terça-feira, 1 de setembro de 2015

Os velhos turcos


É um lugar comum em algum discurso europeu dizer-se que não soubemos lidar devidamente com a questão da Turquia e que o que hoje por lá se passa, da deriva islamizante ao tropismo autoritário de Erdogan, com gravíssimas consequências geo-políticas potenciais para o futuro do continente, configura um cenário que poderia ter sido evitado. Dou por mim a repetir esse mantra com regularidade, mas reconheço que raramente me interrogo sobre se as coisas poderiam ter seguido um caminho diferente.

A Turquia foi um aliado essencial do ocidente durante a guerra fria. A NATO e os EUA utilizaram-na como guarda avançada face a Moscovo, porquanto era, com a Noruega, o único Estado-membro com fronteira com a então União Soviética. Seria precisamente a importância do vetor militar no contexto do país (que iria ter também forte expressão nas tensões com outro vizinho na Aliança, a Grécia) que permitiu que as forças armadas aí desempenhassem, por décadas, um papel de poder silencioso, a tutela por detrás do palco onde se digladiavam os atores político-partidários.

No final da Guerra Fria, setores importantes da sociedade turca manifestaram-se favoráveis a uma aproximação institucional com a Europa comunitária. Esta demorou a perceber que o “timing” para uma resposta positiva tinha um prazo de validade. Com efeito, os pró-europeus turcos sabiam que, à diluição inexorável da tutela militar, corresponderia o recrudescimento daquilo a que ela fazia frente: o avanço muçulmano na sociedade e nas instituições do país. A “janela de oportunidade” começava a fechar-se.

Para a Europa, à época, a prioridade eram os antigos países comunistas do seu Centro e Leste, aproveitando a fragilidade conjuntural da Rússia. Daí a “pressa” da sua integração na UE e na NATO. Nesse processo, a UE seria dotada de novos tratados, agora assentes na importância do fator demográfico no processo decisório, por forma a preservar o poder dos grandes Estados e anular o impacto da “multidão” de novos países a absorver. Ironicamente, se acaso a Turquia entrasse nesse novo contexto, Ancara iria ficar no centro do poder em Bruxelas, o que não era admissível para países como a Alemanha ou a França, com esta última da “blindar-se” com a necessidade de um referendo de impossível vitória no caso da entrada da Turquia vir a estar iminente. E, está hoje muito claro, outros países se juntariam a essa recusa. Desde então, o processo de adesão da Turquia é um patético “faz-de-conta” em que já nem os turcos acreditam.

A Europa recusou a Turquia, sem perceber o erro estratégico que isso significou? Ela foi apenas incapaz de gerar, no seu seio, uma vontade coletiva que permitisse uma solução institucional para a integração turca. Só isso.

Com a crise síria, com o eixo sunita a afirmar-se, a memória de Ataturk e dos seus “jovens turcos” só sobrevive hoje no crescente autoritarismo. No resto, é a velha Turquia em progressão, com Istambul a ser cada vez mais Constantinopla.

(Artigo que hoje publico no "Diário Económico")


3 comentários:

Luís Lavoura disse...

O problema é que a Turquia só tem uma parte europeia, que é Istambul e, talvez, a costa ocidental. O resto da Turquia, o interior da Anatólia, é eminentemente asiático. Não tem qualquer comunhão de valores com a Europa. O Francisco já pensou o que seria termos o Curdistão, onde os crimes "de honra" são vulgares, como parte da União Europeia? Já pensou o que seria a União Europeia fazer fronteira com o Iraque?
Pode ter sido um erro estratégico, em termos geopolíticos, não aceitar a Turquia na União Europeia. Mas, em termos culturais, aceitá-la teria sido... inaceitável.

Anónimo disse...

Sr. Embaixador,

Lembro-me tão bem de ter escrito isto já lá vão 6 anos:

http://duas-ou-tres.blogspot.pt/2009/04/turquia-e-europa.html

Não é por acaso que a Turquia é tão importante... uma das duas novas antenas teve como destino o País

Anónimo disse...

Fazem falta os Templários.