quinta-feira, 13 de setembro de 2012

"E agora cheira a setembro"

O João Paulo Guerra lembrou, há pouco, no seu blogue, o clássico "agora cheira a setembro", de José Carlos Ary dos Santos. É verdade, sinto-o bem aqui, nesta noite em Vichy, na França profunda, no meu derradeiro dia de férias.

A chuva ronda, já se hesita em ficar nas esplanadas, agradece-se, pelo entrar da noite, "une petite laine". A bem dizer, confessemos ou não, já chegava de verão, de calor, de sol, de suor, de ar condicionado. Setembro rima bem com o estimulante (e saudável?) regresso ao trabalho, com "paletes" de coisas atrasadas para fazer, com as chamadas telefónicas em dívida, com a necessidade de resposta aos e-mails que foram "caindo" pelas páginas abaixo, com os convites para almoço aos amigos com quem estamos em falta, com muitos jantares "sociais" para retribuir. E com alguns textos para rever, com algumas palestras para preparar. E com algumas atitudes a tomar...

Este é o tempo do conhecido "agora é que é", das clássicas manias de uma qualquer "rentrée", da feitura de intermináveis listas (mais ou menos "moleskinizadas") que padecem sempre de erros de prioridade que as acabam por tornar inúteis, da promessa de não falhar as exposições que por aí vêm (quando, ao final daquela tarde, só vamos pedir sopas e descanso), da vontade de não perder alguns concertos e peças (que nos esqueceremos de reservar), de acabar dezenas de livros que jazem (e jazerão, para a eternidade) na estante, sem deixar de estar atento aos muitos que vão saindo, sempre cada vez mais caros (ou seremos nós que, afinal, ganhamos pouco e cada vez menos?).

No meu caso, este é um mês de setembro muito especial, talvez porque a vida que agora vivo se assemelha também, ela própria, um pouco a um setembro. É um tempo para fechar dossiês, para tentar arrumar assuntos em escassos meses, para fazer os "check-up" antes que nos "gaspem" a ADSE de cena, de planear uma nova vida, a aguentar com as reformas dos tempos da "troika" a que temos dever (já não temos direito..), de fazer (muito bem) as contas para (tentar) sustentar o futuro. E também para preparar, com real vontade e (talvez pateta) otimismo, um 2013 já sem horários e compromissos rígidos, com concertos na Gulbenkian, com idas ao CCB e aos teatros, com passeios e comezainas pelo país, com o jardim para tratar, talvez mesmo com alguma escrita para encadernar. E, principalmente, com amigos para rever, conversar e a quem dizer alto o que penso.  

Relembro sempre o mês de setembro, em toda a minha vida, como um mês peculiar. Eram finais de tarde chuvosos, na adolescência, em Vila Real, quando apressávamos a saída dos bilhares do Excelsior, depois das "explicações". Poucos anos mais tarde, eram as luzes de Cedofeita a acenderem-se, ao sair de um "martini" no Bissau, comigo ainda convencido de que tinha jeito para vir a ser engenheiro eletrotécnico. Eram também as sete e meia da tarde por um Montecarlo quase deserto, no anoitecer lisboeta, à procura do 21 para os Olivais, com o "Lisboa" debaixo do braço. E lembro muito bem os setembros gelados e escuros, mas muito estimulantes, de Oslo ou de Viena, os setembros que o não eram, em Luanda ou em Brasília, ou a insuperável beleza londrina dos fins de tarde, já bem iluminados, em Knightsbridge, as cores e os sons inconfundíveis da 2nd avenue, no regresso a casa, em Nova Iorque.

Os setembros, na minha memória, assemelham-se muito à recorrente ilusão dos janeiros, quando, passadas as festas, sempre arregaçamos psicologicamente as mangas, apenas por alguns dias, na miragem fátua de que basta querermos para podermos recomeçar tudo de novo, porque "hoje é o primeiro dia do resto da tua vida", como cantava o Godinho. Podia ser assim, para toda a gente, se acaso nós não fôssemos exatamente os mesmos que éramos na véspera, quaisquer que sejam as datas colocadas à nossa frente. As quais, aliás, se vão reduzindo, dia após dia. O que, não sendo uma tragédia, é, valha a verdade, uma boa chatice. 

8 comentários:

Helena Sacadura Cabral disse...

Delicioso texto este seu Senhor Embaixador.
Adoro o Outono e estou faaarta de calor!

patricio branco disse...

entrada sobre sobre a transição dum ciclo para outro, para o equinócio do outono, mas tambem sobre outros aspectos, na verdade texto que muitos de nós por sentir mais ou menos da mesma maneira poderiamos subscrever. mas este outono em portugal vai ser diferente dos anteriores, triste, melancólico, preocupante, infeliz para muita gente. como pelo menos do ponto de vista pessoal, individual ou familiar o poderemos melhorar?
caro fsc, é de facto de aproveitar para arrumar coisas, alem de que o outono tem pelas latitudes mais ao norte um encanto visual, sensorial que não existe mais ao sul onde nem há propriamente outono a nao ser no calendario. é olhar com atenção a mudança de cor das folhas das arvores a partir de agora e registar; e tambem não está mal fazer os check-up, os perfis de saude como aqui se diz. sim é fazer render este outono e tirar dele tudo o que possa.

Anónimo disse...

Que crónica! Lembrei-me particularmente de Knightsbridge e da voz dos cobradores do autocarro quando em voz alta diziam para os passageiros: "Knightsbridge"!!! Também me trouxe à memória o Eurico de Figueiredo com as suas debilidades físicas que se agravavam no Outono. Obrigada por esta lembrança do começo do anoitecer naquela zona de Londres.

margarida disse...

É um poeta. Como bom luso.

Carlos Fonseca disse...

Não posso ouvir falar de calor. Estou em Altura (Castro Marim), onde resido uma boa parte do ano, e a esta hora, na rua, o termómetro marca 28º; dentro de casa funciona o nada ecológico ar condicionado.

Que venha o Outono e (se fosse possível), que salte para a Primavera. Detesto o Inverno.

Helena Oneto disse...

Mon cher Ambassadeur,
Ce magnifique billet fait une parfaite introduction à un "roman- fleuve" que beaucoup d'entre nous aimerions pouvoir lire dans un futur très proche. Surtout, faites le avant que le retour au pays ne gâche, en rien, l'élan que vous anime.
Bien à vous!

zamotanaiv disse...

Depois do que escreveu, a última palavra, chatice, passou-me completamente despercebida. Tive que voltar a traz para me certificar que lá estava. Continuou a não estar.

Isabel Seixas disse...

E cheira tão bem como o aroma doce das rememorações...
Que tão bem descreve, claro.