segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Sarkozy


A derrota de Nicolas Sarkozy, nas eleições primárias da direita francesa, ontem realizadas, terão significado o fim da sua carreira política? A forma como se despediu dos seus adeptos não deixa isso totalmente claro.

No fundo, isso não tem a mais pequena importância: em 6 de maio de 2012, depois de ter sido rejeitado nas presidenciais francesas, em favor de François Hollande, tenho bem presente a frase que proferiu na Mutualité, perante os seus apoiantes: "Je ne ferai plus jamais de la politique!". Depois, foi o que se viu: aproveitou a conflitualidade entre Fillon e Copé, tomou conta do partido, mudou-lhe o nome e aí surgiu ele, de novo, a tentar o "remake". Voltará? Sabe-se lá!

Pertencemos a um país onde um dirigente desportivo dizia que "o que é hoje verdade, pode não sê-lo amanhã", onde um político regressou às lides horas depois de considerar "irrevogável" a sua demissão. E isso era num tempo em que ainda era desconhecido o "trumpiano" conceito de "pós-verdade", que veio consagrar teoricamente as cambalhotas com as palavras e essa coisa despicienda que são os factos.

Estive várias vezes com Sarkozy, em reuniões privadas e públicas. Do que se passou nas primeiras serei para sempre obrigado, por dever profissional, a guardar algum recato. Mas, nesta nota, gostava de falar sobre o momento público em que, no Palácio do Eliseu, fiz, com outros embaixadores, a apresentação das minhas cartas credenciais, como novo representante diplomático português em França.

A apresentação de credenciais por um embaixador, junto de um chefe de Estado estrangeiro, é um ato protocolar que difere bastante de país para país, dependendo dos usos e costumes locais. Em frequentes casos, o próprios chefes de Estado introduzem alterações às práticas nacionais, de acordo com os seus humores e com a sua personalidade.

Foi o que sucedeu com Nicolas Sarkozy, quando assumiu funções como presidente francês. Sendo Paris uma das capitais do mundo com maior número de embaixadas, e tendo alguns países a propensão para não deixarem os seus embaixadores "aquecer o lugar", o ritmo de apresentação de credenciais ao chefe de Estado acaba por ser muito intenso.

Ao que me dizem, o presidente Jacques Chirac, que antecedeu Sarkozy, não obstante o peso desse formalismo, fazia questão de falar uns minutos com cada novo embaixador, deixando perguntas ou comentários que tocavam as relações bilaterais. François Hollande, ao que julgo, terá retomado o mesmo método. É um pouco assim, aliás, que as coisas se passam entre nós.

Nicolas Sarkozy, optou, desde o início, por um fórmula mais "leve", menos simpática para os novos embaixadores, mas bastante expedita. Foi a que me coube em sorte, em 2009.

Cerca de uma vintena de novos embaixadores foi colocada, lado-a-lado, numa grande sala do Palácio do Eliseu, numa certa manhã. O presidente entrou, acompanhado do secretário-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros e do seu conselheiro diplomático, deu os bons-dias a todos em voz alta e, sem mais perda de tempo, dirigiu-se ao primeiro dos embaixadores, alinhados pela ordem da respetiva data de chegada a França.

Fiel às práticas que a profissão ensina, esse primeiro diplomata, tentou dizer a frase clássica: "M. le Président, j'ai l'honneur de vous présenter les lettres de créance qui me (...)". E preparava-se para transmitir-lhe os cumprimentos do seu chefe de Estado e, talvez, a honra que ele próprio sentia pelo privilégio de poder servir o seu país junto da França e coisas assim!

Era não conhecer Sarkozy! Não deixou sequer o homem acabar a primeira frase e quase que lhe arrancou da mão as cartas credenciais, que logo passou para trás, ao secretário-geral, avançando para o embaixador seguinte.

Tratava-se do meu colega de Marrocos, país com o qual a França tem relações fortíssimas e complexas. Com naturalidade, ele tentou passar uma mensagem de "Sa Majesté le Roi". Pois isso! Sarkozy cortou a conversa, nem dez segundos era decorridos (o homem, um velho amigo meu, ficou lívido e furioso).

E chegou a minha vez. Simplifiquei ao máximo a mensagem: "Mes respects, M. le President. Je suis le nouvel ambassadeur du Portugal" e passei-lhe as "cartas", assinadas por Aníbal Cavaco Silva. Sarkozy olhou-me por um segundo e disse: "Soyez le bienvenu, M. l'Ambassadeur!", e passou à frente.

A próximo chefe de missão era uma senhora africana. Sarkozy, que acelerava o processo, saudou-a num segundo e avançou. Notei alguma agitação física na embaixadora, que me segredou: "Esqueci-me de entregar as cartas credenciais!" - e mostrou-me, angustiada, o envelope com a carta do seu chefe de Estado para Sarkozy, que lhe conferia o título de embaixadora em França. A cena fora tão rápida que o presidente nem notara que, além do cumprimento, não recebera o documento que oficializava a qualidade da embaixadora. Sosseguei-a: "Não se preocupe, dá isso depois a alguém...". E tudo se resolveu, acabada a cerimónia, com a discreta entrega do envelope ao chefe do protocolo, que sorriu, divertido, perante o relato do sucedido.

Entretanto, Sarkozy "aviara" já todo o grupo e com ares de alguma impaciência, convidou a colocarmo-nos frente a ele, em semi-círculo. Vi-o gesticular para que uns empregados, de casaco branco e botões dourados, expectantes ao longe, com tabuleiros com flutes de champagne, se aproximassem dos embaixadores. Quando verificou que todos estavam servidos, ergueu o seu copo, felicitou-nos pela nossa "entronização", nem sequer fingindo que bebia (Sarkozy não bebe álcool).

O presidente singularizou então no grupo o embaixador de um país que, na antevéspera, tinha sido atingido por um grave sismo ou inundação, e lembrou-lhe: "Espero que na sua capital tenham notado que a França foi o primeiro país a prestar-vos ajuda!". O homem, ultrapassando com garbo a deselegância, que se estendia aos outros Estados cujos embaixadores tinham acabado de apresentar credenciais e que não tinham sido tão lestos no gesto humanitário, balbuciou alguns agradecimentos.

Tinham passado menos de dez minutos desde o início da cerimónia. Visivelmente "morto" por lhe pôr termo, o presidente disse estar certo de que todos compreendiam que as suas responsabilidades o obrigavam a sair. Em jeito de compensação, explicou que ali deixava o secretário-geral do MNE e o seu conselheiro diplomático, com os quais poderíamos falar "do que vos interesse".

Disse "Rebonjour à tous!" e encaminhou-se para a saída da sala. Ao passar por mim, deu-me uma palmada no ombro e disse, de forma audível por todos: "Mes amitiés à Sócrates!". Os meus colegas ficaram visivelmente admirados ao ouvir aquilo. Quase tanto como eu. Nem tive tempo de assegurar a Sarkozy que não deixaria de transmitir a sua saudação ao então primeiro-ministro português - uma figura que, até ao último dia do respetivo mandato, manteve com o presidente francês uma forte empatia e uma relação de extrema cordialidade pessoal.

5 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

Nicolas Sarkozy, um campo de ruínas diplomático e económico. Caniche de Bush e depois de Obama, reintegrou o campo atlantista, assassinando a herança gaullista, delírio narcísico , começou o seu mandato por uma implosão na noite mesmo da sua eleição, no Fouquet’s, o cruzeiro a bordo do yacht de Bolloré, o vaudeville do casal à maneira de Kennedy que se acabou no casamento com um manequim “people”, que pretende cantar, linguagem de carroceiro “ casse-toi pauvre con”, capaz de consultar o smart-phone em frente do Papa, contra exemplo do bom gosto presidencial francês.
Sarkozy, envergonha os emigrantes. Não lhe perdoo os 600 000 milhões da divida, os 75 000 milhões de presentes às empresas, os 375 000 empregos destruídos, e 370 000 pobres suplementares.
Chamam-lhe em França o “agité du bocal”… Vai ter tempo para se acalmar…
Fazer intervir a NATO na Líbia e opor o seu veto à admissão da Palestina , prova bem que este individuo não tem princípios dignos da França. Aberrant et odieux.

Anónimo disse...

Caro Freitas

peço desculpa mas que quer dizer o com os principios dignos da França?

é a guilhotina ou são os direitos do homem? é Vichy ou é Jaurès? é a venda de armas a arabia saudita ou a venda de armas ao irao? peço que não se engane e não chame o que não é ao que não é. A França é demasiado grande, contraditoria e complexa para que apenas se lhe possa perfilhar o que de bom ela cria.. não ver o resto é não ver parte do essencial. A França não é so o saint-simonisme e o positivismo... infelizmente

cumprimentos

disse...

hahahah sobre Sarkozy e Sócrates: "ceux qui se ressemblent s'assemblent".
grande post.

Anónimo disse...

de acordo com 22 de novembro de 2016 às 11:22, tirando no positivismo, que não é nada virtuoso enquanto modo de reflexão.

Joaquim de Freitas disse...

Caro anónimo


Para mim, a França é a pátria das Luzes e dos Direitos do Homem, terra de acolhimento e de asilo. Assim foi para o meu Pai, que fugia da Pide , e para a minha família.

A França é a pátria da minha esposa e do seu Pai, piloto de caça da primeira guerra mundial, expulso da Lorraine pelos nazis com a sua família, internados num campo.

A França é Danton e Robespierre, ceifados os dois pela invenção do Senhor Guillotin. Porque a França é Madame Roland, que dizia que a Revolução devora os seus próprios filhos.

A França é Jaurés defendendo os fracos e desfavorecidos e defendendo também Dreyfus.

A França é Pétain de pé, frente aos Boches , em Verdun, mas estendendo a mão aos nazis em Montoire.

A França é Voltaire , déista, ,criando a opinião pública para a defesa de Calas, um protestante.

A França é Malraux em Espanha, combatendo os fascistas, mas Daladier em Munique, vendendo a Checoslováquia a Hitler.

Mas, como bem disse, a França é grande, contraditória e complexa. A França é tudo isso.

Um pouco como a Inglaterra de Thomas Becket e de Henrique II, que não impede o assassinato na catedral, mesmo se mais tarde Jean Sans Terre nos dá a Magna Carta.

Mas a França foi também colonialista e é hoje neo colonialista, militarista e capitalista.

As armas , urbi et orbi, para quem as quer comprar, com raras excepções, são uma das “mamelles” da sua economia, das quais não se priva. Como os outros quatro grandes.

O sistema económico no qual evolui, não reconhece os valores morais E é esta tara que afecta o Ocidente inteiro, que solda os seus valores incluindo a democracia, por valores mais vis.

A França mergulhou desde há muito no ultra liberalismo, que perverteu o capitalismo, e que a há-de levar a amanhãs trágicos. Como o resto mundo ocidental.

Cumprimentos