sexta-feira, outubro 16, 2026

Letria e as estátuas


A confusão era imensa. Do avião que transportava o presidente Ramalho Eanes a S. Tomé, na sua visita de Estado em 1984, desembarcou uma multidão de pessoas que a frágil logística local estava a procurar acomodar o melhor possível para aqueles três dias de estada. Além da equipa de Eanes, dos diplomatas, dos membros do governo, havia imensos convidados, como empresários, jornalistas e outra gente. O grupo sairia dali para Kinshasa, pelo que havia pessoas que tinham S. Tomé apenas como pouso de descanso.

A embaixada local — o embaixador e um secretário — não chegava para as encomendas. Eu tinha sido destacado de Luanda para a apoiar. A minha experiência na preparação de uma visita de Estado do presidente Eanes à Noruega, dois anos antes, terá sido recordada por Lisboa. Cheguei uns dias antes, mas depressa percebi que S. Tomé era, para efeitos de organização, o oposto de Oslo...

No programa da visita, que fiz questão de percorrer em pormenor, a parte santomense tinha incluido uma deslocação do presidente Eanes à fortaleza. Ao chegar ali, constatei que se acumulavam, sem o menor cuidado, estátuas do tempo colonial, retratos de figuras portuguesas do Estado Novo e uma exposição fotográfica sobre o massacre de Batepá, com uma determinada legendagem. 

Num minuto, concluí que as coisas não se apresentavam ali com uma dignidade compatível com aquela que seria a primeira deslocação de um chefe de Estado do Portugal a São Tomé. No pós-25 de abril, Portugal não rejeitava naturalmente a sua responsabilidade pelos crimes do período colonial, mas não se podia associar, numa visita oficial daquela dimensão, à sua evocação em moldes que afetassem o respeito que era devido ao nosso país em tempos de democracia. 

A reação do responsável santomense — que, curiosamente, era um amigo pessoal desde os meus tempos do Porto — às minhas reservas não foi a mais calorosa. Insistiam em manter esse ponto da visita. Eu mantive-me firme. Chegado à embaixada, disse ao embaixador português em São Tomé, Francisco Quevedo Crespo, o que tinha decidido. O Francisco advertiu-me: "Vais ter de garantir que o pessoal vindo de Lisboa te dá cobertura...". Estava a sobrar para mim. 

No meio da confusão da chegada da delegação, logo procurei contactar alguém responsável da Casa Civil, para explicar que havia um ponto da agenda que estava em aberto, pela minha recusa. Minutos depois, aproximou-se de mim Joaquim Letria, porta-voz de Eanes. Disse estar disponível para se deslocar comigo à fortaleza. Minutos depois, eu conduzi-o pelas ruas de S. Tomé, num carro que me fora emprestado por outro amigo, nesse caso um colega de liceu de Vila Real. O mundo, em português, é mesmo muito pequeno.

Eu não conhecia Joaquim Letria, ou melhor, conhecia o Joaquim Letria que todos os portugueses tinham visto e ouvido nas televisões, com aquela voz envolvente, aquele modo sereno e calmo de abordar as coisas, sempre com um sorriso. Tivemos uma conversa em que eu lhe expliquei as razões da minha atitude e a reação santomense. Não comentou.

Chegados à fortaleza, sob o olhar silencioso de um funcionário local, conduzi Joaquim Letria, quase sem trocarmos palavras, pelos locais que eu tinha achado problemáticos. 

Regressados ao carro, Letria disse-me: "Você tinha toda a razão. Ainda bem que levantou a objeção. O presidente não pode vir aqui". Suspirei de alívio. E Eanes não visitou a fortaleza.

Lembrei-me disto hoje, ao saber da morte de Joaquim Letria.

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