sábado, 2 de novembro de 2013

Os Santos

Foto de Fernando Ribeiro

Esta é a altura dos "Santos", lá por Chaves. É uma das grandes festas transmontanas, famosa desde sempre como grande feira rural, hoje, dizem-me, está muito urbanizada nos usos mas, nem por isso, menos movimentada e atraente.

Na minha infância, em alguns anos, fui de Vila Real "aos Santos". Almoçávamos quase a meio da viagem, em Bornes, junto às Pedras Salgadas, em casa dos meus avós maternos. Atravessava-se a ponte de Trajano já ao entardecer. Recordo-me de ter criado a ideia de que era uma festa algo estranha, porque quase sempre tinha lugar em tempo frio, quando, em Portugal, a generalidade deste tipo de feiras ocorre numa altura quente do ano. Mais tarde, vim a apreciar frígidas feiras em período natalício, no norte da Europa, com adequadas bebidas quentes para atenuar esses efeitos.

Nesse tempo e nessa idade, a minha grande curiosidade era ouvir falar espanhol pelas ruas, coisa que nunca acontecia no nosso quotidiano de Vila Real, algumas escassas dezenas de quilómetros a sul. É que, tal como sucedia aos flavienses que se deslocavam anualmente "aos Lázaros", a Verín, no mês de março, nesse dia a fronteira era relativamente franqueada para os galegos virem a Chaves, com dispensa de passaporte. Essa minha sedução pelo que soava a "estrangeiro" era, em Chaves, sublinhada pela ideia mítica do contrabando que lhe ia associada, da comercialização do que não havia do lado de cá, de que era expoente a famosa loja da Aninhas Vitorino, que então muito se frequentava e que sobrevivia por complacentes e dizia-se que poderosas cumplicidades.

Nessa "romaria", recordo-me que se ia sempre visitar a nossa família flaviense e, invariavelmente, passava-se no "Aurora", o café do sr. Avelino, um cidadão galego que tinha vivido, por alguns meses, refugiado num armário da casa das minhas tias, nas Pedras Salgadas, durante a guerra civil espanhola. Um mundo de aventuras juntava-se, na minha cabeça de miúdo, à figura do sr. Avelino e às suas andanças políticas na esquerda espanhola. E, com naturalidade, passei a ter simpatia pelas causas que tinham motivado aquele amigo da família.

Guardo ainda a imagem das barracas noturnas no jardim do Bacalhau - ou seria na praça General Silveira? -, do bulício da gente, para cima e para baixo, na rua de Santo António. Depois, era o longo regresso noturno a Vila Real, por Vidago, pelo Reigaz acima, pelas longas retas de Sabroso e Vila Pouca, com a subida da Samardã como último obstáculo.

Outros tempos. Agora, com a A24, tudo é mais fácil. Já prometi a mim mesmo: para o ano, vou "aos Santos"!

4 comentários:

Isabel Seixas disse...

Faz muito bem vir para o ano pois este ano até os Santos meterem água, molhados e "humilhados" por serem postos de lado ao deixarem de gerar feriado...

Que perda de autoridade e ainda dizem que é o dia de todos os homens...
Talvez , os pecadores, consigam fazer regressar os santos a feriado e pelo menos estão identificados sem se esconderem na capa de santo...

Tenho tantas mas tantas recordações dos Santos...Algumas já já cristalizaram nas memórias, ambas boas ,claro.

patricio branco disse...

ocasião para comer as castanhas assadas, ou cozidas com sal e erva de aniz, ou o pão de castanhas, ou a tarte de castanhas, os pasteis de natas de castanhas, beber um copinho de licor de castanhas, etc
sim, estas são as ultimas feiras do ano em portugal, as feiras dos santos, depois com o frio há um intervalo até às proximas, de facto no norte da europa o frio não interrompe as feiras, antes lhes dá nova vida, feiras de rua com carnes assadas na brasa ali à vista,febras de porco, chouriços e salsichas, vinhos quentes com canela e açucar, hidromel, etc, se neva não importa, o copo de vinho quente aquece as mãos, nas feiras dos santos portuguesas lugar importante têm tambem os enchidos, o vinho novo que se prova, etc etc

Anónimo disse...

Retirado do blog "Portugal Profundo":

"
Hoje, é Dia de Todos-Os-Santos (festa católica em tempos respeitada pelo poder político em Portugal, e que se mantém feriado em Espanha, na França, na Itália, na Bélgica, etc. - no Brasil, o feriado é no 2 de novembro, dia de Finados), feriado antigo eliminado, em maio de 2012, pelo paganismo passoscoelhista (concluindo uma intenção do paganismo socratino) e brevemente substituído pelo norte-americano Haloween (Noite das Bruxas). Santos somos todos, afinal, os cidadãos vítimas da corrupção do Estado que deixou de ser laico para se tranformar em pagão antirreligioso."

Alexandre

Anónimo disse...

Feriado também na Alemanha, Suíça, Polónia...