domingo, 1 de junho de 2014

Auguinha


A janela é da antiga prisão de Caminha. Passei por lá ontem e lembrei-me de uma história que o meu pai evocava, dos tempos em por aquela terra trabalhou, vai quase para nove décadas.

Na então vila de Caminha, havia um pobre diabo, daqueles que era (e infelizmente é) muito comum encontrar em todas as localidades: um pouco atrasado de espírito, fazia recados, vivia de expedientes e, não raramente, era alvo fácil da chacota popular. Perdi-lhe o nome, que o meu pai referia quando contava o que se segue.

A gandulagem da cidade nem sempre se portava bem, "metia a unha" ou armava rixas, pelo que, de quando em vez, ia parar aos calabouços, que tinham esta janela para a rua. Porque o serviço "hoteleiro" da prisão não era estrelado, através das grades pediam água a quem passava. A tal figura popular, chamada a ajudar, apiedava-se deles e lá ia procurar com que lhes matar a sede.

A gratidão não era, contudo, a melhor das qualidades desse pessoal. Quando se viam cá fora, em lugar de premiar aquele que os ajudava em momentos menos fáceis, voltavam à gozação ao homem, achincalhavam-no e riam-se dele. O tal pobre diabo reagia então, avisando de que, no futuro, se tivessem problemas, não poderiam voltar a contar com ele, dizendo: "Hádes querer auguinha!"

8 comentários:

Anónimo disse...

auguinha? votinhos....

Anónimo disse...

"Hádes"? Era um antepassado do Coelho? Ai não, que esse é bem esperto...

patricio branco disse...

uma historia exemplar, há muita ingratidão neste mundo e com ela muitas vezes se retribui a solidariedade, mas as coisas são assim, as pessoas tem tambem a sua dose de de tudo um pouco, etc etc

Defreitas disse...

O Senhor Embaixador tem uma bela memória! Mas como recordar é viver, e como mais uma vez a sua história me faz pensar a uma que também conheci na minha terra de Guimarães, permita que lha conte.

Também lá , havia um pobre homem que vivia da mesma maneira , isto é , de biscatos, fazer recados, levar encomendas à estação de caminho de ferro, e mesmo, durante um certo tempo, puxava uma carroça onde levava as encomendas ! Como hoje os automatismos para a classe trabalhadora, foi finalmente um cavalo que o levou para o desemprego! O dono da carroça procurava "competitividade" e "rentabilidade"! Já !

O pobre homem tinha um nome que não sei se era devido a uma descendência hebraica, mas chamava-se Moisés ! O Moisés conhecia toda a gente e toda a gente o conhecia. Era albergado na Casa dos Pobres, onde tinha como vizinhos os indigentes da cidade , que viviam de esmolas, e outros nomadizados de passagem. Nesses anos de 40 e 50 eram legião! Hoje, mesmo nas grandes cidades europeias se podem ver essas eternas vítimas do destino, deitados nos passeios ou nos cantos dos imóveis. Pela mesma razão : a miséria!

Havia na cidade um grupo de industriais e comerciantes, abastados, a elite burguesa que mandava lá na terra ! Eram proprietários de vários negócios e fábricas.

Na época da caça, era vê-los no fim da tarde passar em grupo pelo centro da cidade, no meio das ruas, porque o transito era pouco nesses tempos, a espingarda a tiracolo, a cartucheira cheia de munições, ostentando com garbo e orgulho os troféus da caça do dia : coelhos, lebres, perdizes, tudo o que passava ao alcance dos grandes atiradores que eram! Aliás eram estes mesmos senhores que eram reputados pela "caça" que faziam às raparigas humildes , que trabalhavam nas fábricas deles, e cá fora! Todos tinham um "escore" de amantes de filhas do povo. E não só! O pobre Moisés via-os passar , admirativo e receoso! Esta gente tinha muito poder.

Um dia, Moisés, recebeu o choque da vida dele: o grupo de caçadores iméritos convidaram-no a um jantar na casa de pasto (não, não aquela do Mike Jaegar !) onde, segundo parece se comia muito bem.

No dia aprazado lá veio o Moisés, para comer um "coelhinho à caçador"! Enquanto outros se regalavam de perdizes à moda da casa! Regalou-se o nosso pobre homem! Um coelhinho bem regado de "verde" da região, não se recordava de tal festim!

Pobre Moisés! A factura viria mais tarde! Alguém lá da cozinha tinha lançado o "scoop": O Moisés tinha comido não um coelho mas sim um ...GATO ! Verdade seja dita que os gatos e os caçadores "não fazem bon ménage" !

A noticia correu célere na "bila" ! O Moisés comeu um gato! A partir desse dia, a "gandulagem" de Guimarães , cada vez que via o homem, gritava-lhe : Oh Moisés olha o gato! Oh Moisés, olha o gato!

Segundo muitos, lá na cidade, a "malandragem" abastada era bem capaz de o ter feito !

Um dia, o Moisés desapareceu! Nunca mais foi visto na cidade. Talvez tivesse regressado à aldeia , donde nunca devia ter saído, se soubesse ! Se soubesse que é preciso sempre desconfiar de uma certa "qualidade" de gente . Il n'y a que les pauvres de généreux.

Anónimo disse...

Bela história...

A ingratidão faz parte da alma lusitana.

Mas, a maioria das vezes o melhor, que, sabemos fazer, pode não ser suficiente. O secretário geral do PS não esteve à altura das minhas expectativas...

A questão é: estará para a próxima?
O "não me demito" e "habituem-se"
podem ser legitimos, mas, onde é que já ouvi isto?


Não me agradou mesmo nada!

Colofon Livros disse...

Será esta história uma alegoria ao que se passa actualmente no PS? Será que Seguro ainda vai dizer a muito boa gente que o "traiu" "hades querer auguinha".
Convém não esquecer que na mitologia Hades foi o feroz protagonista da guerra de titãs..,

Perdoe-me este devaneio dominical.

Melhores cumprimentos,
Francisco Brito

Isabel Seixas disse...

A menina dança?
'
- Não, já me cá bieram

-Hádes cá bir...

Anónimo disse...

É, infelizmente a ingratidão vem já dos tempos antigos. :(
VW