O Brasil já foi o reino do otimismo. Ao longo de décadas, pagou mesmo, em ironias, essa ideia de ser apenas um "país do futuro".
O Brasil que, a 1 de janeiro de 2027, o seu novo ou renovado presidente encontrará já nem desse otimismo vai beneficiar. As sondagens revelam uma rara inquietação com o futuro.
Não se tratará de uma maldição. É o resultado de uma reiterada incapacidade para transformar oportunidades num progresso duradouro. O que não é pouco.
O Brasil não é pobre em recursos nem desprovido de capacidades. É uma potência agrícola, tem minerais abundantes, uma matriz energética invejável e um mercado interno de mais de duzentos milhões de pessoas. A sua democracia resistiu a crises graves.
O que falta, então? A pergunta é antiga: porque é que tantas oportunidades produzem tão pouco desenvolvimento estável?
O Brasil parece ser um refém endémico das conjunturas. Quando as circunstâncias ajudam, cresce a sua ambição, quando elas deixam de ajudar, regressam os problemas nunca resolvidos. O estrutural nunca amadurece suficientemente no Brasil.
O início deste século mostrou-o bem. Os dois primeiros mandatos de Lula beneficiaram da ascensão da China, cuja procura de minério de ferro, soja e petróleo fez subir as exportações brasileiras. O crescimento permitiu alargar o consumo, reduzir a pobreza e dar voz política a quem estava afastado da prosperidade.
Esse foi um progresso real. O erro foi não ter sabido aproveitar o vento favorável para preparar o período seguinte: a indústria perdeu competitividade, as infra-estruturas ficaram aquém das necessidades e o aumento dos rendimentos não veio acompanhado de ganhos comparáveis de produtividade. O país tornou-se mais capaz de consumir, mas não de produzir bens e serviços sofisticados.
Quando a conjuntura externa se deteriorou, a fragilidade tornou-se evidente. Dilma Rousseff herdou uma economia em desaceleração, que se transformou na recessão de 2015 e 2016, e a crise económica cruzou-se com a Lava Jato e a perda de apoio parlamentar. A economia pesou muito no desfecho da presidente, embora tenha ficado ofuscada pela dimensão política.
Depois de um interregno, seguiu-se Jair Bolsonaro, que chegou ao poder no rescaldo dessa crise e cavalgou como ninguém a divisão do país, com a pandemia a expor as fragilidades da resposta pública, protagonizando finalmente uma tentativa de golpe indigna de uma democracia como a brasileira.
Lula regressou, prometendo recuperar a agenda social e normalizar a vida institucional, e conseguiu resultados no emprego e nos rendimentos.
Mas a questão central ficou por responder: como crescer depressa, sem depender de ventos externos favoráveis, para financiar melhores serviços públicos e reduzir desigualdades?
É aqui que começa o problema do próximo Presidente, seja ele quem vier a ser. As contas públicas deixam pouca margem. E o dilema não se resolve escolhendo entre gastar e cortar: sem investimento em transportes, educação e infra-estruturas, a economia continuará a produzir abaixo das suas possibilidades, e as consequências políticas não tardarão. O que o Brasil precisa é de saber gastar melhor.
A educação pesa tanto como a economia. O Brasil tem universidades e centros de investigação de qualidade, mas a formação básica não acompanha as necessidades de uma economia que quer modernizar-se. Não basta importar tecnologia ou conceder incentivos, é preciso ter pessoas capazes de a desenvolver, adaptar e utilizar.
Como pano de fundo de tudo isto está um sistema político que penaliza as decisões de longo prazo. A fragmentação partidária obriga a negociar quase tudo com um Congresso onde se projetam interesses muito distintos, cujo somatório é dificilmente consonante com um exigente programa de regeneração nacional.
Entretanto, nem tudo são más notícias: o mundo exterior vai oferecer novas oportunidades ao Brasil — independentemente das incógnitas que a atitude americana hoje induz por toda a parte.
A transição energética aumenta a procura de minerais estratégicos, a reorganização das cadeias de abastecimento leva as empresas a procurar novas localizações e a matriz energética brasileira pode atrair mais indústria. Mas não basta extrair minério, vender petróleo ou exportar soja. O importante é desenvolver investigação, promovendo a transformação industrial e tecnológica, em torno daquilo que o país já tem. Para isso, o investimento exige previsibilidade e as empresas não podem viver sob a ameaça de ver mudar as regras a cada alternância política.
O Brasil não precisa de mais promessas retóricas de grandeza. Tem dimensão, recursos e talento. Precisa de três ou quatro reformas que sobrevivam aos ciclos económicos e às disputas partidárias.
O próximo Presidente será avaliado menos pelo que anunciar em 2027 do que por aquilo que vier a existir no termo do mandato. Terá a vantagem de as expetativas não estarem muito elevadas.
(Texto hoje publicado no site da CNN Portugal)

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