Fui hoje convidado a ouvir Barack Obama. Durante uma hora, no MEO Arena, o antigo presidente americano falou para uma audiência maioritariamente de empresários, num ambiente que lhe era visivelmente simpático.
Obama é a face decente de uma América que, nos dias de hoje, até já coloca figuras como George W. Bush no campo dos presidentes aceitáveis.
Falou de liderança, de tecnologia, de confiança nas instituições e da urgência de reconstruir pontes num mundo cada vez mais fragmentado. Mas o que mais me ficou foi aquilo que nunca disse: o nome do seu sucessor.
Trump, contudo, esteve na sala o tempo todo, foi o verdadeiro elefante na Arena, enorme, impossível de ignorar e de que todos fingiam não reparar. Obama contornou-o com elegância e a plateia ajudou, aplaudindo para não ter de olhar para ele.
É este o efeito traumático de Trump. Não está apenas nas políticas, nas guerras aduaneiras, nas guerras de retórica ou nas guerras a sério, em que nos mete a todos. Está na forma como deslocou o horizonte daquilo que hoje consideramos normal.
Há dez anos, ouvir Obama falar de democracia seria um exercício de rotina. Hoje, é quase um ato de nostalgia terapêutica. Os empresários que aplaudiam no MEO Arena não aplaudiam só um orador brilhante, aplaudiam a memória de um tempo em que as regras pareciam estáveis e em que a palavra de um presidente americano ainda significava alguma coisa de respeitável.
O trauma manifesta-se assim, de forma subtil. Estamos a perder a capacidade de nos indignarmos com o que antes seria impensável, e ganhámos, em troca, uma tolerância retroativa. Bush, o irresponsável presidente da invasão miserável do Iraque, ascende, por contraponto, ao panteão dos moderados. Obama, com os seus drones, as suas deportações, a sua política externa catastrófica e as suas promessas por cumprir (lembremos sempre Guantanamo), tornou-se a encarnação da decência. Não porque estes juízos sejam justos, mas porque o termo de comparação mudou. Trump funciona como um corretor de escala: tudo o que veio antes parece, por contraste, mais sóbrio, mais responsável, mais adulto.
E há aqui um perigo que a sala, apesar do entusiasmo, talvez não tenha querido ver. A saudade de Obama é confortável, mas é também uma forma de evasão. Se o trauma de Trump nos leva a idealizar o passado, deixamos de perguntar porque é que o sistema que Obama representava foi incapaz de travar o que veio depois. A decência, por si só, não construiu defesas. Quem ficou desiludido, desempregado ou esquecido nos anos de Obama não voltou a ouvir falar dele, e foi precisamente a essa gente que Trump soube falar, ainda que com os piores meios. Esse também é um elefante, e ficou do lado de fora da sala.
Saí do MEO Arena com uma sensação ambivalente: gratidão por ter ouvido uma voz serena e inteligente, e inquietação por perceber que a serenidade se tornou, nos nossos dias, um bem raro e quase suspeito. Talvez o verdadeiro legado de Trump seja esse: ter-nos ensinado a sentir saudades de tudo, menos a perguntar como chegámos aqui. Entretanto, o elefante continua na Arena, e nós, de costas voltadas, a aplaudir.

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