terça-feira, outubro 06, 2026

Dois Brasis


A casa era esplêndida, no Lago Sul, a zona onde todos os habitantes de Brasília gostariam de viver. Estávamos num jantar que era, na verdade, uma grande festa, oferecida a amigos e conhecidos com aquela generosidade descontraída que os brasileiros sabem proporcionar a quem desejam agradar. A família que nos recebia era imensamente rica. Ali estavam, nessa noite de há precisamente vinte anos, dois ministros do governo de Lula, um juiz de um tribunal superior, alguns deputados e senadores. O embaixador de Portugal, que eu então era, fazia parte do corpo diplomático que também “prestigiava” o evento, como, por ali, se costuma dizer. 

A crise do “mensalão” — a revelação de uma alegada compra de votos mediante pagamentos a deputados e senadores — era então o pano de fundo da vida política da capital brasileira. Uma das narrativas oficiais sustentava que, mesmo que tal prática viesse a ser comprovada, nada acabaria por ligar a figura do presidente ao esquema montado. Ninguém acreditava verdadeiramente que Lula estivesse alheio à marosca, mas havia como que uma espécie de absolvição preventiva do presidente, cuja popularidade subia nas sondagens. 

O Lula “paz e amor”, a imagem beatífica do sindicalista reconvertido em amigo do empresariado, fazia o seu caminho. Como o próprio Lula um dia explicou com simplicidade a Jorge Sampaio, numa conversa a que assisti, ele tinha feito apenas “o óbvio”: deixou os empresários ganhar dinheiro e, com os impostos decorrentes dessa riqueza, dotou o Estado de políticas sociais que arrancaram muita gente da pobreza e abriram a outros tantos a possibilidade de mudarem a vida. 

Naquele jantar, havia muita gente feliz com o Brasil a que Lula presidia. Era um tempo de otimismo, em que tudo parecia possível e o país surfava uma onda de prosperidade confirmada pelas agências de rating. Dias depois, haveria novas eleições presidenciais. Poucos duvidavam de que, mesmo com a nuvem do “mensalão” a pesar sobre a vida política, Lula seria reeleito. O seu opositor, Geraldo Alckmin, do partido de Fernando Henrique Cardoso, é hoje — ironia das ironias — o seu vice-presidente. 

A nossa anfitriã do jantar era uma senhora agradável, que gostava muito de Portugal, onde o marido planeava fazer ótimos negócios. A certo passo, sentou-se ao meu lado e perguntou, em voz baixa: “O embaixador deseja que Lula ganhe de novo?” Fiz uma daquelas "chicuelinas" verbais que se aprendem na profissão e respondi, mais ou menos: “Cara amiga, um embaixador estrangeiro não tem candidato: viverá feliz com quem o Brasil escolher.” E, para mudar a bola do campo onde ela tinha caído, passei a uma discreta ofensiva: “O que constato é que o Lula parece estar a deixar muita gente feliz. Ainda há dias, na FIESP (a mais poderosa associação empresarial brasileira, em São Paulo), só ouvi elogios ao vosso presidente. Fica a sensação de que os empresários estão muito satisfeitos. Sei que o voto é secreto, mas a minha amiga não leva a mal se eu lhe perguntar se vai votar nele?” 

Fez-se uma pausa. Um empregado aproximou-se com uma bandeja de bebidas, e eu servi-me de um copo de tinto que me pareceu ser um ótimo Douro. A minha interlocutora esperou que o homem se afastasse, toldou um pouco o olhar e respondeu: “Sabe, embaixador, eu nunca conseguirei votar no candidato em que o meu criado vote.” 

Na Espanha, ontem como hoje, continua a falar-se das “duas Espanhas” — esses mundos para sempre separados por uma guerra civil que decorreu há já quase um século. No Brasil, aprendi que existem “dois Brasis” muito enraizados, por vezes com fronteiras atenuadas em tempos de acalmia, mas que ressurgem quando as clivagens se acentuam, em tempos de crispação, de medos e de preconceitos. 

Nada parece revelar melhor a rejeição que Lula continua a inspirar, como inimigo de estimação de muitos brasileiros, do que o facto de, para dele se afastarem, optarem por escolher uma figura saída da família Bolsonaro.

(Texto hoje publicado no site da CNN Portugal)

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