terça-feira, 7 de julho de 2009

Imbecilidade

Um jornalista do Público considera que a entronização do Cristiano Ronaldo no Real Madrid mais não é senão o "O Triunfo da Imbecilidade". Porém, não concordo que isso seja a "alarve disponibilidade das multidões para perderem minutos, horas, das suas vidas a seguir de perto qualquer banalidade quotidiana da vida de um ídolo".

Posso compreender o sentimento de alguma estupefacção perante um exercício mediático de sacralização de um habilidoso com um bola de couro, esta espécie de hagiografia prematura de um miúdo apenas fisicamente talentoso, investido de um enorme poder de sedução e esperança. Mas eu coloco-me no lugar dos adeptos do Real e imagino, desde já, a ânsia das vitórias que a figura de Ronaldo terá provocado nos mais de 80 mil "merengues" que estiveram no Santiago Bernabéu.

A felicidade faz-se hoje bastante desta adesão aos sucessos que outros protagonizam, de quem nos assumimos próximos, colectivamente juntos na vitória, sempre com a derrota de outros como aparente contraponto indispensável. Para quem, como eu, tem a anti-competição como sólida e permanente doutrina de vida, confesso-me um tanto perdido neste ambiente. Mas será isto a alienação de que falava um clássico fora de moda? Talvez seja, mas esta comemoração das vitórias mais não é, para muitos, do que o complemento natural de existências simples, que seriam ainda menos relevantes se não se juntassem nessa onda gloriosa colectiva. É triste reconhecer isto, mas é a realidade.

Só posso desejar que o nosso madeirense de sucesso, do alto dos seus 24 anos, consiga suportar a carga de esperança agora nele investida. E, com clara consciência desta minha debilidade afectiva, sem qualquer ligação particular ao Real, lá estarei, nos fins de semana, à espera dos seus golos e dos seus êxitos, exultando com os primeiros e ansiando pelos segundos. Como estive nos tempos do Manchester, sucedâneo do que deixou de fazer no Sporting. Da mesma maneira que estive com Figo, no Barcelona e, mais tarde, no mesmo Real Madrid. Por isso, com total serenidade, não consigo condenar os adeptos do Real, hoje em delírio, nem lhes chamo imbecis.

Quantos de nós não sofremos de taquicardias patetas pelo nossos clubes, pelas nossas selecções nacionais, pelas nossas bandeiras desportivas? No futebol como no hóquei (lembram-se das jornadas de Montreux?), no atletismo (recordo a Rosa Mota ou o Carlos Lopes), na natação (eu dei braçadas morais a acompanhar Baptista Pereira, nas travessias da Mancha) ou no ciclismo (quem não sofreu pelo Agostinho?), quantos não alinhámos nessa magnificação dos ídolos desportivos, transformando meros eventos em casos-de-vida-ou-de-morte?

O desporto pode ser e é, muitas vezes, um tempo de evidente irracionalidade. Mas, ao fim de não poucas décadas de experiência, concluí que a mobilização colectiva da afectividade faz parte da nossa vida e, bem-pensantes à parte, constitui parte do sal de todas as sociedades contemporâneas.

Boa sorte, Cristiano Ronaldo! Só espero que a conversa com esse mago "merengue" que se chama Alfredo Di Stefano lhe venha a ensinar algumas das regras do jogo, não do futebol, mas dessa outra coisa bem mais complexa que é ser-se um nome público em Espanha: amado, odiado ou uma coisa depois da outra, qualquer que seja a ordem dos factores.

3 comentários:

Anónimo disse...

Também tenho o maior respeito por "fenómenos" que desencadeiam fenómenos intensos de entusiasmos febris colectivos.

E de facto quando são Portugueses só consigo rejubilar... espontãneamente.

Por isso para além de achar pertinente o conteúdo do Post obviamente que também desejo Boa Sorte ao Cristiano Ronaldo e a Nós.
Isabel Seixas

Anónimo disse...

A vida dos comuns projectada na vida dos heróis é um fenómeno intemporal.
Essa transferência não é, em si, boa ou má pois tanto serve como incentivo para o esforço de superação como de escape das frustrações e, quantas vezes, da mediocridade e da impotência própria.
Concordo que as passagens citadas do trabalho do jornalista do Público tresandam a fariseísmo.
Mas não me agrada a comparação com Agostinho, Carlos Lopes ou Rosa Mota ou Baptista Pereira. A actividade deles ainda tinha algo a ver com os mitos idealistas do "desporto pelo desporto", da "mens sana blá blá blá" ou do "olimpismo" aristocratizante do sec.XIX mas ajudou gente modesta e esforçada a fazer o pleno das suas possibilidades e a elevar-se acima de uma vida rotineira a que as suas origens sociais os poderiam ter condenado.
No caso de Cristiano Ronaldo - e ele é apenas o caso mais sonante e paradigmático - há algo de obscenono narcisismo kitsch e no voyeurismo que rodeia a personagem que, como diz o Embaixador Seixas da Costa, só fisicamente se destaca. Da marca da roupa anterior aos exploits sexuais do moço, tudo o que o rodeia tem o brilho da purpurina, com a excepção, claro, dos dinheiros envolvidos que são reais e também em quantidade obscena.
Mas isso é outra conversa.

Helena Sacadura Cabral disse...

O texto de Francisco Seixas da Costa é exemplar. Parabéns, uma vez mais.
As palavras de Anónimo são, igualmente dinas de apreço e traduzem uma realidade com a qual, infelizmente, vamos tendo de conviver.
A mim o que mais me chocou nestes últimos dias foi a singularidade da resposta de CR9 quando afirma que quem quer um bom jogador deve paga-lo caro...
O bota de ouro tem ainda muito que aprender, sobretudo no campo da humildade e da consciência de si próprio. Se um dia precisar de um bom médico e o dinheiro que tem não o pagar, então, talvez perceba a diferença...