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terça-feira, maio 26, 2015

Acordar sereno

Nos tempos da “outra senhora”, o discurso oposicionista dizia que os portugueses ansiavam por ter a certeza de que, quando alguém lhes batia à porta de manhã cedo, era o padeiro e não a polícia política. Os padeiros, ou os leiteiros, já não batem diariamente à nossa porta (infelizmente!) e a polícia política desapareceu. A democracia pretendeu regular o arbítrio e, em tese, dar sossego a um cidadão que não deva nem tema.
 
Nos dias de hoje, os portugueses anseiam por uma sociedade previsível, continuam a não gostar de más surpresas, estando contudo preparados para as mudanças que lhes sejam benéficas. A sociedade democrática tem a mudança no seu ADN. Ao colocar regularmente aos eleitores a possibilidade de escolhas, abre o caminho à alteração das regras da sociedade, mas, sempre e só, com o objetivo de melhorar a qualidade das políticas públicas, de oferecer aos cidadãos soluções coletivas mais favoráveis à realização dos seus interesses individuais.
 
Porque não é de admitir que os programas políticos apresentem novas propostas apenas pelo capricho de “fazer diferente”, é suposto que a imaginação de quem se propõe mudar o “statu quo” não ultrapasse nunca esse limiar de responsabilidade cívica. Olhando para o que o principal partido da oposição agora propõe – e que, no essencial, está já à vista dos futuros eleitores -, parece evidente que tal vai nesse caminho.
 
Nos últimos anos, esta espécie de “suspensão da democracia”, que o programa da “troika” e os excessos locais de zelo nos trouxeram, acarretou uma instabilidade sem precedentes na vida dos portugueses. Era inevitável? Se o respeito pelas pessoas, em especial pelas mais idosas, mais frágeis e mais desprovidas de recursos, tivesse sido a regra orientadora da execução das políticas, o país não teria mergulhado nesta angústia ansiosa de que ainda se não libertou.
 
A arrogância autoritária com que hoje se mudam as regras, com que unilateralmente se reformula o contrato entre o cidadão de boa fé e o Estado, em que a instabilidade fiscal e legislativa em geral passou a fazer parte do nosso quotidiano, em que uma espécie de administração “kafkiana” se converteu numa instância inapelável, tudo isso induziu nos portugueses uma profunda síndroma de desconfiança. Nos dias que vivemos, está criada a sensação de que nada pode ser dado por assente ou adquirido, porque o que era verdade ontem pode deixar de sê-lo amanhã, sem uma desculpa, sem uma justificação, no fundo, sem respeito pelos cidadãos.
 
Se há um conselho – e um só – que eu possa dar àqueles que se propõem como alternativa para tutelar o Estado nos próximos anos é o de que procurem transmitir aos portugueses a certeza de que tudo farão para que eles possam vir a acordar, todos os dias, sem o temor de que esse mesmo Estado lhe vai trazer más surpresas e mudanças drásticas e incómodas à sua vida e das suas famílias. Alguns anos vividos nessa simples mas essencial estabilidade poderiam ajudar muito a recuperar a confiança perdida, reconciliando os cidadãos com o seu Estado.

(Artigo que hoje publico no "Diário Económico")

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