Durante muitos anos, tive ali a entrada barrada por uma "bola preta". Parece que um antigo ministro de Salazar não ia à bola comigo. Feitios! As determinantes etárias, que nem os fachos conseguem evitar, acabaram por abrir a minha vaga.
Hoje, por um imperativo de última hora, acabei por ter de almoçar sozinho.
Terminada a refeição, instalei-me no sofá que mais gosto de ocupar — já surpreendi alguns atrevidos instalados naquele (meu) lugar. Estive a ler, em sossego, um livro que me vai competir apresentar para a semana.
Não tardou a chegar-me um café e um Bushmills.
— Sem gelo, não é?
Era isso mesmo. Durante anos, não havia no clube whisky irlandês. Sugeri e passaram a comprar. Não é sem razão que, em algumas empresas, tenho vindo a ser contratado como consultor estratégico.
Cinco minutos depois, apareceu outro café. O Francisco e o Jaime sabem exatamente o meu ritmo temporal de cafeína. A (boa) vida tem destas pequenas compensações.
Nos últimos anos, frequento bastante conferências empresariais, onde prevalece uma narrativa que apela a que saiamos da nossa "zona de conforto". A contraciclo e intimamente, nunca peço desculpa por continuar instalado nessa bela zona. Conquistei-a a pulso. Não vejo por que razão, aqui chegado, haveria masoquistamente de ceder o sofá, dispensar o meu uísque ou cultivar desconfortos em nome de uma qualquer virtude que me é, e continuará a ser, 1000% alheia.
Acabei o almoço, aliás, a lembrar-me de Taki, o abastado cronista do "The Spectator" que ali tinha uma coluna significativamente intitulada "High life". Era muito difícil estar de acordo com ele, mas lá que tinha muita graça, lá isso tinha. Conhecendo, como conheci, embora apenas "de raspão", alguns clubes britânicos de Pall Mall e arredores, acho que Taki haveria de considerar este meu clube lisboeta um antro liberal — uma palavra e um conceito que, por razões completamente opostas, eu e ele detestamos. Mais eu do que ele, tenho a certeza.

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