Não posso deixar de recomendar, no "Expresso" do passado sábado, que só hoje me chegou (Paris é longe...), o emocionante texto que Francisca Van Dunen dedica ao seu irmão e à sua cunhada, José Van Dunen e Sita Valles, mortos nessa maré de tragédia que foram os acontecimentos de 27 de Maio de 1977, em Angola.Cheguei a Luanda em Maio de 1982, precisamente 5 anos depois desse tempo terrível e ouvi às vezes, sempre num sussurro de prudência, relatos esparsos desses dias em que, para sempre, se quebrou o encanto em torno de um certo sonho colectivo. Durante todos os anos seguintes que passei em Angola, raramente encontrei alguém disposto a abrir-se comigo sobre esses momentos, qualquer que houvesse sido o lado da barricada em que se tivesse então situado. Na altura, eu havia ficado com a sensação de que os angolanos faziam um esforço deliberado para provocar o esquecimento sobre esse período, como se as feridas acabassem por sarar melhor se se não olhasse para elas. Não era verdade. Muito do que, entretanto, se publicou sobre o 27 de Maio provou que nada substitui o trabalho em torno da verdade, qualquer que seja o preço que isso possa ainda ter e por muito que essa mesma verdade possa doer a alguns.
No seu texto, a Francisca, pessoa por quem tenho uma grande admiração e que é hoje um expoente de dignidade na turbulenta Justiça portuguesa, confronta a sua trágica memória por via da ternura e fá-lo com uma serenidade por onde perpassa bem todo o seu amor a uma certa Angola. Leiam o texto com atenção. Todos temos muito a aprender com ele.