quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Pátria em chuteiras

Foi Nelson Rodrigues, esse genial cronista brasileiro, quem crismou o termo "a pátria em chuteiras", para sublinhar a comunhão de um povo atrás da sua seleção de futebol. Foi assim ontem, nesta qualificação "à portuguesa", tudo muito à última da hora, como é de regra, com o "salvador" do costume. Um alívio! E sempre um orgulho!

Por algum tempo, os desempregados tiveram horas felizes, os reformados esqueceram os cortes cumulativos que aí vêm, os despedidos da "mobilidade" fizeram de conta que não vai ser nada, as novas rendas de casa só são para pagar daqui a dias, os jovens quadros no estrangeiro internacionalizaram o seu patriotismo, a classe média nem notou os novos impostos e a subida da gasolina para o "Toyota". É como "a banda" a passar na canção de Chico Buarque.

Longe de mim desprezar o que ontem se passou. Sem estas alegrias, toda a gente (eu incluído) estaria mais triste e deprimida. Por algumas horas ou dias, as amarguras atenuam-se. E isso é sempre bom. O futebol vale o que vale, mas vale bastante no nosso equilíbrio anímico, como também no universo do imenso mundo que fala português - e isso será sempre um elemento a ter em conta na nossa política externa. Por isso, esta nossa "pátria em chuteiras", não tendo um PIB por aí além, estando esmagada pela dívida e angustiada pela dúvida quanto ao seu futuro, tem agora este "superávite" de remates a apresentar ao mundo. Não é tudo? Graças a um génio madeirense que se chama Cristiano Ronaldo, hoje estamos felizes. E o resto é conversa, para amanhã.

Nesta hora, aqui dos Açores, não quero deixar de prestar homenagem, e mandar um abraço amigo, a alguém que bem gostaria que pudesse acompanhar Ronaldo, lá na frente, no ataque que precisamos de reforçar: Pedro Pauleta. 

14 comentários:

Catinga disse...

E acompanha. Neste momento, estão ombro a ombro. Até ao próximo jogo... :)

Anónimo disse...

Ontem, quando viajava sozinho no meu carro para Paris, para participar no debate sobre "Os Novos Emigrantes Licenciados" organizado no Consulado em Paris por iniciativa da Rádio Alfa e do Lusojornal, seguia à minha frente um indivíduo também sozinho, no seu carro, a segurar com a mão esquerda uma bandeira francesa que flutuava da Janela aberta.
Segui-o durante muitos kilometros. Imaginei o frio que o desgraçado suportava a segurar aquela bandeira ao vento mas o meu pensamento foi invadido pela ideia que o individuo fosse um qualquer nacionalista ferronho ao extremo, partidário de qualquer extrema direita e que gelasse se quizesse!
Só quando cheguei ao Consulado e ouvi falar das seleções francesa e portuguesa é que compreendi a história da bandeira!
Afinal também devo sofrer "da bola".
José Barros

Anónimo disse...

Eu peço desculpa mas... o circo foi bom. Vamos ver se o pão do Natal também será.

Anónimo disse...

Sr. Embaixador, tudo isso que assinala tem o meu acordo mas, já agora, dizem os "entendidos" em marketing, que este resultado do Ronaldo e...outros, traz para Portugal, aproximadamente 500 milhões de euros de mais valias
Meus cumprimentos,
MT

Anónimo disse...

Ao anónimo José Barros:
Ainda bem que seria devido à Bola, e a França lá "passou", mas bem pior teria sido se fosse por motivo da "DIREITA"...

Anónimo disse...

Ó caro Senhor José Barros, como é possível que estivesse tão alheado dessa hora crucial para levantar o ânimo depauperado de portugueses e de franceses ou, pelo contrário, para nos deixar, a uns e a outros, completamente "na fossa"?

patricio branco disse...

magnifica vitória mas deu me pena não ter havido outra distribuição dos golos, cr7 2, outro companheiro 1, enfim, estamos felizes e por aí vamos, é isso que conta...

Anónimo disse...

Parece para alguns que se os tugas tivessem perdido haveria mais luta armada..

Mas não é sempre apreciável fazer boa figura?

Uma coisa é a estrada da Beira, outra é a beira da estrada.

Respeitosos cumprimentos.

Guilherme.

Anónimo disse...

ERA UMA VEZ disse:

Podias ter sido apenas"um menino da ilha"
tímido
mas decidido a mergulhar
na senda de moedas
carregando bananas entre letras e tabuadas
olhando o mar e as levadas
sonhando venezuelas

mas Deus, o Universo, a Vida, sei lá eu
ofereceu-te um brinquedo em forma de mundo
e lá dentro um talento por desvendar
então
um novo sonho nasceu

ai...o colo da mãe lá tão longe
mais os miúdos da rua
saudades do bolo de mel
e da ilha iluminada
a bola apertada ao peito
e nesse teu jeito
limpas a "furtiva lágrima"
e apressas a caminhada

HOJE
driblas o coração de um povo entristecido
HOJE
segredas que há sempre um pouco mais de esperança
HOJE
sabemos que podemos ir mais adiante
e lembras-me um poema que talvez nunca tenhas lido(quero lá saber)
"o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança"

Obrigada COMANDANTE

Anónimo disse...

O futebol é agora o ópio do povo, uma vez que, pelo menos no Ocidente, a religião perdeu a importância que tinha e/ou está mal vista. Mas este ópio, é muito bom, aliás como o verdadeiro ópio!

Anónimo disse...

Sr. Embaixador

Passo por aqui muitas vezes.Raramente comento. Hoje, o seu texto comoveu-me. E este poema levou-me às lágrimas.Maravilhoso.
Quem me dera escrever assim para expressar o que sinto.

A.Barata

Isabel Seixas disse...

De facto foi mesmo assim um lavar de alma e coração, não faria qualquer sentido Portugal não ir ao Brasil.

Lindos o texto do post e o poema de Era Uma Vez, parabéns aos dois.

Anónimo disse...

Por falar em "chuteiras", chamo a sua atenção para a revista "Veja" (Brasil), publicada ontem, 20/11/13.

Alexandre

Anónimo disse...

Preparar a Festa: o dia do Menino Jesus; a primeira Oitava, a segunda Oitava e a terceira Oitava é uma azafama que na ilha começa com os primeiros dias de frio. Este ano o presente dos pastorinhos no presépio ja é conhecido, mas sempre bem-vindo. So falta para a alegria ser mais colorida a chegada do Ronaldo à noite de fim do ano. Quem sabe ele vai mesmo ver o fogo que sempre alegrou a nossa meninice?! Quem é ilheu, sabe bem quanto se tem de fazer para se chegar aonde os continentais chegam mais facilmente... Reagimos à pressão e aos insultos dos mais poderosos também de modo diferente. Com maior sentimento de independência e determinação sem danças colectivas. Não é por falta de saber actuar em grupo. Assim é. O resultado de tantas experiências mal agradecidas quando se perde tempo com os modernaços: "trabalhos de grupo"... Perguntem aos açoreanos ou aos irlandeses, a força que tem o Atântico e se o individualismo é sinonimo de arrogância. Não é. Pode ser resultante das vidas humildes que até os mais abastados tinham na ilha. Falta de educação também não é. Precisamos é de dar provas redobradas para ultrapassarmos o tamanho da nossa terra... que é mais azul e mais bonita quando voa!