quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Ainda o Syriza


Uma das maiores mistificações desta campanha é a esforçada utilização do tema Syriza, avançado pela maioria cessante como podendo vir a embaraçar António Costa. É um falso argumento, desmontável com grande facilidade.

Vale a pena recordar que, há cerca de um ano, coincidindo em parte com a entrada em funções da nova Comissão Europeia, mas claramente antecedido de um movimento de reflexão e propostas surgidas na família socialista, havia sido encetado um debate sobre o modo como deveriam ser futuramente desenhadas políticas alternativas ao rigor extremo das receitas austeritárias.

Essa receitas, impostas pelas "troikas" mas que ecoavam uma filosofia dominante cega ao sofrimento imposto às populações, afinal acabara por ter, num caso como o nosso, meros efeitos cosméticos no número do défice, que escondem um agravamento trágico da dívida, do PIB, do desemprego, da emigração, das desigualdades e das clivagens sociais, para além de uma carga fiscal elevadíssima, com uma brutal queda do investimento.

Com efeito, em Portugal como noutros países, essas políticas haviam mostrado à evidência a sua ineficácia, revelando-se detrimentais para o crescimento, afetando fortemente a eficácia das políticas públicas, o que havia gerado uma perigosa desafetação dos cidadãos com a própria ideia europeia.

A nova Comissão Juncker dava sinais de ter entendido esta mensagem trazida pela realidade e, no discurso assumido e nas suas primeiras medidas, notava-se que algumas lições tinham sido aprendidas. A conjugação com as propostas que a Europa socialista estava já a desenvolver parecia então possível.

A austeridade não afetou todos os países da mesma forma e, por isso, em cada um deles, as consequências políticas acabaram por assumir expressões diversas. Na Grécia, um país cuja situação económico-social havia atingido níveis de desespero, o voto concentrou-se no Siryza, um partido radical que havia feito da luta contra a austeridade a sua quase única bandeira.

A vitória do Siryza foi saudada em muitos países europeus como a expressão de que, também na Grécia, se abria uma nova frente na luta europeia contra as políticas de austeridade. Em Portugal isso também aconteceu e António Costa e outros dirigentes políticos e muitos comentadores deixaram, com naturalidade, uma nota pública pública de respeito pela decisão democrática do povo grego.

O que ninguém podia prever foi o modo como o novo governo grego veio a colocar-se perante as instituições de que o país era credor. Ao adotar uma postura negocial sem um mínimo de flexibilidade, o governo grego não apenas se deixou encurralar num "beco sem saída" - com as consequências que hoje estão à vista - como acabou por "caricaturar" o combate às políticas austeritárias, como se estas se pudessem resumir à sua agenda confrontacional. Com esta atitude, a Grécia acabou por facilitar a vida à ala conservadora europeia, que não queria ver postas em causa as opções que havia feito na linha das políticas de austeridade que havia imposto aos seus países.

O debate sereno e moderado que antes havia sido iniciado pela família socialista europeia, com apoio da nova liderança da Comissão Europeia, ficou assim fortemente prejudicado. E o que se viu foi a imposição, no imaginário público europeu, da ideia de que só havia duas posições: ou a atitude "à grega" ou o prosseguimento das receitas anteriores, impostas pelas "troikas" e por quantos lhe tinham imposto tal filosofia. A Grécia, aliás, foi quem acabou por pagar um duro preço ao não ter sabido colocar-se no debate com realismo e moderação.

É assim tão difícil compreender isto?


(Artigo publicado no "Acção Socialista")

7 comentários:

Manuel do Edmundo-Filho disse...

"A vitória do Siryza foi saudada em muitos países europeus como a expressão...", mas, é justo reconhecê-lo, sempre houve quem, e da área do PS, não caísse no "engodo" Syriza e desde o primeiro dia chamasse a nossa atenção para a insensatez do seu programa e para a sua inexequíbilidade. Vital Moreira, nunca, nem por um segundo, se deixou levar pela onda Syriza. E chamou, várias vezes, a atenção para os risco de o PS se deixar enrolar por essa onda, e a verdade é que a recuperação da coligação nas sondagens andou a par com a derrota que se ia desenhando, em toda a linha, do Syriza. Atabafada pelo barulho daquela mirífica onda, a sua voz (persistente) não se ouvia. O tempo, e não foi preciso esperar muito, deu-lhe inteira razão. É justo reconhecê-lo. Dizia Vital Moreira em 25/1/15, logo após a vitória do Syriza: "Tempos atribulados, os próximos na Grécia!". E, tanta era a sua convicção, que teve o cuidado de "gritar" mais alto, na vã tentantiva que alguém o ouvisse, sublinhando com um amarelo fosforescente o que acabava de escrever. É bom escutar Vital Moreira.

Anónimo disse...

"Ao adotar uma postura negocial sem um mínimo de flexibilidade"

Pois, o Syriza é que não foi felxível.Sabe muito o autor.

Anónimo disse...

Ó Embaixador, desculpe lá. Diga-me quem é essa tal familia socialista da Europa que tanto fala. Chamar de Socialistas, fulanos como o Holland, Sócrates, Guterres,Blair e por ai fora é e perdoe a expressão encher de excremento o verdadeiro socialismo.

Anónimo disse...

É bom escutar Vital Moreira, um vira casacas aproveitador.

Joaquim de Freitas disse...

No que precede, tanto no texto do Senhor Embaixador, que no comentário do Senhor Manuel Edmundo- Filho, tudo parece consumado. As crianças das escolas entrarão nas escolas frias, sem aquecimento, os pobres continuarão a morrer de fome, a igreja ortodoxa terá de dar de comer aos reformados na miséria (eu sei não pagam impostos !), os suicídios continuarão, e a Grécia continuará a vender os seus bens aos especuladores. Para o momento, só 8 mil milhões foram obtidos das ventas selvagens do património grego. Estamos longe dos 50 mil milhões exigidos por Schauble.

Passam assim por perdas e lucros (nenhuns) a primeira verdadeira ocasião de lançar uma mensagem político claro sobre o carácter insuportável da união monetária europeia! Assim a agonia da moeda única vai se prolongar, e com ela os sofrimentos dos países periféricos e dos grupos sociais maioritariamente esmagados pela crise económica.

Syrisa perdeu porque o seu programa era demasiado radical? :

1 - Porque a reestruturação da dívida, que agora o FMI confirma como inevitável, era radical?
2 - Porque renegociar todos os acordos precedentes assinados pelos governos dos outros partidos gregos, todos os partidos, era radical?

Tispras só cometeu um erro : assinar o compromisso! Vai pagar por isso. E cometeu um segundo erro quando disse : "« I weel keep Greece in the eurozone" , porque isso era o que Schauble não queria. Ele queria-a fora! Para o exemplo.

A Grécia, vamos falar dela de novo, breve. E as esquerdas europeias parecem sempre prontas a imolar os seus eleitores no altar da vassalagem incondicional ao euro e ao mercado único, e não existem que através dum morno apelo permanente à solidariedade europeia. O que mata a Europa.

De qualquer maneira, quaisquer que sejam as decisões futuras , a união monetária europeia, como existe, é tecnicamente indefensável. A queda das rendas face aos juros da dívida necessita uma revisão profunda . Senão será a Beresina !

Anónimo disse...

Vital Moreira, o "Avô Cantigas do PS", é uma figura do mais reaccionário que temos no nosso universo político. Curiosamente, ex-PCP e hoje PS. Podia estar e devia estar no "Partido Liberal", ou seja, nesta Coligação (PaF).

Jaime Santos disse...

O problema do Syriza não é tanto o seu radicalismo, mas a falta de preparação. Foram para Bruxelas esticar uma corda sem estarem preparados para a verem partir-se, sem outras armas que não os seus princípios e muita ingenuidade (e o ego q.b. de Varoufakis). Claro que acabaram 'comidos por lorpas', como diz o povo. A Alemanha e os outros Países do Norte e Leste Europeu mais não fizeram do que o seu papel habitual, e impediram que a Grécia criasse um 'risco moral', como eles gostam de dizer. Claro que é uma atitude egoísta e de vistas curtas, mas as relações entre Estados, sobretudo entre os fortes e os fracos, são infelizmente assim. Por isso, eu acho que o Sr. Embaixador tem razão. Uma atitude mais conciliadora e mais prudente em Bruxelas, procurando ganhar apoios de outros Países poderia ter permitido à Grécia um acordo muito melhor. Isso, ou o abandono do Euro por via negocial, com reestruturação da dívida, mas isso teria requerido que o Syriza tivesse preparado o caminho. Como ganharam as eleições do início do Ano com propostas demasiado ambiciosas e porventura contraditórias, agora não se queixem...