Quando em 2002 cheguei a Viena, herdei do meu colega João Lima Pimentel um trio magnífico de funcionários da residência, num tempo de intensa atividade social, marcado pela presidência portuguesa da OSCE. Eram duas jovens equatorianas — Paula e Teresa — e um cozinheiro austríaco, o Peter.
A Paulinha e a Teresinha — nunca ninguém as tratava de outra maneira — eram pessoas de uma extrema delicadeza e atenção, que logo se empenharam em tornar a nossa vida muito confortável. O fim da nossa presidência acabou por coincidir praticamente com o casamento da Paulinha, que foi viver para o outro extremo da Áustria.
A Teresinha e o Peter acompanharam toda a nossa restante estada em Viena, nos anos seguintes. A Paulinha teve a gentileza de atravessar um dia o país, para vir despedir-se de nós, antes de partirmos para o Brasil. A Teresinha ficou em nossa casa, numas férias em Lisboa, quando vivíamos no Brasil. O Peter foi estar connosco uns dias em Paris, anos mais tarde. Com todos nos correspondíamos nos Natais.
Há semanas, soubémos que a Teresinha, que entretanto tinha regressado ao Equador, estava com uma doença terminal. Com outros diplomatas portugueses que a tinham conhecido em Viena, mobilizámo-nos para ajudar a suportar alguns custos médicos. Tudo acabou agora, muito rapidamente, ao que me dizem.
Nas casas de função que ocupamos na vida diplomática cruzamos gente, contratada pelo Estado português, oriunda dos mais variados países. Por uma curiosa coincidência, de entre as pessoas que encontrei quando cheguei às residências dos postos que chefiei, nunca estava nenhum português. Mas, a trabalhar connosco, houve gente da Áustria, das Filipinas, do Benin, de Moçambique, da Índia, do Brasil, do Perú e do Equador. Com todos estabelecemos uma relação que sempre, sem uma única exceção, acabou num registo de amizade. De alguns ainda vamos tendo notícias.
É talvez uma das coisas boas da profissão que tive: perceber que, para lá das funções, das hierarquias e dos países, se criam laços que teimam em resistir à distância e ao tempo. Nem sempre nos apercebemos de quanto essas pessoas se tornaram parte da nossa vida até ao momento em que deixamos de as poder encontrar.
Vamos agora sentir falta das mensagens carinhosas da Teresinha, mas muito mais do seu sorriso contido, da sua atitude afirmativa, que às vezes podia parecer brusca, e que escondia uma pessoa delicada, de uma sensibilidade pouco comum.
Há uma imagem de Viena que nunca esqueceremos: as lágrimas que corriam pela cara da Teresinha e do Peter enquanto nos serviam o último jantar na residência, antes da nossa partida definitiva. Foi um momento triste de despedida, mas guardo com grande alegria tê-lo vivido.
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