quarta-feira, outubro 14, 2026

A Teresinha

Quando em 2002 cheguei a Viena, herdei do meu colega João Lima Pimentel um trio magnífico de funcionários da residência, num tempo de intensa atividade social, marcado pela presidência portuguesa da OSCE. Eram duas jovens peruanas — Paula e Teresa — e um cozinheiro austríaco, o Peter. 

A Paulinha e a Teresinha — nunca ninguém as tratava de outra maneira — eram pessoas de uma extrema delicadeza e atenção, que logo se empenharam em tornar a nossa vida muito confortável. O fim da nossa presidência, que justificava a contratação de três funcionários, acabou por coincidir praticamente com o casamento da Paulinha, que foi viver para o outro extremo da Áustria. 

A Teresinha e o Peter acompanharam a nossa restante estada em Viena, nos anos seguintes. A Paulinha teve a gentileza de atravessar um dia o país apenas para vir despedir-se de nós, antes de partirmos para o Brasil. A Teresinha ficou em nossa casa em Lisboa, numas férias em Portugal, quando vivíamos no Brasil. O Peter foi ficar connosco uns dias em Paris, anos mais tarde. Com todos nos correspondíamos nos Natais. 

Há semanas, soubémos que a Teresinha, que entretanto tinha regressado ao Perú, estava com uma doença terminal. Com outros diplomatas portugueses que a tinham conhecido em Viena, mobilizámo-nos para ajudar a suportar alguns custos médicos indispensáveis. Tudo acabou afinal muito rapidamente, ao que agora me dizem. 

Nas casas de função que a sua vida profissional determina, os diplomatas cruzam gente, contratada pelo Estado português, que é oriunda dos mais variados países. Por uma curiosa coincidência, de entre as pessoas que encontrei quando cheguei às residências em todos os postos que chefiei, nunca estava nenhum português. Mas, a trabalhar connosco, houve gente da Áustria, das Filipinas, do Benin, de Moçambique, da Índia, do Brasil, do Perú e do Equador. Com todos estabelecemos uma relação que sempre, sem uma única exceção, acabou num registo de afetividade. De alguns ainda vamos tendo notícias. 

Esta é talvez uma das coisas boas da profissão que me ocupou a vida: perceber que, para lá das funções, das hierarquias e dos países, se criam laços que teimam em resistir à distância e ao tempo. Nem sempre nos apercebemos de quanto essas pessoas se tornaram parte da nossa vida até ao momento em que deixamos de as poder encontrar. 

Vamos agora sentir falta das mensagens carinhosas da Teresinha, mas muito mais do seu sorriso contido, da sua atitude afirmativa, que às vezes podia parecer brusca, que escondia uma pessoa delicada, de uma sensibilidade pouco comum. 

Há uma imagem de Viena que nunca esqueceremos: as lágrimas que corriam pela cara da Teresinha e do Peter enquanto nos serviam o último jantar na residência, antes da nossa partida definitiva. Foi um momento triste de despedida, mas guardo com grande alegria tê-lo vivido.

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