboradores para a produção das suas obras.

Esta nota destinou-se a criar o cenário para uma brevíssima história que ontem o "Le Point" trouxe, ocorrida entre dois políticos proeminentes, que mantinham entre si uma relação de ácida cordialidade. Um deles, ter-se-á virado para o outro e disse: "Vi que publicaste um livro. Quem to escreveu?". O interlocutor não respondeu, mas inquiriu: "E quem foi que o leu por ti?".

Aqui em França, tal como em outros lugares, a vida política é um espaço insuperável para a expressão de carinhosas manifestações de simpatia.

quinta-feira, agosto 27, 2009

Mobilidade Social

Um novo fenómeno está a preocupar a França: o chamado "déclassement" social.

Tradicionalmente, o bem-estar e a confiança na sociedade baseia-se muito na regra optimista de que cada geração consegue, em regra, face à geração dos respectivos pais, consagrar uma "subida" social. Os pais lutam para que os seus filhos tenham uma vida melhor do que a que eles próprio tiveram e o alimentar dessa perspectiva constitui uma das forças-motrizes do progresso e da satisfação intergeracional.

Ora os últimos números conhecidos em França revelam que, sendo ainda a ascensão social maioritária no país, começam a ser quantitativamente muito importantes os casos em que os filhos de uma geração acabam por ter condições de vida inferiores às dos seus pais, não obstante possam ter acesso a certos símbolos de modernidade que muitos confundem com saltos no bem-estar (internet, iPod, discotecas, telemóveis, roupa de marca, etc), dando uma imagem ilusória de progresso. O insucesso escolar, a aumento da competição académica e profissional, o desemprego e as dificuldades de acesso a uma habitação condigna - com consequências numa saída cada vez mais tardia da casa das famílias - tudo isto aponta para consagrar um "déclassement" social. Daí à gestação de um clima acentuado de "malaise" e de inadaptação, com consequências políticas curiosamente muitos pouco unívocas, é um passo muito curto.

Estarão as forças políticas tradicionais à altura de se confrontarem com esta nova geração de "enragés" sociais?

Portugueses

Curioso o retrato dos portugueses que Joaquim Vital - uma personalidade cultural de quem aqui iremos falar em breve - traça no seu "Adieu à Quelques Personnages" (ed. La Différence, 2004), uma memória de vida e dos outros, livro que há pouco li:

"En général, les Portugais s'evertuent à déprécier leur pays, tout en soulignant son passé épique, et leurs compatriotes, des nains par rapport aux géants de jadis, et ils se prosternent devant "l'étranger", concept fumeux qui englobe l'ensemble des nations développées de la planète, et "les étrangers", chanceux ressortissants de ces contrées imaginaires. Les intellectuels se sont illustrés dans ces exercices d'autoflagellation, et ce n'est pas un hasard si, pour les écrivants du bord du Tage, du Douro ou du Mondego, le fleuve essentiel a été, des siècles durant, la Seine."

quarta-feira, agosto 26, 2009

Empresários

Um estudo académico português acaba de revelar serem algo desanimadores os resultados que se extraem, em matéria de realização efectiva de negócios, da presença de empresários nacionais que viajam integrados em visitas oficiais portuguesas ao estrangeiro. Segundo essa análise, os responsáveis empresariais frequentemente não preparam com cuidado as reuniões com os seus contrapartes e o saldo destes exercícios acaba, muitas vezes, por não ser relevante para as nossas exportações ou para a criação de parcerias.

Há cerca de cinco anos, numa intervenção na reunião anual do Fórum dos Embaixadores da então API (Agência Portuguesa para o Investimento), expressei a ideia de que deveria ser feita uma "sindicância funcional" aos resultados efectivos que Portugal tinha obtido com a contínua presença de empresários nas comitivas oficiais portuguesas ao estrangeiro, ao longo das últimas décadas. Qualifiquei mesmo algumas dessas viagens - não todas, como é evidente - como um simples "turismo empresarial". As minhas palavras não saíam do nada: derivavam da observação continuada do comportamento de alguns dos nossos empresários, em imensas ocasiões que eu próprio havia testemunhado.

Quem estava presente nessa reunião deve lembrar-se que esta minha sugestão provocou então algum mal-estar, porque parecia que eu estava a tocar numa qualquer "vaca sagrada", como se o apontar do dedo ao sector empresarial, privado ou público, constituísse em Portugal um acto de lesa-magestade.

Assumo a imodéstia de que, afinal, eu poderia ter alguma razão. Infelizmente.

Colecção Berardo


Há meses, como oportunamente aqui se assinalou, esteve em Paris uma parte da colecção Berardo, que hoje ocupa um importante espaço no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. A sua apresentação em França foi um considerável êxito.

Trata-se de um conjunto significativo de obras de alguns dos maiores autores da arte contemporânea, reunido ao longo de anos. Se alguns trabalhos não representam, necessariamente, o expoente da produção de certos artistas, o conjunto não deixa de ser um valioso património, que muito enriquece o nosso país.

Hoje, chegou-me a indicação de um blogue onde se faz uma apresentação, simples mas nem por isso menos interessante, sobre a colecção Berardo e os artistas nela expostos, com várias referências ao Centro Cultural de Belém. As fotografias inseridas podem não ser da melhor qualidade, mas o blogue é útil a quem pretenda saber o que é a colecção e o que pode nela encontrar. Aqui deixo o link do blogue, bem como o site da própria colecção.

Fica também uma imagem de um quadro de Wesselmann, um pintor da pop-art, escola a que a colecção dedica muita atenção.

Verdades

De quando em vez, acontece-me ter de apresentar um livro. Na maioria dos casos, trata-se de obras de não-ficção, porque romances ou contos (...