Um dia, no primeiro semestre de 1985, o então diretor-geral dos Negócios Políticos do MNE, o embaixador Matos Proença, deslocou-se a Luanda, em cuja embaixada eu era então primeiro-secretário, com uma década de carreira.
No fim de um jantar, na residência do embaixador António Pinto da França, ficámos lado a lado num sofá e ele comentou: “Você já está cá há mais de três anos. O que pretende vir a fazer no futuro?”. Disse-lhe que tinha pensado concorrer a um lugar na nossa embaixada na Haia. Fez uma cara surpreendida: “Para a Haia?! Que diabo quer ir fazer para a Holanda?” Não sei o que respondi.
De caminho, na conversa disse-me uma coisa que, de certo modo, alterou o modo como eu via o meu futuro: “Não sei se sabe, mas estes anos em Angola mudaram bastante o modo como você é olhado nas Necessidades. Para melhor! A sua cotação subiu, pelo bom trabalho que se sabe que aqui tem feito”. E eu que não fazia a menor ideia de que o imponderável “mercado” dos claustros me começava a ser favorável! Logo coloquei isso a crédito do apreço que Pinto da França tinha pelo modo como eu trabalhava.
À época, posso agora confessar, as minhas expetativas, em termos de futuro profissional, eram bastante moderadas. E, curiosamente, estava perfeitamente acomodado a elas. Depois de uns discretos anos iniciais em Lisboa, num setor periférico da área económica, seguidos de uma pouco relevante passagem por Oslo, que me coube em rifa sem pedir, tinha sido empurrado para a embaixada Luanda, também sem ser ouvido e sem que me tivesse sido dada outra opção. Embora me achasse, sem modéstia, um “safe pair of hands” para qualquer tarefa, tinha a sensação de que o ambiente dentro do MNE nunca me iria ser favorável. Tinha mesmo a perceção de que tinha entrado, de forma quase irremediável, na “slow lane” profissional. É verdade, era assim que eu então via as coisas.
A minha posição política, que não escondia perante ninguém, e que afirmava, com regularidade, de um modo talvez pouco maduro e até provocatório, parecia-me uma insuperável barreira para poder vir a fazer uma carreira de topo. Mas não estava aberto a mudar de atitude. Assim, quando muito, entendia que podia ambicionar postos de importância média. A aposta na Haia tinha precisamente essa lógica: um posto sereno e confortável, embora com holandeses...
Porque vivia a vida profissional de forma bastante isolada, não fazendo parte de quaisquer grupos ou “networks" dentro da casa, não fazia a menor ideia de como o meu trabalho era olhado. Isso não significava que, intimamente, não achasse que fazia bastante bem aquilo que me competia.
Ao dizer o que me disse, Matos Proença, um homem discreto, cordial e bastante competente, que viria a morrer muito cedo, fez-me rever essa minha perspetiva. A ser verdade o que ele afirmava, talvez eu pudesse ter direito a outras ambições.
E Matos Proença logo acrescentou algo que me criou uma vontade nova: “Como sabe, no dia 1 de janeiro do próximo ano, Portugal vai entrar para as Comunidades Europeias. Estamos a preparar uma equipa para isso. Acho que você tem todas as condições para poder ter um lugar de chefia nessa área, na parte da cooperação política europeia. Quer que fale no seu nome ao secretário-geral?“ Disse-lhe que sim, que estava interessado, claro! Luanda era um posto pesado, tinham sido três anos de vida difícil, pelo que era um novo desafio que parecia promissor.
Mas havia um íntimo mas. A Europa? A CEE? Eu era então muito pouco europeísta. Não tinha a fé dos convertidos à religião federal de Monnet & Schuman, mantinha uma leitura algo soberanista da gestão dos nossos interesses, preocupava-me muito a ideia de partilhar o poder nacional, achava que nos iriam impor uma matriz liberal que podia limitar uma possível evolução no "caminho para o socialismo". O quê?! estar-se-ão a perguntar. É verdade! Ao contrário de outros, sou um orgulhoso herdeiro de todo o meu passado. Em 1986, eu ainda pensava assim. Não era contra a aventura europeia, mas era um euro-cuidadoso.
Entretanto, os meses andaram e mais nenhuma notícia me chegou. Matos Proença tinha saído do lugar que ocupava, para ser embaixador na ONU. Achei que o assunto tinha morrido. E preparei-me para viver 1986 em Angola. E, depois, quem sabe, talvez fosse para Haia ou coisa parecida.
Até que um dia, creio que em meados de outubro desse ano de 1985, Pinto da França recebeu um telegrama pessoal do secretário-geral, João de Sá Coutinho, a determinar a minha apresentação em Lisboa, com caráter de urgência. Era expressamente mencionando no texto que me esperava um lugar de chefia nas Necessidades. O embaixador não ficou muito satisfeito com a minha súbita partida, mas teve a amiga atitude de a não inviabilizar.
E lá parti, à pressa, para Lisboa, menos de um mês depois. Como tinha a casa em obras, fui obrigado a ir viver para um apartamento vago, emprestado por um amigo. Depois de mais de três anos de Luanda e sete de estrangeiro, senti que, no fim de contas, iria ser bom regressar a Lisboa. A minha mulher podia voltar ao seu emprego, embora tendo perdido anos de antiguidade e a hipótese de qualquer promoção ou chefia, pelo facto de me ter acompanhado. Mas estávamos felizes na antecipação do novo capítulo de vida que íamos ter. Foi muito bem disposto que me fui apresentar ao secretário-geral.
Sá Coutinho mandou-me sentar na velha cadeira de palhinha que estava em frente à sua secretária e, por uma qualquer sombra no seu olhar, tive um súbito mau pressentimento. Que logo se confirmou: “Ó Seixas da Costa, não tenho boas notícias para si. Houve aqui em Lisboa uma mudança de planos e eu queria perguntar-lhe se não precisa de dois ou três meses, com calma, para pôr em ordem a sua vida.”
Eu não estava a perceber nada, mas já começava a perceber tudo. Ainda arrisquei: “O senhor embaixador sabe bem que vim à pressa de Luanda, a minha bagagem pessoal ainda nem chegou, apenas porque, num telegrama seu, há poucas semanas, me foi confirmado ir ter aqui um lugar de chefia. O que é que mudou?”
O secretário-geral, um homem grande, pessoa cordial, um aristocrata limiano, com fama liberal (no tempo em que os liberais eram outra coisa e tinham boa fama), estava visivelmente embaraçado: “Meu caro, não quero nem posso ir muito longe, mas foi a política que se meteu no meio disto tudo. O lugar já não é para si. Não vai ser possível ter nenhum lugar de chefia”.
O meu choque era compreensivelmente grande: “E há alguma ideia sobre o que vou fazer?” Sá Coutinho rodava em torno da secretária e confessou: “Por ora, nada. Mas vá falar com o Gregório Faria, que está a montar as coisas das Comunidades Europeias, na Visconde Valmor, nas áreas mais técnicas. Pode ser que ele tenha qualquer coisa para si”. Senti que ficou muito aliviado quando me viu sair do gabinete.
Entre a visita de Matos Proença a Luanda e a minha chegada a Lisboa, tinha tomado posse um novo governo, em inícios desse mesmo mês de novembro. O primeiro ministro chamava-se Aníbal Cavaco Silva. Ao sair do Ministério, atravessando os corredores e o pátio, tive o alívio de não me cruzar com nenhum colega, que pudesse inquirir-me sobre o meu destino, nesse que era já um imperativo regresso a Lisboa. Que lhes podia eu dizer?
No dia seguinte, fui recebido pelo embaixador José Gregório Faria, recém-nomeado diretor-geral das Comunidades Europeias (era a designação, à época). Foi simpático, mas revelou-me que, não apenas não tinha, de imediato, nenhum lugar para mim nem, muito menos, qualquer lugar de chefia. Pior ainda: não tinha sequer onde me sentar, de tal modo o novo serviço estava cheio dos técnicos que tinham transitado das estruturas que tinha negociado a adesão. Os diplomatas eram por ali muito poucos e, quase todos, estavam acantonados numa única direção de serviços, essa já sem lugar para mais ninguém.
Toda a boa-disposição criada em torno do meu regresso a Lisboa tinha-se desvanecido. Estava a viver numa casa emprestada, com a vida improvisada, sem nada para fazer, sem perspetivas de futuro num tempo político tumultuoso e que, pelos vistos, dava ares de me ir ser profissionalmente hostil.
O meu Natal de 1985, em Vila Real, não foi dos mais simpáticos.
Em Portugal, à época, vivia-se a campanha das eleições presidenciais. À esquerda, Soares, Zenha e Pintasilgo disputavam o eleitorado. A direita, mais unida do que nunca, tinha Freitas do Amaral como candidato. Os comícios sucediam-se, o país estava ao rubro.
O candidato que mais me agradava era Salgado Zenha, que logo se percebeu que não teria qualquer hipótese. A maioria dos meus amigos eram pintasilguistas. O ambiente de crispação política que atravessava Portugal era imenso. O chapéus de palhinha e os “loden” pelas costas eram a imagem de marca da direita em ascensão. Aos meus olhos de então, uma vitória de Freitas quase que podia trazer o fascismo de volta, de tão sinistro me parecia o grupo de gente que o rodeava - alguns são hoje bons amigos meus e um dia tive uma conversa curiosa sobre tudo isto com Freitas do Amaral. O que, por esses dias, me estava a acontecer profissionalmente não ajudava a que criasse uma opinião diferente. Bem pelo contrário.
Votei Zenha na primeira volta e, naturalmente, escolhi Soares na segunda. A noite da sua vitória - ou melhor, a derrota de Freitas - foi talvez a momento mais feliz que tive em política, em toda a minha vida. Isso mesmo: mais do que a vitória do PS, em outubro de 1995, ou a de Sampaio, meses depois.
Neste entretanto, depois de passar umas semanas em casa, fui chamado à direção-geral das Comunidades Europeias, onde, sentando-me aqui e ali, fui ajudar a montar um serviço de cifra para a nova estrutura e me foi dada uma tarefa curiosa e divertida: elaborar um conjunto de ordens de serviço, “pedagógicas”, para moldar aquele imenso grupo de técnicos à “liturgia do MNE”, numa expressão interessante de Gregório Faria. Em cerca de dez diretivas, ensinei como se escreviam os “telegramas’, as “notas verbais” para as embaixadas estrangeiras e outras regras básicas da diplomacia. Um dia, finalmente, fui colocado na direção de serviços das Relações Externas, embora com funções muito limitadas. Mas essa é outra história.
Foi assim, desta forma um tanto atribulada, que eu cheguei ao novo Portugal europeu.
Vale a pena dizer que o ambiente na direção-geral das Comunidades Europeias - ou na “Visconde Valmor”, como o serviço melhor era conhecido nas Necessidades - era excelente, com grande predominância feminina, gente competente e entusiasmada com as novas tarefas. Era um tempo em que todos estávamos a aprender a nadar nas águas europeias. As idas a Bruxelas, aos grupos de trabalho dos nossos respetivos pelouros, eram momentos interessantes. Para mim, o único verdadeiro problema que enfrentei foi ter de trabalhar num “open space”, sala com pé direito muito baixo, onde toda a gente falava alto ao telefone. Logo eu, que só sei trabalhar em gabinetes de porta fechada. Cheguei a pôr tampões nos ouvidos...
Mas, pronto!, foi assim que entrei "na Europa". Nos anos seguintes, a minha vida profissional deu algumas voltas, e a Europa entrou nela de roldão. E a Europa também entrou em mim - e me convenceu. Oito anos depois, vim de Londres para ser sub-diretor-geral dos Assuntos Europeus, como o setor tinha passado a chamar-se. Um ano mais tarde, fui convidado para ser secretário de Estado da área.
Lembro isto hoje, precisamente 40 depois da nossa entrada para as Comunidades Europeias - a União Europeia ainda estava para nascer.
Pensando bem, tudo me podia ter corrido bastante pior.
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