sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Negociar na Europa

Tal como muitos previam, não foi possível concluir, nas últimas horas, a fixação do orçamento plurianual da União Europeia, entre 2014 e 2020, aquilo a que, na linguagem comunitária, se chamam as "perspetivas financeiras". Atentas as posições restritivas por parte de alguns países, um compromisso final, consensualizado a 27, vai ser muito difícil de obter.

Sei bem o que significa essa complexa negociação, que tem lugar todos os sete anos (nunca inquiri por que terá sido criada esta regularidade), porque passei muitas e más (mas, no fim, boas) horas embrenhado num desses exercícios, que terminou em Berlim, em infindas noites de março de 1999. Um dia contarei alguns episódios pitorescos dessa "guerra" que nos levou até à "batalha" de Berlim, onde se concluíram muitos e muitos meses de séria barganha financeira.

Há dias, em conversa com o meu colega embaixador sueco aqui em Paris, Gunnar Lund, que, ao tempo, era, como eu, secretário de Estado dos assuntos europeus do seu país, recordámos esses tempos. Ele contou-me uma curiosa história. Semanas após a conclusão da negociação, o secretário de Estado alemão, Gunther Verheugen, foi a Estocolmo. Gunnar deu-lhe então os parabéns pelo sucesso obtido pelo seu país no fecho desse difícil dossiê, no âmbito da sua presidência europeia. Verheugen ter-lhe-á respondido: "Correu bem, de facto, só que, ao fim da última noite, demos conta que os portugueses acabaram por receber bastante mais do que aquilo que estava previsto. Souberam jogar muito bem...". 

Ainda um dia hei-de tirar isto "a limpo" com Gunther Verheugen. É que talvez tenha sido por isso que, três dias depois da finalização desse mesmo acordo, estava eu a acompanhar António Guterres numa visita à Bulgária, o nosso embaixador junto da União Europeia, Vasco Valente, me telefonou, preocupado, a dar conta do facto dos alemães terem retificado, em nosso desfavor, já depois das contas principais fechadas, uma certa verba que, em princípio, nos cabia (para quem conhece o assunto, era a chave de repartição dos "reliquats" não utilizados do fundo de coesão, relativos aos países que a ele já não tinham direito). O pouco que perdemos por essa via não chegou para evitar que o saldo final dessa negociação - a chamada "Agenda 2000" - tivesse tido um resultado altamente favorável para Portugal.

Deixo a imagem dos "carros de combate" contra a Política Agrícola Comum (PAC), que, por esses dias, desfilavam, em vistoso protesto, pelas avenidas de Berlim.

6 comentários:

Helena Sacadura Cabral disse...

Bons tempos, Senhor Embaixador!

Francisco Seixas da Costa disse...

A "velha senhora" excedeu-se uma vez mais e, claro, o lápis azul teve de sair. Já estava à espera não?

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Dra. Helena Sacadura Cabral: eu diria "outros tempos", de uma outra Europa, mais solidária e sob menor pressão conjuntural. Mas concordo, eram bem melhores esses tempos.

Isabel Seixas disse...

Novos desafios...
Convenhamos que um consenso a 27, é obra...

Anónimo disse...

A velha senhora 'excedeu-se'(!), mas não foi aqui, foi no post 'Bons tempos!' sobre a Expo'98. Sim, eu já estava ± à espera e até apostei um Alvarinho Regengo de Melgaço 2011 (passe a publicidade), mas a senhora, já um pouco tocada, insistiu - e perdeu.
Telefona-me agora a senhora a autorizar, relutante, que a sua quadra perca a rima perfeita e que, devidamente(?) eufemisada, a reenvie. Se agora passar, como espera(mos), poderá a cara Isabel Seixas - e outr@s eventuais interessad@s - ir consultar o supracitado post.

Anónimo disse...

Mais importante que o montante, no que ao nosso cantinho toca, será o seu cuidado dispêndio, pois que menos dinheiro, se bem aplicado, pode ainda facilitar maior desenvolvimento.
Francisco Rangel