terça-feira, outubro 13, 2026

"A Diplomata", outra vez


Vem aí mais uma temporada de "A Diplomata", na Netflix Vou vê-la, naturalmente, como fiz com as anteriores, quanto mais não seja por uma inevitável curiosidade (ou deformação) profissional.

A série gira em torno de uma figura política norte-americana lançada nas lides da diplomacia. O enredo, reconheça-se, preserva algum realismo. As grandes embaixadas americanas não costumam ser entregues a profissionais, mas sim a amigos do presidente em funções — por afinidade política, compadrio ou, com acrescida frequência, pelo volume do cheque assinado para a campanha eleitoral.

O figurino é conhecido: estas personalidades aterram nos postos mais aprazíveis da rede diplomática e deixam-se amparar por profissionais de carreira que lhes fazem o trabalho de bastidores e lhe tutelam comportamentalmente o quotidiano. Os postos menos aprazíveis, ou abertamente desagradáveis, esses ficam, como manda a boa ordem das coisas, para os profissionais.

Quem passou umas quantas décadas na carreira raramente resiste a avaliar a verosimilhança do que se encena sobre a sua própria tribo. Vejo por vezes comentários de colegas estrangeiros a analisar a plausibilidade de séries ou de filmes do género. Não escapo nunca à mesma tentação.

Há algo, na protagonista desta série, que me causa algum desconforto: aquele ar permanentemente grave, angustiado e crispado, como se o quotidiano diplomático fosse uma tragédia grega em episódios diários.

Não é. As situações do dia-a-dia diplomático podem ser melindrosas ou complexas, mas o exercício de funções de chefia exige transmissão de confiança e um controlo da atitude — o que dificilmente se compadece com a imagem de uma crise de nervos ambulante. Uma chefia deve saber exibir um fácies descontraído e, na medida do possível, urbano e sorridente.

Nisto tive sempre como referente o meu saudoso colega Leonardo Mathias, que cuidava em nunca perder o sorriso, nem no auge da adversidade: "Isto não é fácil! Mas faz-se..." 

Saber sorrir nos momentos em que os outros se fecham dá-nos logo uns pontos na tabela de atitudes. Ou, para citar Cabrita Matias, outro colega que fazia do esgar giocôndico uma sua constante: "If you are not one point up you are one point down".

Quem me lê regularmente já deve ter percebido que fujo das citações como o diabo da cruz. Raramente me apanham nessa deriva — e hoje já lá vão duas! E como não há duas sem três, arrisco outra.

O antigo ministro João de Deus Pinheiro, que dominava a arte do bom humor na política, costumava ironizar sobre certos cavalheiros que "pareciam calçar um par de sapatos um número abaixo do seu". Era a sua forma elegante de definir quantos tentavam parecer sérios por falta de sorrisos. E que, às vezes, só assim conseguiam projetar de si essa imagem. 

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