terça-feira, outubro 13, 2026

"Memórias de um cidadão de 2ª"


O livro tem um título estranho, "Memórias de um Cidadão de 2.ª", mas é algo que o autor depois explica. 

São as memórias de António Luiz Cotrim, ontem lançadas na Buchholz, numa edição da Guerra & Paz. A apresentação coube a João Soares, perante uma sala com amigos, a rebentar pelas costuras.

Cotrim é um diplomata que, há alguns anos, terminou a carreira como embaixador em Santiago do Chile, depois de ter servido em funções idênticas em Adis Abeba. 

Por algum tempo, foi o meu "número dois" em Brasília. Cruzámo-nos anos depois em Paris, onde ele estava na Missão junto da UNESCO. Mas saiu dali a tempo de se livrar de me voltar a ter como chefe, quando tive de assumir por acumulação a gestão desse posto. 

O Tó Luís, como é conhecido entre os amigos, é um "aristocrata social" de esquerda, que estava preso pela ditadura em Caxias no dia 25 de Abril. No famoso filme da libertação dos presos, lá surge ele. Era então um ativo quadro do MRPP. 

Fez depois concurso para o MNE, onde o vim a conhecer, em 1986, na primeira estrutura criada após a adesão às "coisas da Europa". Passou depois pelas embaixadas na Índia e na Dinamarca. 

Como ele próprio sublinhou na sessão de apresentação, este livro não são "as memórias de um embaixador", embora alguns fragmentos desses tempos por lá estejam. São, muito simplesmente, as memórias relevantes para a sua vida — por onde desfilam a família, os conhecidos, as figuras dos cenários diplomáticos e políticos, os seus muitos amigos e também alguns que se nota que o são menos. 

O Tó Luís é uma personalidade intensa, de verbo frontal, que olha as pessoas nos olhos e não foge à discórdia, quando entende que não quer ir "por aí". No MNE isso é sabido, sentido e ficou refletido na sua história profissional.

É uma pessoa extremamente leal aos amigos e também obsessivamente fiel à memória crítica dos que deixaram de o ser — porque ele assume, às vezes, uma afetividade de evolução diacrónica. Não é, assim, uma pessoa fácil, mas sempre foi para mim muito evidente que ele vive muito confortável com essa postura. 

Desde que o conheço, noto no Tó Luís um extremo bom gosto, o que o leva a montar casas magníficas e a saber receber nelas como poucas pessoas que tenho encontrado pela vida. 

Li este seu livro, por ora, apenas na diagonal. Pareceu-me bem escrito, o que é muito importante. Sem a menor surpresa, notei que não foge nele a alguma polémica, o que é um sal da vida e será com certeza ótimo para as vendas.


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