sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Saneamento

Imagino que, para alguns jovens de hoje, o termo "saneamento" não ultrapasse a ideia de redes de esgotos e canalizações. Porém, se acaso tivessem vivido uma vida adulta após a Revolução de abril, saberiam que o termo foi então abundantemente utilizado para significar o afastamento forçado de pessoas de algumas estruturas e instituições, quer por alegadas ligações ao regime ditatorial quer, num momento subsequente, por acusações de resistência ao "processo revolucionário" desencadeado. 

O caso do afastamento de mais de duas dezenas de jornalistas do "Diário de Notícias" foi um dos "saneamentos" que então gerou mais polémica. É que muitos dos "saneados" estavam longe de poderem ser qualificados de "fascistas", sendo apenas pessoas que resistiam ao controlo do jornal por uma linha muito próxima do PCP. Pode dizer-se que pelo DN passou então a fronteira da clivagem mais evidente no seio da Revolução. Nomes como José Saramago ou Luis de Barros emergiram, a partir daí, como os principais responsáveis por essa operação política, que ficou na história do jornalismo português.

Foi agora anunciado o lançamento de um livro que recolhe uma tese universitária sobre o tema. Atento o que se conhece sobre o nível da orientação académica do trabalho, deve esperar-se um texto rigoroso. Veremos se assim é. Alguma polémica em torno da utilização de uma imagem do jornal como capa da obra está a funcionar como involuntária propaganda para o seu lançamento. Irei ler o livro com cuidado, como julgo que fiz com quase tudo o que se escreveu sobre aquela época.

Zita Seabra, a operosa editora da Alethêa, que publica o livro, aparece, uma vez mais, na linha da frente de uma iniciativa que, diga-se o que se disser, pretende confrontar os comunistas com o seu passado. Como "voyeur" regular desses tempos, só me posso congratular com o facto de novos dados virem à tona, ajudando a completar o "filme" desses dias. Isso não seria, em si, nada de mal, não fora dar-se o caso dessa mesma Zita Seabra ter sido, à época, uma das mais ferozes e sectárias militantes do PCP. Reconheço o direito a que as pessoas mudem de opinião e assumam a sua distância face a um passado a que entendem já não deverem fidelidade. Mas acho que alguma maior contenção seria recomendável. Nunca é agradável ouvir um membro de um casal desavindo fazer revelações sobre a intimidade dos seus antigos tempos.

35 comentários:

Defreitas disse...

Acompanhei de longe, atentamente, a revolução de Abril. Por ter sido na minha juventude militante do MUD Juvenil, portanto antes de emigrar anos mais tarde, estava convencido que uma revolução não podia vingar sem a adesão mais larga de todos aos objectivos fixados. Não tínhamos visto no passado, noutros países, o mal que podia causar a contra-revolução? Só que, verifiquei depois , a adesão não se conquista pela força , sem correr o risco de deturpar a pureza do ideal revolucionário. Os exemplos de Praga e Budapeste, entre outros, são históricos.

A liberdade de pensar mete medo: se cada um é livre de pensar o que quer, não seria a contra-revolução ou mesmo a anarquia? não seria preferível de consolidar a sociedade pela adesão de todos a uma mesma doutrina? O PCP caiu nesta contradição : manobrar as consciências para obter a adesão total. Esqueceram que a liberdade de pensamento quando ela está associada ao respeito da experiência , reúne à volta do mesmo mundo a diversidade dos pontos de vista particulares entre os quais se desenvolve um diálogo.

Os seres humanos distinguem-se uns dos outros pela sua maturidade, a sua situação social e o seu temperamento. A nossa representação do mundo evolui entre a infância, a adolescência, a idade adulta e a velhice ; a nossa posição social determina o nosso ponto de vista, o nosso temperamento, passivo ou extravertido, "colora-o" ! Mas é o mesmo mundo que observamos todos e do qual falamos.

Estou curioso de ler Zita Seabra e de ver como raciocina uma "revisionista" ( ou "negativista"?) sabendo que o negativismo que se reclama da liberdade de pensamento fá-lo não para revisar a doutrina à luz da experiência, mas para poder negar a experiência em beneficio da doutrina.

As doutrinas, como as religiões, tão diferentes possam elas ser, quando não estão ligadas ao real dos humanos, podem ser um factor de divisão social, de guerra de religião como de afrontamento ideológico.

Anónimo disse...

Pois é, é preciso uma certa vigilância. Vigilância sobre aquilo que se diz, para não se desvirtuarem os factos, e vigilância sobre o que os politicos fazem no dia a dia.
A Sra Zita Seabra foi uma Comunista do topo. Penso que na altura a Senhora dizia dela própria ser uma mulher de esquerda e agora está no PSD cuja linha politica não se nega dizer que é de direita.
Está mais ou menos esclarecido que a Senhora foi vitima de Saneamento e isso pode "justificar" certas reações que, para compreendê-las, recorro às minhas andanças pelos movimentos de esquerda em França, nomeadamente próximos do PSU, onde um amigo francês, que continua amigo, me avisou: quando alguém empreende um percurso da esquerda para a direita merece mais atenção que quando alguém toma um percurso contrário...os que viram à direita avançam sempre e não mais recuam... E dava-me como exemplo Pierre Laval.
José Barros

patricio branco disse...

vamos ver, a história é para se envestigar e contar, as conclusões e proveitos que as tirem quem quer.
o problema está no nome de saramago, dele ser o actor principal, hoje o nosso escritor mais internacional, premiado, conhecido,a sua fundação na casa dos bicos, a sua filiação partidária, a sensibilidade do partido a que pertenceu, a tentação de apagar secções da historia, etc.
não sei se vou ler o livro, parece que há uma acção interposta para que não saia, não sei, mas vou folhear.
este é o tipo de coisas que davam uma boa pelicula, à maneira das que mostram episódios do maccartismo, uma boa peça ao estilo arthur miller, etc, o assunto teria então mais cobertura e alcance.
é publicado o livro pela editora de zita seabra, nada a dizer, a caminho tambem começa a perder saramago que começa a ser editado por outra, josé saramago ainda rende muito, optimo, o que quero dizer é que a caminho possivelmente não aceitaria publicar o livro sobre os saneamentos, ou expulsões do dn em 1975, vamos a ver, etc etc

manuelpereirabarros Meira disse...

Como a História mostra à evidencia algo mais deveria ser feito para lá do saneamento.Que burro velho não aprende línguas está provado.Que cesteiro que faz um cesto faz um cento vê-se agora na nossa Comunicação Social.Os genes moldam os carácteres,sigamos os sãos e cuidemos dos doentes, sem contrair os seus males.

margarida disse...

A senhora não escreve sobre o caso e sim publica um trabalho académico a propósito, o qual parece estar a sofrer tentativas de bloqueio já que a uber vaca sagrada se tornou intocável
http://www.publico.pt/politica/noticia/donos-do-dn-querem-impedir-publicacao-de-livro-que-reproduz-capa-do-jornal-1622541

ignatz disse...

era de admirar se a zita falasse dos saneamentos que a direita anda a fazer do prec para cá, e não deve ser por falta de informação.

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Margarida: os atuais donos do DN são membros do CC do PCP?

ARD disse...

Parece-me detectar, talvez erradamente, em certos comentários, uma tendência para colocar Saramago e Zita Seabra ao mesmo nível ou, pelo menos, para os contrapor.
Não deve haver equívocos: o nome de Saramago perdurará por séculos na História da literatura mundial; o de Zita Seabra não terá direito sequer a uma nota de fim de página seja em que História for.
Também reconheço o direito a mudar de opinião. Mas "mudar de opinião" pressupõe admitir que se estava errado quando se tinha a opinião anterior.
Portanto, uma pessoa que, durante anos e anos, defendeu convictamente uma ideologia tão exclusiva como a que anima o PCP, quando descobre que esteve absoluta e radicalmente enganada, deve interrogar-se sobre que garantia tem de que não está novamente errada. Deve, por isso, remeter-se a um púdico período de alguns decénios de nojo e discrição.
Ora, a conversão de Seabra, como acontece com alguns intelectuais arrependidos dos seus pecados esquerdistas, demonstrou ser acompanhada pelo "síndrome de Clovis", isto é, a decisão de "queimar tudo o que haviam adotado, adorar tudo o que haviam queimado".
Eu, por mim, desconfio desses conversos, duvido da solidez das suas novas ideias e abordo com desconfiança os seus "mea culpa" trombeteados na praça pública".

Anónimo disse...

Como a "caspa" que não larga os cabelos oleosos, os herdeiros do comunismo/jacobino, não se livram da sua falta de ética ora dum lado ou de outro ,conforme o "óleo" das dos cabelos.

É preciso publicar tudo oque aconteceu entre 25 de Abril e 25 de Novembro, para que a História de Portugal, não sejam só rosas! e "amis" !

Isto de escrever contra "a-moral-jacobina" é um aborrecimento !

Alexandre

Defreitas disse...

Completamente de acordo com ARD: Saramago tem o lugar marcado na Historia como escritor e ninguém lhe poderá negar a força das suas convicções. Não divagou entre ideologias contrárias.
Comparei-o durante um certo tempo a Roger Garaudy, escritor e filosofo, membro do Partido Comunista Francês . Só que o "Temps des Cerises" passou e, entretanto, o intelectual idealista, católico depois protestante, depois comunista estaliniano, depois marxista próximo das ideias de 1968, depois católico depois muçulmano, à procura da Verdade de Tudo, do Absoluto, perdeu-se no caminho, ao afastar-se da ortodoxia do partido a partir de 1966. No mesmo ano, 1966 , em que Zita Seabra aderia ao Partido Comunista.
Quando Garaudy acabava de escrever" Dieu est Mort " , Saramago terminava o "Dieu Manchot".

Zita Seabra virou de bordo e estou de acordo com o ultimo parágrafo do "post" do Senhor Embaixador .

Agora, esperemos pelo seu livro.

"Toutes les explications sont bonnes à condition qu'on les accepte."

LE DIEU MANCHOT.

Anónimo disse...

Estes que agora escrevem a inventar desculpas concordam, hoje, com os saneamentos do 25 de Abril, concretamente os que Saramago promoveu, tendo o próprio pedido desculpa a Carlos Pinto Coelho, como ele contou, quando o confrontou com a patifaria?
Saramago, sim, vai ficar na história literária. É um enorme escritor. Na história política só poderá ficar como um patifezinho.
João Vieira

Antonio Cristovao disse...

apoiado.nãoficava maluma certa contenção como muitos e bons cidadãos que se cansaram das verdades absolutas e preferiram pensar pela propria cabeça;mas não sentiram o mesmo impulso revolucionario de gritar as novas verdades. para mim seria digno evitar. não omudar de credo,mas a militancia saloia

opjj disse...

Li quase tudo de Saramago, até vivi na terra dele e reconheço-o como um criador. Tem livros maravilhosos. Tudo, tudo...
Tem um mas...era faccioso e politicamente mais parecia um menino. Coisa que sempre me impressionou estas contradições.Nem conseguiu ver que Fidel é um ditador??????
cumprimentos

Anónimo disse...

Dou mais importância a Saramago do que ele dava a si próprio: "Sou uma excrescência do Universo!"...
...As individualidades ficam na história pelas suas obras, não porque alguém anseie que fiquem!
antonio pa

Anónimo disse...

Desconfio sempre dos que, sendo cegos, repentinamente começaram a ver. Desconfio sempre dos controleiros estalinistas que, repentinamente, se converteram a algo. Só me espanta como pessoas que, durante anos e anos andaram enfronhadas no Partido, repentinamente, por obra e graça do Espírito Santo, passam a iluminadas e, a torto e a direito, atiram para trás das costas o seu passado. Mudar, pode sempre mudar-se, mas há conversões que cheiram a esturro, como curricularmente, "a posteriori", se pode ver. Será que à Dr.a Zita Seabra, um belo dia, lhe apareceu a Senhora de Fátima no alto de um chaparro e ela passou de enganada a iluminada????

ARD disse...

Ao anónimo das 17:02 quero deixar claro que defendi (e defendo) p princípio do saneamento praticado depois do 25 de Abril.
Certamente, foram cometidos erros, injustiças e até vinganças e perseguições pessoais.
Mas o saneamento destinava-se, e bem, a destruir o aparelho repressivo da ditadura.
Não se constroem democracias com liberticidas.

Anónimo disse...

Comentário da 'velha senhora':

saramago parangona
pra falar de saneamento?
zita que abra olhos e mona
seu passado não a abona
seu presente não o alento
fanatismos só lamento

margarida disse...

Defreitas, só enfiei prego nesta estopa por causa de si e continua a insistir no livro 'dela': o livro só é publicado pela editora onde postula a convertida, o teor é de um jovem académico.

E, excelência, tantas ocasiões simpáticas para trocar amenidades, tinha de ser a propósito da uber vaca sagrada que se sentiu beliscado? Hmmmmm....

Isabel Seixas disse...

Oh...
está na altura de mudar de paradigma
terminar de vez com os juízos de valor
que seria de nós sem esta força viva personagens que extremam posições sem temor...

inócuos, alguns de qualquer forma
professam ideias roçam a reforma...

Defreitas disse...

Cara Margarida: Beliscado? Certamente que não, sobretudo vindo de si , de quem admiro o espírito livre e aprecio as amenidades, esperando que elas serão sempre assim tão simpáticas!
J'en suis flatté!

Livro ou ensaio, o manuscrito é publicado na editora da Senhora. O que significa que, sob a pena dum académico, tem o seu acordo. E é muito bem assim, porque assim é a liberdade de opinião.

Defreitas disse...

Ao Senhor Antonio pa : Completamente de acordo com o seu comentário. Devemos separar a obra do mestre ; só assim é possível admirar como se deve o valor da obra. Isto faz-me pensar em Richard Wagner, de quem aprecio a obra musical desde sempre, mas que detesto a personagem pela sua proximidade com Hitler.

Foi preciso a imensa coragem e inteligência dum grande maestro Judeu, Daniel Barenboïm, para partir o tabu e executar as suas obras em Israel.

Catinga disse...

É nestas coisas que muitos falham em perceber o que é o 25A para uma grande parte das pessoas. Uma revolução (ou revolta?) é feita de muitas minirrevoluções e são estas que mexem com o dia a dia de cada um. A perceção que muita gente tem do 25A não é a dos D porque uma população politicamente apática estava-se borrifando para a democracia (daí ter sido necessário politizá-la); porque uma população ensinada a crer no Império estaria contra a descolonização e, finalmente, porque uma população criada no princípio de que a nobreza vem da pobreza não teria a consciência do que significava, realmente, desenvolvimento.

Não. A ideia do 25A que tantos têm veio, precisamente, de coisas como estas: prepotências, roubos, ocupações, tudo o que tirasse as pessoas comuns do seu habitual caminho e lhes confundisse a vida.

Para uma grande parte da população (só retornados foram um milhão), o 25A foi a perda do que tinham, foi o desmoronar de uma ordem com a qual viviam bem (sem que isso significasse participação no Regime). O caso dos saneamentos foi, apenas, mais uma das minirrevoluções (como foram as ocupações de terrenos e empresas, por exemplo). Quem por isso passou, não se esqueceu e dificilmente perdoou. Quem com isto sofreu tem dificuldade em aceitar as "festanças" comemorativas que lhe são impostas.

O sectarismo de esquerda recusa-se a aceitar que o 25A foi um confronto interno, uma guerra civil (quase) sem tiros.

Este caso de Saramago foi sempre recordado pelo jornal "O Diabo" que - justiça lhe seja feita -, no meio da névoa conservadora dos restos da ditadura, sempre foi capaz de suscitar muitos assuntos que noutros lados eram "tabu".

Pena é que se queira sistematicamente misturar arte com política e se use a segunda para tirar o mérito à primeira (ou a primeira para apoiar a segunda).

Saramago foi o autor de belíssimas páginas e se, ao pousar a caneta, ele se entretinha com a defesa de teorias abjetas, isso nunca me retirou o prazer de o ler. E também nunca senti necessidade de lavar a mão das vezes que o cumprimentei...

Já a viúva. Essa é que é absolutamente insuportável. Ninguém a pode... sanear?

Anónimo disse...

A Zita, foi, e é, uma comunista de topo - foi, e é, um torpedo na Buenos Aires e na São Caetano

Sá Carneiro, deve dar "cambalhotas" na cova, julgo eu

Anónimo disse...

Ó Freitas, o Wagner próximo de Hitler???!!! Isso diz tanto sobre si...

margarida disse...

... que salada!

Defreitas disse...

Mal escrito, minha culpa, e mal interpretado. Richard Wagner (1813-1883) foi um grande compositor e um grande anti-semita. Foi o músico favorito de Hitler, de tal maneira, que ficou para sempre associado ao regime nazi e ao destino de milhões de judeus e outros povos "inferiores" exterminados por este regime.

Defreitas disse...

Caro Catinga: Se me permite, eu alargaria o debate , para lá das consequências da "revolta" das Forças Armadas , às razoes que as levaram a sair dos quartéis.
Portugal enfrentava três guerras africanas , desencadeadas por vários movimentos de guerrilhas que contavam com a "compreensão", senão mais, das potências ocidentais e dos países comunistas.
Estas guerras vêm após a descolonização das suas respectivas colónias, da França e do Reino Unido. O processo de descolonização francês foi o referendo para a África Negra ,concedendo a independência, com a possibilidade de ficar na Comunidade Francesa. Todos aceitaram, excepto a Guiné Conacri, que obteve a independência imediata, recusando a Comunidade Francesa.
A Argélia, sendo considerada pela França como um departamento francês, (a famosa "continuidade" da Nação, cara a Salazar , com as "Províncias Ultramarinas") não beneficiou do referendo. A razão está à vista: a presença de mais de um milhão de Franceses , descendentes dos colonos que colonizaram o pais depois deste ter sido invadido e ocupado , e no qual fizeram uma grande obra de desenvolvimento.

A decisão histórica de De Gaulle da autodeterminação do povo argelino e da independência, após algumas argúcias verbais, e a acção criminosa da OAS em França, impôs-se porque esta guerra, como a da Indochina, era um furúnculo no corpo da França e um handicap para o desenvolvimento. Os soldados entraram nas fileiras, os generais foram desactivados e julgados e o drama maior veio depois com os retornados (Pieds Noirs), que perante a escolha de fazer as malas ou a morte preferiram a mais lógica e única resposta: regressar a casa, onde trouxeram o seu dinamismo e desenvolveram muito o sul da França. Sou testemunha.
Mas a França era uma democracia e a 5° potência mundial. E absorveu o choque.

Portugal encontrava-se na mesma situação que a França, só que Salazar não "viu" ou não quis ver a evolução do mundo que anunciava a conferência de Bandung em 1955.

A Conferência de Bandung em 1955 já tinha lançado a semente da descolonização, quando os 29 países asiáticos e africanos proclamaram o seu anticolonialismo e o direito dos povos a dispor deles mesmos.

A decisão de fazer a guerra aos povos africanos, com os meios económicos e militares que eram os nossos, só podia ter o desfecho que teve. Bastava ver em que condições eram transportados os soldados no fundo dos porões dos navios para Angola para o compreender. E com que meios combatiam no mato.

As Forças Armadas fizeram o balanço da situação e verificaram que aquelas guerras não tinham solução. E não foi Spínola que o disse. Morrer nos pântanos da Guiné , saltar sobre uma mina ou receber rajadas de metralhadora do inimigo escondido no capim, não era nada glorioso.

E Portugal não era uma democracia. As Forças Armadas , não sei, mas talvez tivessem também em mira a oportunidade de recuperar a liberdade para o Povo Português. E fizeram-no. Aqui, não estou de acordo com o Senhor, quando diz que " o povo se estava borrifando para a democracia" Falta saber qual povo.

A Revolução Francesa não foi o povo que a fez, mas sim a burguesia. O povo seguiu. Em Portugal também não foi o povo. Foram os militares. E o povo acompanhou.

Os sobressaltos do após Abril 74 merecem mais espaço.

Defreitas disse...

Caro Catinga:

Retomo o 2° e o 3° parágrafo do seu muito interessante comentário, para dizer o seguinte:
Posso compreender que uma certa elite e mesmo uma parte da classe média do povo Português , em Abril 74, pudesse, finalmente, estar-se borrifando para a democracia, como escreveu.
Porque é verdade que para aqueles que viviam na "fatia" privilegiada, sem as dificuldades da vida da maioria , a falta de democracia não se fazia sentir. Porque a democracia significando partilha, até talvez muitos a vissem, como hoje ainda alguns, com um mau olho!

Em contrapartida, para a imensa maioria, para quem a satisfação mesmo das necessidades "essenciais" não está adquirida, e não conhecendo exactamente quais poderiam ser os seus direitos , por apatia, ignorância , analfabetismo, ou por medo, não se manifesta, a "politização" ou aprendizagem da democracia torna-se um imperativo .

Aos governos autoritários ou mesmo ditatoriais não lhes agradam os homens livres.

Porque uma democracia é uma sociedade de homens livres, não se pode participar à construção desta sociedade se não se aprenderem as bases da democracia.

Imagine, Caro Catinga, se Portugal fosse uma democracia mais avançada, se aquilo que descreve no 2° parágrafo seria possível.

São os costumes dos homens que os inclinam a dotar-se dum regime político e o seu regime politico é o reflexo da maneira como cada um se governa ele mesmo.

Anónimo disse...

Caro Defreitas, o Sr. não leu o que não escrevi!
antonio pa

Defreitas disse...

Caro antonio pa: "As individualidades ficam na história pelas suas obras " . Foi a justeza destas palavras que quis sublinhar.

Catinga disse...

"defreitas":

Aproveitou o que escrevi para "alargar o debate" mas creio tê-lo feito desnecessariamente. Nada do que eu referi necessita, para ser compreendido, de uma explicação da situação internacional de então ou mesmo da génese da revolta dos militares. (da qual omitiu - convenientemente -, os fatores de natureza corporativa).

Não altero nada do que escrevi e sinto-me forçado a contestá-lo no seguinte:

1) "(...) aquelas guerras não tinham solução".

- dizem os especialistas que a de Angola estava ganha, que a de Moçambique estava assim-assim e que a da Guiné estava perdida. Como estes "especialistas" não são economistas (que tudo sabem e em nada acertam), mas sim militares e historiadores, eu gosto de acreditar neles.

2) "A decisão de fazer a guerra aos povos africanos, com os meios económicos e militares que eram os nossos, só podia ter o desfecho que teve. (...) E com que meios [os soldados] combatiam no mato."

- isto é - à falta de melhor palavra -, uma enormidade! Conhece algum país com muitos meios que tenha ganho uma guerra de guerrilha? Os EUA tinham falta de meios no Vietname? A França tinha falta de meios na Argélia? O RU tinha falta de meios na Malásia? A Rússia tinha falta de meios no Afeganistão? Israel tinha falta de meios no Líbano?

Nem nós tínhamos necessariamente falta de meios (consulte o peso das despesas de guerra na nossa economia de então). E era uma guerra de baixíssima intensidade...

3) "para aqueles que viviam na 'fatia' privilegiada, sem as dificuldades da vida da maioria , a falta de democracia não se fazia sentir"

- a democracia, senhor, nasce do espírito e não da barriga! A democracia (i.e., o desejo da dita), não está dependente de quanto se ganha mas sim de quanto se quer alterar as coisas, de quanto se é independente, de quanto se não é doutrinado. Numa sociedade "anestesiada" pela propaganda, hierarquizada socialmente, pouco culta e onde a repressão se dirija apenas às "ovelhas tresmalhadas", a democracia é uma coisa secundária. O Portugal da ditadura não era uma União Soviética ou uma China onde nem sequer o direito de livre circulação existia e onde o Estado se imiscuia nos mais ridículos pormenores do dia a dia. E isto faz toda a diferença na forma como as pessoas COMUNS "sentiam" a necessidade da democracia.

4) "(...)Porque a democracia significando partilha, até talvez muitos a vissem, como hoje ainda alguns, com um mau olho!"

- "defreitas" não consegue abandonar os preconceitos políticos com que aborda as questões. A democracia não é "partilha". A "democracia" é igualdade no direito a lutar pelos nossos ideais; é a livre expressão; é haver o "partido dos trabalhadores" mas também poder haver o "partido dos patrões". A "luta de classes" (que lhe deve ser cara, suponho), só é possível havendo democracia. A História mostra-nos que a "partilha" sempre foi imposta à força e, mais tarde, largamente rejeitada por aqueles que pretendia servir.

PS - para quando a descolonização da Guiana Francesa?

Anónimo disse...

Haja Cantingas que que contestem as enormidades primárias que vão sendo ditas nestes comentários!
João Vieira

Defreitas disse...

Caro Catinga: Alarguei o debate no espírito dum blogue, onde tudo se pode comentar, respeitando o outro. E também, concedo-o porque gosto de dialogar quando algo de interessante se apresenta à minha leitura.
O seu comentário é muito claro e compreensível. Se abordei a situação internacional da época é porque ninguém pode fazer abstracção deste facto: Os USA, no fim da 2° Guerra Mundial, lançaram uma acção planetária contra o colonialismo dos países europeus ( o facto que os USA eram e são mesmo ainda hoje neo-colonialistas na América Latina é um outro sujeito).

O RU deu o exemplo, bom grado mau grado com a independência da Índia e outros territórios.
A França, já o escrevi, seguiu o mesmo caminho. O espírito da conferência de Bandung impô-lo. (O caso da Guiana, das Antilhas, da Nova Caledónia, está posto. Tem razão.)
respondo com prazer aos pontos seguintes:


Neste contexto internacional, como teria sido possível para Portugal impor outra solução, mais cedo ou mais tarde, que aquela à qual foi compelido pelas armas?
O Senhor mesmo o confirma, quando escreve: Angola estava ganha (segundo os especialistas!) , Moçambique "assim assim" e a Guiné "perdida". Crê realmente ,supondo que Portugal tivesse ganho, que com o poder negro que tomou hoje o controlo na África do Sul, Angola poderia ter continuado a suportar a pressão internacional e a do vizinho?


Os meios para a guerra. Mais uma vez o Senhor antecedeu a minha resposta : Como poderia Portugal "fazer melhor" que aqueles países que cita, que, todos, foram obrigados a abandonar o combate ? E por favor não me fale dos meios que diz diz terem sido suficientes para fazer a guerra, sem me falar da miséria engendrada em todos os campos no Portugal continental, onde a sangria da guerra se fazia sentir. Mais para uns que para outros, certo.

Nao eram guerras clássicas, com linhas de frente estabelecidas, com estratégias e planos de batalha, mas movimentos de guerrilhas e, sobretudo, Senhor Catinga, que seja no Vietname contra a França e os EUA, e na Argélia, eram os povos que se batiam contra o colonialista. Para retomar o exemplo do Vietname, Dien Bien Phu não foi somente uma vitória militar. Esta batalha resta um símbolo., Esta batalha foi o Valmy dos povos colonizados. Foi a afirmação dos homem asiático e africano face ao homem da Europa. Foi a confirmação dos direitos do homem à escala universal. Perdemos ai a legitimaçao da nossa presença, istro é o direito do mais forte.

3° - Tenho dificuldade a responder sobre este ponto.

a)Quando escreve: "a democracia, senhor, nasce do espírito e não da barriga!", não sei se devo pensar que se deve "executar" aqueles que se alimentam mas que têm um "espírito" doente de democracia, ou o contrário.
b)" não está dependente de quanto se ganha mas sim de quanto se quer alterar as coisas," . Vamos lá pedir a um pobre desgraçado que passa fome se "quer alterar as coisas" e como.
c) " Numa sociedade "anestesiada" pela propaganda, hierarquizada socialmente, pouco culta e onde a repressão se dirija apenas às "ovelhas tresmalhadas", a democracia é uma coisa secundária." Mas precisamente, é preciso que as "ovelhas tresmalhadas" sejam gente livre e não reprimida. Por isso a democracia se impõe.

Defreitas disse...

d) "O Portugal da ditadura não era uma União Soviética ou uma China....". Uma ditadura, Senhor Catinga, é para mim, sempre uma ditadura. Que o campo de concentração esteja na Sibéria ou no Tarrafal. Quanto ao direito de circular sob a ditadura de Salazar, pergunte de que maneira centenas de milhar de Portugueses emigraram para França.

4° Este ponto é critico. O Mundo, Senhor Catinga, é ECONOMIA . E quando se diz economia diz-se POLITICA. Não há preconceitos. Há evidência. E para se compreender a ECONOMIA e a POLITICA é preciso DEMOCRACIA, para que todos os cidadãos possam ter acesso ao saber. A partir do momento em que sabem, podem decidir do mundo que desejam.

Por isso é preciso "PARTILHAR" o saber. Não existe classe predestinada a possuir o saber. E se esta "partilha" tiver de ser conquistada pela força, que assim seja; não há nada a perder.

LUTA DE CLASSES:

Uma confidência Senhor Catinga: Dirigi durante 35 anos uma firma de "high tech" ,de 250 pessoas, que terei muto prazer em fazê-lo visitar se vier para estes lados.

Fui, portanto, patrão. Tinha todos os meses à minha frente o "Comité d'Entreprise" no qual a CGT , FO, CFDT e CFTC. eram presentes. Nunca esqueci o pais donde vim. Pude assim apreciar o valor da Democracia quando discutíamos as revindicações inerentes à função sindical. Mesmo e sobretudo quando não estávamos de acordo, o que levada de vez em quando a greves passageiras. Os direitos do cliente, do accionista e do pessoal da empresa eram compreendidos de todos. E os direitos dos sindicatos também. Eles estão inscritos na Constituição.

Para mim, a Democracia , ainda é, como dizia Churchill o "menos mau" dos sistemas com a condição que não seja explorada em sentido único, e para o proveito exclusivo duma minoria .

Cordialmente

J. de Freitas


Senhor Embaixador, peço desculpa pela extensao do texto.

Anónimo disse...

WOW para um não politizado como eu estes últimos posts do escriba levantaram opiniões eruditas e esclarecedoras. As questões fracturantes de 1974 estão ainda bem vivinhas da costa ao fim de 40 anos. Será por isso que nem se fala em comemorações para não fazer sairem as hostes a terreiro? Isto vai bonito vai.