O meu amigo Ascenso Simões publica hoje no jornal "i" um artigo sobre a nossa diplomacia. Nele escreve algumas coisas com que concordo e outras de que discordo. É a vida.
(Tenho com Ascenso Simões cumplicidades antigas. Na cidade de onde ambos somos originários, há 18 anos, partilhámos uma aventura política numa candidatura ao município. Ele para presidente da Câmara, eu para presidente da Assembleia Municipal. Fomos ambos derrotados. No meu caso, por Passos Coelho ... pai!)
Uma das ideias que avança no seu artigo, porém, não apenas merece apenas a minha discordância como convoca a minha profunda rejeição. Vou transcrever o que escreveu:
"A perda de valor da CPLP deve assustar os próximos governos, deve implicar uma nova parceria entre Portugal e o Brasil, por assumir parte fundamental da penetração, na Europa e nas Américas, do poder lusófono. Esta realidade deveria elevar a nossa representação em Brasília. Se as diplomacias de outros países revelam a permissão de agentes fora da carreira, tendo em conta o posto e a estratégia para cada região, Portugal deveria poder assumir a nossa representação no território onde mais falantes de língua portuguesa se revelam, através da consagração do lugar a um antigo Presidente da República ou um anterior primeiro-ministro".
Três comentários.
O primeiro para sublinhar, sem mais delongas, que a nossa "representação em Brasília" não tem estado ao nível das exigências de Ascenso Simões. Tomo a devida nota, no que pessoalmente me toca.
O segundo para registar que um qualificado militante socialista entende que o corpo profissional de que a diplomacia portuguesa hoje dispõe não está à altura das exigências de projeção da nossa política externa, pelo que seria necessário um "reforço", quiçá vindo de hostes político-partidárias. Constato assim que, do seio do PS, emerge, uma vez mais, o tropismo para a nomeação de "embaixadores políticos".
Um terceiro comentário. Ao localizar esta aparente exceção na "nossa representação no território onde mais falantes de língua portuguesa se revelam", Ascenso Simões mostra algum pragmatismo e alarga, com generosidade, o âmbito de recrutamento: de facto, qualquer político português possuiria o requisito linguístico indispensável para o exercício do cargo. Valha-nos isso!
Um quarto e último comentário.
Um antigo presidente da República? Sabe Ascenso Simões que a lei não permite que ninguém permaneça no serviço diplomático no estrangeiro depois dos 66 anos? Eanes, Soares, Sampaio e Cavaco já passaram esse limite etário, como sabe. Muda-se a lei? Vale tudo?
Um antigo primeiro-ministro? Balsemão também passou a fasquia etária, Guterres acaba de lá chegar. José Sócrates, por óbvias razões, parece excluído das contas de Ascenso Simões. Restam Durão Barroso, Santana Lopes e Passos Coelho. Venha o Ascenso e escolha... Fico curioso!
Dirão alguns que este post é inoportuno. Talvez seja, tal como entendo que o artigo o foi. Porém, comigo, já deviam ter aprendido: quem se mete com o MNE leva!
