Perdemo-nos à saída de um concerto na Gulbenkian, há uns bons meses, debaixo de chuva, à procura de táxis. No intervalo, tínhamos falado em organizar aquele almoço ou jantar que faz parte do ritual dos amigos que raramente se telefonam e um dia se reencontram, quase sempre por acaso. Mas nem sempre por acaso. Tive o gosto de contar com a presença deliberada da Luísa Agapito em duas ou três palestras que fiz em Lisboa. Também esteve comigo, há três anos, quando lancei um livro, mais uma vez na Gulbenkian. No passado 25 de Abril, descobriu no Facebook uma fotografia nossa no Rossio e enviou-nos um abraço por mensagem.
Conheci a Luísa em Lisboa, ainda antes de partir para a Noruega, em 1979. Era delegada-adjunta do então Fundo de Fomento de Exportação em Oslo. Falava um norueguês magnífico e foi uma ajuda preciosa na integração naquele que seria o meu primeiro posto. Melómana e apaixonada pela natureza, "went native" naquela terra como muito poucas pessoas que conheci. Era de uma generosidade e disponibilidade imensas, mas tinha o cuidado de não se impor na vida dos outros. O seu sorriso aberto traduzia uma boa disposição quase permanente. Talvez por isso me tenha impressionado que, naquele último encontro na Gulbenkian, me tivesse parecido um pouco mais sombria. Alguma doença? O gongue fez-nos regressar às cadeiras respetivas.
Uma década depois de Oslo, tínhamos voltado a reencontrar-nos em Londres. Lembro-me que mantinha a mesma alegria, vivacidade e disponibilidade. Tal como na Noruega, os nossos circuitos sociais raramente se cruzaram, e a convivência foi escasseando, feita de encontros pontuais..
Depois, a vida profissional deixou de coincidir e cada um seguiu os seus caminhos. Falávamos pelo Natal e em poucas outras ocasiões. Muito pouco, percebo agora, minutos depois de ter sabido que a Luísa saiu da cena da vida. Desta vez, perdemo-nos de vez da Luísa. Um muito sincero obrigado por toda a sua simpatia e amizade, que a pressa da vida talvez não tenha permitido retribuir-lhe como ela merecia.
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