terça-feira, 19 de março de 2013

Aposentação

Chegou há pouco a carta: desde 11 de março de 2013, estou aposentado da função pública. Encerra-se assim uma bela "aventura", iniciada no dia 18 de novembro de 1971, quando subi as escadas da Caixa Geral de Depósitos, no Calhariz, para tomar posse como funcionário do Estado, como já recordei aqui.

O meu pai costumava contar que, no Minho da sua juventude, no início do século XX, havia um emigrante português no Brasil que, de anos a anos, vinha de barco visitar a família que deixara para trás. Ficava por algum tempo e, nos últimos dias da estada em Portugal, inventava sempre pretextos para dar uma "coça" nos filhos. Aos mais íntimos explicava: fazia isso por bem, para evitar que sentissem saudades dele.

Por alguma razão, lembrei-me hoje desta história.

20 comentários:

Anónimo disse...

Bem vindo ao club!
Temos pretexto para comemorar!
C.C.

patricio branco disse...

uma nova fase da vida começa, portanto. é aproveitá-la bem, felicidades.

Anónimo disse...

Sr Embaixador: o mal, infelizmente, é que todos temos sido sovados. E deixou de haver esperança em Portugal. Resta - e com pesar escrevo - a quem ainda é novo, partir, e tantar encontrar e fazer vida onde haja respeito e bom senso. Cumprimentos, RLD

Anónimo disse...

Senhor Embaixador, este foi um dos seus mais brilhantes posts. Mostra bem que não tem saudades dado o estado em que está o Estado.

Anónimo disse...

Os meus parabéns meu caro. Que a reforma seja apenas na formalidade, e que materialmente permaneça activo na sua vida pessoal.

Infelizmente, os tempos que correm hoje não são de efusivas alegrias.

Fossem os tempos como no tempo em que começou a trabalhar em 1971 e, hoje, muitos jovens poderiam encontrar os empregos talhados às suas qualificações.

Não sendo esse o caso, quem não tenha apoios ou barões a apoiar-lhe, por muito qualificado que seje dificilmente arranja trabalho que se coadune com as suas valências.

Isto é dramático; quantos mais anos um jovem esteja a trabalhar, mais terá descontado para as suas futuras pensões de reforma. E maiores a suas possibilidades de escapar à precariedade com idade avançada.

Sucede que o jovem que não encontre emprego agora nem durante os próximos tempos, devido à infeliz conjuntura económica que vivemos, não terá possibilidade de começar a fazer os seus descontos para a reforma.

Mais tarde lá se irá "desenrascar" mas ainda assim, terá perdido anos na batalha da sua reforma que nada compense.

O desemprego geracional é o grande problema estrutural do país. Milhares de jovens sem saídas viáveis e, entre eles, centenas de jovens com excelência, qualificação e mérito (eu neste leque me incluo)que não terão oportunidade de contribuir como no seu caso teve.

Perante a gravidade da situação, não hesito em afirmar que o problema já é político.

E politicamente, de uma duas: ou as forças políticas instaladas se mostram capazes de responder aos anseios de jovens como eu, ou corremos um risco de uma revolução.

Uma revolução que não ponha em causa as liberdades de 74 e que leve à instauração de condições dignas na sociedade portuguesa para a criação de uma democracia efectiva, não somente a nível cívico e político mas também a nível social, económico. Em suma, garantir a dignidade de cada um com uma maior justiça social.

Porque se a reforma não for suficientemente séria e empenhada, corre-se o risco de uma revolução nos moldes que indiquei; mais uma para juntar às múltiplas que tivemos na história mas nem por isso menos necessária.

Tal vez este seja o caminho possível para, também quando for a nossa vez, termos a mesma felicidade com que teve hoje ao ser notificado da passagem à reforma.

Cumprimentos,
Mar Português

Anónimo disse...

E se olhar para traz é melhor fazer como o avestruz caro Embaixador. Porque eu, quando olho, sou invadido por uma energia desconhecida e fico muito abalado. Ao ponto mesmo de sentir medo de perder a revolta que sinto...
Pensava que a minha geração tinha sido capaz de deixar aos vindouros um legado de conquistas irreversíveis e afinal...
O que devo agora dizer aos meus filhos? Que devem continuar a fazer confiança no presente e no futuro? Que não tenho responsabilidades no desastre que vemos chegar tal um maremoto que tudo leva ? Que uns bons açoites nesta canalhada inesperiente pode resolver tudo ? Ou que temos de construir mais pelourinhos nas praças publicas...
José Barros

Anónimo disse...

Senhor Embaixador,

Dou-lhe os meus parabéns, mas lembro que acaba de ser infectado com nova doença,a "peste dos grisalhos"

Anónimo disse...

A aposentação é algo de maravilhoso para quem tem interesses estéticos, que sabe ler os acontecimentos e que com boa saúde financeira interage com o mundo.
Abençoada a franciscana libertação de certas tarefas.
Guilherme.

Anónimo disse...

Do "Estado" a que chegaram as coisas... é mesmo para não ficar com saudades.

Isabel BP

margarida disse...

Estupendo! LOL!
Se já não houvesse admitido, concedia agora: é raro um tão fino toque de ironia a par de uma aparente candura.
E, como então - bons tempos; eu cá acarinho as saudades, apesar das tareias - sublinho:
É um universo por fios, excelência.

Isabel Seixas disse...

Achei o post interessantissimo...

Principalmente a areta do 1º parágrafo com a careta do 2º...

Hum, há um saudosismo somente detetável por experts em psicanálise neste contexto por justa dificuldade em lidar com o corte do cordão
umbilical do amor profissional...
Nada de grave, "a meu ver" e na minha opinião que não é humilde, comum em profissionais empenhados dois dos seus slogans, tudo é mais simples do que parece e é a vida...

Defreitas disse...

Antes de passar à revolução,desejada pelo comentador Mar Português, creio que devemos refletir sobre o mundo que queremos para amanha, isto é para os nossos filhos, netos e... para nos mesmos se cremos à re incarnação.
Não estou certo que aqueles que responderão SIM serão mais numerosos que os que responderão o contrário !
Um mundo governado pelo dinheiro, no qual o lucro é um Deus universal, em favor do qual o ser humano é capaz de cometer não importa qual crime?
Um mundo no qual as guerras são inelutáveis?
Um mundo no qual as multinacionais e os bancos são os verdadeiros proprietários dos Estados, graças às dividas colossais impossíveis de reembolsar?
Um mundo obrigado a construir sempre mais prisões para poder viver em segurança?
Um mundo no qual os magnates detêm o poder dos media para poder filtrar as informações como lhes convêm?
Um mundo que gasta todos os anos centenas de milhares de milhões para conceber e fabricar armas de destruição maciça?
Um mundo que vê cada dia milhares de crianças morrer de sede ou de fome, enquanto uma parte mínima du monde explode de tanto inútil e supérfluo?
Um mundo no qual ume pequeno numero de multinacionais controlam as sementes e a alimentação ?
Um mundo no qual o homem, quer ele seja rico ou pobre, é o eterno escravo da sua condição : escravo da miséria para o primeiro e escravo da insaciável sede de consumo para o segundo?
Um mundo no qual a mulher ainda não conseguiu ser respeitada naturalmente?
Um mundo no qual o homem é escravizado, para o beneficio duma minoria de multi milionários ultra poderosos?
Um mundo no qual os recursos naturais são explorados em proveito sempre dos mesmos, enquanto que os habitantes dos países proprietários apodrecem numa miséria organizada?
Um mundo onde novos tiranos aparecem todos os dias?
Um mundo onde as religiões trazem mensagens dogmáticas e primarias, longe dos conhecimentos científicos adquiridos?
Um mundo no qual o termo democracia é utilizado para dissimular o fato que os governantes estão às ordens da finança internacional ?
Um mundo no qual o slip de Britney Spears vale algumas dezenas de milhares de dólares e outros que dão pontapés numa bola ganham centenas de milhares?
Enfim, um mundo como aquele previsto pela "Nova Ordem Mundial", composto de dóceis carneiros estritamente vigiados, que trabalham para a riqueza dos dirigentes máximos!
Claro que se alguém é diretor de banca, publicista, trader, ou super engenheiro do armamento, poderá responder SIM várias vezes. mas mais numerosos serão aqueles que quererão dizer NAO, mas esses não têm voz no capitulo.

Direi, como é possível, para os jovens, encontrar a estrada do futuro num mundo destes ?

J. de Freitas

gherkin disse...


Mas vai fazer a mesma coisa?
Saudoso abraço
Gilberto

Anónimo disse...

Caro DeFreitas,

Nada acrescentando ao meu comentário, caso a sua última pergunta não seja uma pergunta retórica, permita-me responder-lhe

Quando os jovens têm consciência plena de que não há futuro digno possível, eles não vão ficar à espera de soluções; eles próprios irão agir no presente.

Saudações
Mar P.

Anónimo disse...

E não quer aderir À APre!- Associação dos Aposentados, Pensionistas e Reformados?
http://apre-associacaocivica.blogspot.pt
Cordiais Saudações
Maria das Dores Ribeiro

Anónimo disse...

Senhor Embaixador: sem vaidade creio que compreendo bem o sentido ultimo do post de hoje, de resto brilhante; não sei se me vou repetir-se assim suceder peço desculpa- mas direi que nunca tive qualquer vinculo ao Estado.
Todavia, por razões profissionais mantive,durante algumas dezenas de anos, contactos quase permanentes com funcionários publicos.
E permita-me que lhe diga que me revolta assistir aos discursos de alguns de algumas criaturas ocas que repetem até a exaustão expressões que tentam lançar um autentico estigma sobre quem desempenha funções publicas.
Soubessem eles alguma coisa,tivessem alguma humildade, e teriam vergonha do que dizem.
Quanto a si Senhor Embaixador embora oficialmente aposentado estou seguro que não abandonara uma activa cidadania.
E disso bem necessita esta sociedade de "inovadores" "empreendedores" de "fazedores" e similares.

São disse...

Aposentado? Bem vindo ao clã, rrss

Bom repouso

Defreitas disse...

Ao Mar Português : Obrigado pelo seu comentário. Eu sei bem que a juventude atual não é aquela que muita gente crê. Contrariamente à imagem freqüentemente veiculada, os jovens de hoje não são nem revoltados nem sonhadores. Eles valorizam a família e o próprio desenvolvimento pessoal, sem ignorar as realidades do mundo que os envolve. Eles são enérgicos, sociáveis e curiosos.
Mas tudo não é cor de rosa. Desemprego, violência, crise.. A nova geração deve fazer frente a uma crise sem fim, regressão, precariedade, o desprezo, as dificuldades sem conta.
Eles têm bem consciência que se devem adaptar para encontrar o lugar deles nesta sociedade hostil. Esta juventude sonha portanto dum futuro simples, quase razoável : " um trabalho interessante, uma família feliz e uma boa saúde". Um ideal feito de referências estáveis e seguras. Os jovens estão prontos a mudar as coisas , mas aspiram a uma melhor compreensão do mundo que os envolve, em particular do mundo profissional. Eles pedem escuta, consideração, reconhecimento e querem ser tomados a sério como cidadãos. Mas a sociedade atual só tem objetivos econômicos. A nova geração bloqueada, desenvolve neste contexto uma extraordinária habilidade, uma capacidade de resistência e de adaptação que poderia fazer a força coletiva do pais se os políticos soubessem pôr em pratica políticas valorizantes e os agentes da economia não tivessem os olhos voltados para outras sociedades mais rentáveis porque mais dóceis?
Mas como fazer saltar a rolha , que oprime e limita esta juventude, recusando-lhe o seu presente para um futuro que não virá nunca ?

Anónimo disse...

caro MarP

nao leve a mal, poupe ai nos "eles"...

bem haja

bh

Emerson Novais Lopes disse...

Caríssimo Embaixador,

Desejo-lhe muitas alegrias, vigor e satisfações também nessa nova fase que se descortina. E, rogo, continue e nos brindar com esses textos plenos de experiências e sabedoria.