Na eleição presidencial brasileira de 1950, ficou muito popular um jingle radiofónico que aconselhava a que se recuperassem os antigos retratos oficiais de Getúlio Vargas: “Bota o retrato do velho outra vez / bota no mesmo lugar”.
Lembrei-me disto na madrugada deste domingo, quando se assistiu à reeleição de Lula da Silva, de 80 anos, para um quarto mandato de quatro anos. O retrato de Lula vai ser “botado” outra vez nas paredes.
Ao contrário de Getúlio, Lula sofre de um otimismo não suicidário, pelo que, em sentido inverso do ditador reciclado em trabalhista, não precisará de sair da vida para entrar na História. Já lá chegou — e com todo o mérito. E, ao também invés do gaúcho que deportou a mulher de Luiz Carlos Prestes para a Alemanha nazi, Lula não precisará de mudar. Com todos os seus defeitos, Lula foi sempre igual a si próprio. Esta quarta vitória é, muito simplesmente, o reconhecimento do Brasil por essa coerência.
A longa marcha
Em 1989, por esta altura, eu estava de férias no Brasil. Decorria uma campanha presidencial. Durante dias, fiquei colado à televisão, arruinando programas turísticos organizados por amigos. Começou ali a minha descoberta da imensa diversidade da vida política de um Brasil de novo em liberdade.
O favorito do sufrágio, que depois seria o seu vencedor, era Collor de Mello, um candidato com um discurso suficientemente plástico para agradar às elites e aos meios de comunicação. Três anos depois, os escândalos afastá-lo-iam da presidência.
O seu opositor era um sindicalista, então com um ar um pouco “troglodita”, barba larga e “look” quase ameaçador, dizendo, sem jeito mediático e sem o sorriso que a experiência lhe faria ganhar, algumas coisas que assustavam parte da classe média. Chamava-se Luiz Inácio Lula da Silva.
A campanha presidencial de 1989 significou, verdadeiramente, o regresso à plena liberdade política e a consolidação da democracia no Brasil, depois da aprovação de uma nova Constituição. No essencial, encerravam-se ali mais de duas décadas de uma sinistra ditadura militar.
Aquele foi um tempo político magnífico para a vida cívica do Brasil. Por esses dias, assistia-se às campanhas de Ulisses Guimarães, Mário Covas, Leonel Brizola, Fernando Gabeira, Paulo Maluf e do bizarro Enéas, com os seus 15 segundos de antena — no Brasil, o tempo de campanha oficial depende da força dos partidos apoiantes —, que quase só tinha tempo para dizer: “Meu nome é Enéas”. Collor ganhou, com Lula a fazer uns extraordinários 47%.
Lula tinha criado um partido que o acompanharia ao longo de toda a sua vida política: o PT, Partido dos Trabalhadores. O PT nunca teve mais de 20% dos votos, pelo que as vitórias de Lula, acima dos 50%, mostram a mais-valia que ele é: o lulismo valeu sempre muito mais do que o petismo.
Lula é um socialista democrático, católico, radical em algumas políticas sociais, mas um escrupuloso respeitador da legalidade constitucional. Nunca foi marxista — e, com toda a certeza, nunca leu Marx, nem sequer leu muito. Já o PT é um interessante “pot-pourri” da esquerda e do socialismo de vários matizes. Completam-se bem.
Depois de 1989
Em 1994 e 1998, Lula voltou a concorrer à presidência. E tornou a perder, ambas as vezes, contra Fernando Henrique Cardoso (FHC), alguém com quem tinha feito algum percurso comum contra a ditadura, mas que as águas políticas entretanto separaram.
Voltaria a concorrer ao Palácio do Planalto uma quarta vez, em 2002, ganhando, dessa vez, a José Serra, na impossibilidade de Fernando Henrique Cardoso concorrer a um terceiro mandato — ele que antes conseguira a mudança da Constituição para poder ser reeleito.
Lula seria reeleito, em 2006, com 61%, tendo Geraldo Alckmin como principal adversário. Alckmin é hoje, como o foi nos últimos quatro anos, o seu vice-presidente. Recordo a elevação do debate televisivo entre os dois, nessa campanha de há duas décadas — em contraste com as disputas ácidas com os dois representantes da linhagem Bolsonaro que entretanto lhe coube derrotar.
Estive no Brasil, como embaixador, durante parte do primeiro e do segundo mandato de Lula. Cheguei a Brasília num tempo de alguma euforia nas relações económicas bilaterais, com interessantes resultados de empresas portuguesas no mercado brasileiro. Foi também o momento, complexo e não isento de polémica, de gestão política dos fluxos migratórios do Brasil para Portugal.
Tive a sorte de poder criar com Lula uma muito boa relação pessoal. É uma pessoa cativante e muito agradável no trato.
Muita gente do seu partido estava, e está, longe de ser fã das relações com Portugal, desde logo a ministra que, já depois da minha saída, acabou por ser a sua sucessora. E que acabaria atropelada por um vergonhoso “impeachment”, onde já emergia a pulsão de extrema-direita que o bolsonarismo cavalgou.
Lula foi sempre a exceção: nunca, nos quatro anos que estive no Brasil, deixei de contar com o seu permanente interesse em tratar bem Portugal, sem descurar os interesses brasileiros. Testemunhei, em especial, a atenção com que tratou interlocutores portugueses que foram ao Brasil, por esse tempo: José Sócrates, Mário Soares, Jaime Gama, Cavaco Silva, Jorge Sampaio e alguns outros.
Será sobretudo no terreno social que a primeira passagem de Lula pelo poder deixou a marca mais duradoura. Com o Bolsa Família, o Fome Zero, a valorização do salário mínimo e a expansão do emprego e do crédito popular, os seus dois primeiros mandatos retiraram milhões de brasileiros da pobreza e reduziram de forma significativa a desigualdade. Lula colocou a inclusão social no centro da política brasileira de uma maneira que nenhum dos seus antecessores havia conseguido.
Agora
A “virada” que Lula conseguiu, da primeira para a segunda volta destas eleições, vai seguramente entrar nos manuais da ciência política. Nos tempos mais próximos, os exegetas do quotidiano vão explicar o porquê do sucesso do “velho” e as razões da derrota de um “novo” que, afinal, representava o que há de mais vetusto na política: o autoritarismo retrógrado, o revanchismo, o apelo ao que de mais baixo a política pode evocar.
Lula vai ter muita dificuldade em governar, com um Congresso dominado pela oposição e pelo ressabiamento. Por saber fica também o modo como a direita brasileira se vai reinventar: se permanece nas mãos de uma geração extremista, adubada pelo radicalismo evangélico, ou se regressará à vocação conservadora tradicional, democrática e dialogante, a única digna de uma grande democracia como é o Brasil.
Não sabemos o que vão ser os próximos quatro anos. De uma coisa poderemos estar seguros: ter um líder democrático eleito a contraciclo de uma onda mundial autoritária é uma excelente notícia para quem acredita que a liberdade ainda tem um largo futuro.
(Publicado no site da CNN Portugal)

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