sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Abade de Priscos com tripas?


Ontem, no aeroporto de Lisboa, numa loja com livros (livraria é outra coisa), ouvia-se, bem alto, Toni de Matos. Não sei o que pensavam os estrangeiros daquele estranho « musak » com palavras, por certo o levam à conta de toada melancólica mediterrânica, pelo típico gemido vocálico. Logo a seguir, no altifalante da loja, num « medley » improvável, surgiu Keith Jarret. Como entretanto saí, não esperei para ver se se seguia Quim Barreiros – mas já ninguém se surpreenderia. É que, em matéria de oferta turística, hoje já vale tudo ! 

Somos, de há muito, um país turístico. O Algarve (com a Madeira noutro registo) foi a primeira montra do sol & mar para « camones » e míticas suecas. Por anos, fado, Lisboa e uma vida simplória (« so typical ! »), eram o seu complemento. Com a procura global de cenários alternativos, olhou-se o Douro para além do vinho do Porto. Os saldos da Ryanair revelaram a graça única da capital do Norte. Entretanto, a Costa Vicentina passou também a ser « bem », com os Açores a assumirem-se como a última “descoberta da pólvora”. E há, claro, as novas rotas judaicas, transformadas em maná comercial pela diáspora israelita, com que nos absolvemos das judiarias que lhes fizemos.

O tempo transformou o Algarve num espaço para ressacas de pifos nórdicos e retiro de idosos à cata de sol e impostos baixos. A Europa passou a dar mais atenção a outras zonas de um país de gente acolhedora, com uma invejável rede viária, alimentação excelente e às vezes barata (mas já aprendemos, como o restaurador gatuno da Baixa lisboeta provou!), ruas onde a insegurança não passa em regra do vigaristote de mão-baixa. Não fora a cupidez do patobravismo autarquicamente protegido e a costa portuguesa poderia ser hoje um paraíso quase sem paralelo na Europa.

O turismo é uma imensa riqueza que temos e faz jus à hospitalidade que está no nosso DNA. É muito importante economicamente, abre-nos ao mundo e apenas há que saber regulá-lo com bom senso e bom-gosto, para que, pelo excesso da sua pressão no ambiente urbano, não venha a gerar uma “turismofobia”, como noutros lugares já ocorreu.

E volto ao Toni de Matos (cuja voz muito aprecio, aliás). Sabemos que a oferta ao turista daquilo que é português não pode dispensar o “kitsch"– da guitarra plástica ao azulejo “a fingir”, talvez já “made in China”. Mas, mesmo no “business-friendly” que hoje liberalmente impera, há que tentar evitar o gato-por-lebre que por aí anda. Deixar sem denúncia oficial que nada há de típico no pastel-de-bacalhau com queijo da serra é a porta aberta a que, um destes dias, possa surgir um fabiano pelo Norte a vender que bom, bom é o pudim abade de Priscos lardeado com tripas à moda do Porto...

(Artigo hoje publicado no "Jornal de Notícias")

7 comentários:

Portugalredecouvertes disse...


Está melhor !
fará falta o envolvimento de quem nos visita nas nossas atividades artesanais e culturais para que sintam a "terra" e partilhem os valores do povo português,
poderiam ajudar a manter as tradições genuínas por mais tempo
(e que deixe cada macaco no seu galho!)
é natural que se invente, mas certamente que há limites :)))

Anónimo disse...

Olhou-se para o Douro para além do Vinho do Porto?
Não! Olharam para o Douro EM VEZ do Vinho do Porto!

Estão a dar cabo da Região Demarcada para a transformar numa reserva de “destinos” de turistas que olham para as “pedras” como boi para palácio!
O turismo formatado, caquético, que anda por cá, maioritariamente, só prejudica o Douro!
Claro, enchem os bolsos das agencias e “sus muchachos” e “compõe” o orçamento “centénico”, mas estão a “usar” a Região e as suas Gentes, sem nenhuma contrapartida!
Como sempre!

Anónimo disse...

Calculo que escrever "DNA" em vez de "ADN" também tenha sido um dos milhentos estrangeirismos com que pretende condimentar o texto, não?

Luís Lavoura disse...

nada há de típico no pastel-de-bacalhau com queijo da serra

Mas o que é que interessa que seja típico ou não? O que interessa é que os turistas gostem. O ser típico não interessa.
Não temos que lhes mostrar a nossa cultura, temos apenas que lhes mostrar coisas de que eles gostem, quer elas sejam genuinamente nossas, quer não.

carlos cardoso disse...

Não sei o que fará mais falta neste país, se o bom senso, se o bom gosto, mas falta muito dos dois...

Gostei das “rotas judaicas, transformadas em maná”

Anónimo disse...

Do Brasil, fui renovar o passaporte no Consulado d São Paulo, sempre um lugar calmo em uma linda mansão no Bairro do Jardim América, qua a minha surpresa. Uma imensa fila de brasileiros a procura de visto de residente. Novos tempos novas surpresas!!!!

Anónimo disse...


Um hotel em Lisboa, que existiu até princípios dos anos 60, tinha um restaurante internacionalmente muito apreciado, que alguns viajantes gostavam de frequentar apenas pelo seu bem servir. Lembro-me de me contarem que o "Maître-d'Hôtel" refilava muito quando os viajantes americanos pediam sardinhas assadas, acompanhadas com chocolate quente. Mas servia-os na mesma.
O turismo é esse negócio de satisfazer os viajantes que nos visitam