A pandemia tem efeitos económicos assimétricos. Ao facilitarem as “ajudas de Estado” em todos os países da UE, as instituições europeias estão a agravar as desigualdades, porque favorecem as economias com maior “poder de fogo” financeiro para ajuda ao seu setor privado
sábado, maio 02, 2020
Aceito apostas!
Aqui, nas redes sociais, em três semanas.
Se os efeitos da pandemia abrandarem, “o governo foi alarmista, o vírus matou tanto como as gripes e se “matou” bastante foi a economia”.
Se os efeitos da pandemia abrandarem, “o governo foi alarmista, o vírus matou tanto como as gripes e se “matou” bastante foi a economia”.
Se houver um novo surto, “o governo foi irresponsável, não soube gerir o desconfinamento, foi de um desleixo criminoso”.
Desoras
Há dias, um amigo, que me vê escrevinhar por aqui a desoras, comentou: “Agora é que eu percebi o conceito de “filhos da madrugada”, na canção do Zeca!”
Os livros da vida (6)
Eu tinha nove anos de idade quando Roland Barthes escreveu as “Mythologies”. Creio que devia ter mais de 20 anos quando, pela primeira vez, li o livro, precisamente na edição que a imagem mostra. Já não sei como cheguei a Barthes, mas isso deve ter acontecido por “infeção” de grupo, algures entre a Granfina e o Montecarlo, na transição dos anos 60 para 70. “Estudei-o” depois num curso de Semiologia, no Centro Nacional de Cultura, creio em 1972, ministrado por Prado Coelho, a que eu assistia depois do meu dia de trabalho como funcionário bancário. Li muitas outras coisas de Barthes, mas guardei para sempre a impressão que me deixou este “ Mythologies”, que me ajudou a perceber como alguns objetos afirmam a sua identidade e ganham uma autonomia própria no espaço social e público. Barthes foi um génio e tem uma obra fascinante, marcada pelo seu raro poder de interpretação sobre a verdadeira complexidade de coisas que só aparentemente são simples. Há uns anos, para lhe agradecer o que me tinha ajudado a “ver”, fui ao seu túmulo, no cemitério de Urt, no sudoeste de França.
sexta-feira, maio 01, 2020
Patético
Tenho o maior respeito pelo Primeiro de Maio e bastante pela CGTP, mesmo agora que foi tomada por um curioso “management buyout”.
Pensionistas
As pensões com “águas correntes, quentes e frias” que havia na Almirante Reis passaram a “hostels”? Não sabia...
Variações sobre uma cantiga de amigo
Sabedes que sen amigo
nunca foi mulher viçosa
Cantiga de amigo
Quando a peste nos assola
vingativa e perigosa,
e a amiga se isola,
vai-se o viço e a cor de rosa:
porque, ausente o seu amigo,
a bela mulher viçosa,
sozinha no seu abrigo,
sente a alma vagarosa!
Sabei pois que sem amigo
nunca foi mulher viçosa
e que sem um beijo amigo,
todo o verso se faz prosa!
Se é verdade rigorosa
que o viço requer calor,
dai pois à mulher viçosa
um amigo, por favor!
Eugénio Lisboa,
que vai aproveitando a peste para ir remergulhando nos clássicos, os quais sempre nos deram boas dicas, nos dias de grande aflição.
Alô, alô!
Trump telefonou a Marcelo elogiando a postura portuguesa face ao vírus.
O que será que fizemos de errado?
Os livros da vida (5)
Muita gente que conheci “chegou” a marxista passando, quase obrigatoriamente, pelo Zamora ou, em versão um pouco mais sofisticada, pela Marta Harnecker. Outro estádio essencial do acesso à bela teoria absoluta do óbvio sócio-económico era ler os “Princípios Fundamentais de Filosofia”, de Politzer. Os de lágrima fácil estagiavam antes na “Mãe”, do Gorki, ou, para quem fosse dado ao produto local, na “Engrenagem”, de Soeiro Pereira Gomes, mais primário do que os “Esteiros”. Com estas referências, lidos depois o “Manifesto” e uns extratos simplificadores de Marx (“Salário, Preço e Lucro”, “Trabalho assalariado e Capital” e as “Teses sobre Feuerbach”), estava criado o substrato que permitia debitar, com garbo, um mínimo da vulgata marxista. Depois vinha o “resto”: Lenine, Stalin, Trotsky e, para quem fosse dado a coisas mais étnicas, o velho Mao. E tantos e tantos outros, que hoje jazem no meu espólio na Biblioteca Municipal de Vila Real. Se não tivesse passado pelo marxismo, a minha perspetiva da vida tinha sido outra, eu teria sido outro e, “for the record”, gosto de ser como sou. Devo a Juan Clemente Zamora, no seu simplismo às vezes muito maniqueísta, o ter-me ajudado a perceber o mundo. Depois, como dizia Marx, era importante passar à frente e conseguir transformar esse mesmo mundo. Aqui chegados, cada um fez o que pôde ou o que quis.
quinta-feira, abril 30, 2020
A notar
Sem o menor alarmismo, há uma conclusão muito simples que retiro da leitura das medidas de desconfinamento anunciadas: os riscos para as pessoas mais frágeis (em especial mais velhos) vão aumentar exponencialmente nos meses que aí vêm, em caso de optarem por fazer socialização pública.
Pronto, vou ser otimista...
Vou fazer um esforço, que vai ter de ser bastante grande, para ter uma dose de otimismo perante o impacto das medidas de desconfinamento anunciadas para maio.
O adeus do Piantella
Leio agora que fechou, de vez, o Piantella. Para quem não saiba, foi, durante décadas, o restaurante preferido da classe política de Brasília. Tinha um primeiro andar, com uma bela garrafeira, onde se realizaram reuniões históricas que, para o bem ou para o mal, iam decidindo o futuro político do país. Recordo-me da cadeira de Ulisses Guimarães, que era uma espécie de relíquia do local. No andar de entrada, onde, ao sábado, havia um buffet com uma bela feijoada, cruzavam-se, durante a semana, expatriados dos seus feudos, deputados e senadores, que se juntavam aos jornalistas e lobistas, com os ministros a fazerem aparições solenes, acompanhados dos seus séquitos. Nunca fui um “habitué” do local, quando vivi em Brasília, mas estive por lá as vezes suficientes para ter podido apreciar, com detalhe, aquela sociologia gastronómica, que encenava a coreografia do poder da capital federal. Comia-se bem? Era assim-assim, embora caro. Brasília tinha bem melhores lugares para refeiçoar, mas beber um copo, ao fim da tarde ou mesmo à noite, no Piantella tinha a sua graça. Neste dia de finados para o mais emblemático restaurante político do Brasil, deixo um pensamento para o meu amigo Toninho Drummond, por décadas representante da rede Globo em Brasília, frequentador assíduo do Piantella, autor das mais interessantes memórias políticas que nunca foram escritas.
Os ventos
Lembram-se da polémica sobre os ventiladores, que, durante semanas, entreteve as aves agoirentas do costume.
A pergunta que não vejo agora ninguém fazer é esta: faltou algum ventilador a algum doente?
Vizinhança
Duas razões para eu arriscar quebrar as leis do confinamento seriam ter o José Malhoa ou o Toy a cantar no meu bairro, como parece estar a acontecer em bairros atingidos pelo vírus pimba.
Estou convencido que, se fosse feita uma sondagem, aqui pela zona onde vivo só se ouvia o António Mourão a cantar o “Ó Tempo Volta p’ra Trás”.
Os livros da vida (4)
Em Vila Real, a poesia que tínhamos lá por casa mimetizava a que as “seletas literárias” nos obrigavam a “estudar”. Era escassa e muito clássica, em estantes dominadas pelos romances e contos, por muita História e por dicionários e enciclopédias. O meu pai, que tinha pretensões de “diseur”, gostava muito de Junqueiro, mas também de Régio e de Lopes Vieira, entretinha-se a recitar Homem de Melo, tudo num ecletismo algo bizarro. Acho que nele predominava o impacto da sonoridade dos poemas, porque “O Mostrengo” também era recorrente. No que me toca, até aos 17 ou 18 anos, confesso que fui bastante “surdo” para a poesia. Chegado à universidade, deixei-me tentar pelo neo-realismo, pelas rimas “úteis” à luta política, com algum Alegre já à mistura, muito influenciado por António Cabral. Um dia de 1968, no Café Diu, no Porto, um amigo “apresentou-me” Alexandre O’Neill. Era a reedição do “No Reino da Dinamarca”, com mais poemas do que a edição original. Fiquei deslumbrado. Foi só a partir dali que percebi que a poesia podia ser outra coisa. Tinha pouco dinheiro, comprei com esforço o livro na Unicep (a cooperativa livreira dos estudantes), li-o sem o “usar” muito e, com uma dedicatória foleira, ofereci-o, semanas depois, no dia do seu aniversário, à minha namorada de então. Como ela continua a ser a mesma hoje, consegui recuperar o livro, que ainda ali anda na estante. E a que, muitas vezes, quando me apetece sentir bem, volto.
quarta-feira, abril 29, 2020
Brasil
Esta foi a única imagem que me chegou, depois de ter sido conhecida a decisão de um juíz do Supremo Tribunal Federal do Brasil de obrigar Jair Bolsonaro a recuar na sua decisão de nomear um amigalhaço dos filhos para chefe da Polícia Federal, mantendo-o, no entanto, à frente da Abin, os serviços secretos do país. O nome do rejeitado é Ramagem.
Procurar o cretino
Estranho muito que, neste tempo em que os velhos estão “na berra”, nenhum órgão de “comunicação social” se não tenha lembrado de colher a opinião do crânio inventor do conceito de “peste grisalha”. Todos sabemos por onde ele anda...
Um banho de realidade
Num comentário no Facebook, contei hoje que, a um crédulo colega de universidade, conseguimos um dia convencer que o pequeno anúncio luminoso “Exit”, que se via nas portas de emergência dos teatros, assinalava as saídas destinadas aos atores que, no final da ”performance”, tivessem um “êxito” bem reconhecido pelo aplauso do público. O rapaz era um tanto saloio e, na hora, engoliu a patranha.
Isso passava-se no Lar Gomes Teixeira, na rua da Torrinha, no Porto, na segunda metade dos anos 60 (vale a pena dizer que era no século passado?). Aquele colega, por artes ou por antiguidade, tinha conseguido um dos poucos quartos individuais do lar, com janela para a rua, à esquerda de quem entrava.
O António Novo, que por aqui me lê e que, tal como eu, era utente dessa casa, com algum esforço de memória lembrar-se-á da personagem, que vivia sozinho e não se relacionava com ninguém.
O António Novo, que por aqui me lê e que, tal como eu, era utente dessa casa, com algum esforço de memória lembrar-se-á da personagem, que vivia sozinho e não se relacionava com ninguém.
A higiene, ao que se constatava, não era o “forte” daquele colega. Do seu quarto exalava, quando a porta se entreabria, um odor pestilento, sinal de sujeira acumulada. A Lucinda, a empregada da limpeza, terá mesmo confessado que se recusava a lá ir, destacando, para essa ingrata função, o Moisolindo, o porteiro.
Numa noite de conversa, sem esse colega presente, veio à baila o odorífico tema, tendo alguém feito notar que ele nunca tinha sido visto na zona dos banhos, que se passavam numa zona do primeiro andar. Outros adiantaram: “Ele cheira sempre mal!” Daí à constatação de que “ele nunca se lava!” foi um passo breve. E um plano de ação foi montado: ele iria ser forçado a um banho!
Já não me recordo como é que o bisonho personagem foi atraído, no dia seguinte, ao primeiro andar, mas tenho bem presente o instante em que quatro ou cinco colegas sobre ele caíram e o arrastaram para o chuveiro.
O rapaz berrava, urrava impropérios, o banho nem sequer foi completo, porque foi impossível arrancar-lhe todas roupas. A cena, de que fui mero assistente à distância, dado o meu estatuto de caloiro, tinha o seu quê de crueldade, de violência, com alguns de nós a termos pena da vítima, cuja rutura pessoal com a generalidade dos colegas se consumou naqueles breves instantes.
Foram, de facto, breves mas foram imensos os minutos de humilhação que o rapaz sofreu. No termo do exercício, mais do que furibundo, silencioso de raiva, lembro-me de o ver agarrar nas roupas e descer as escadas, a refugiar-se no seu tugúrio, quiçá para recuperar os odores perdidos na ablução que lhe fora imposta. O ano letivo estava a terminar. O lar iria depois ser encerrado, por um cúmulo de variadas razões, por algum tempo. Nunca mais voltei esse colega.
Não vale a pena estar agora a perder agora tempo com juízos moralistas sobre o episódio, terreno em que os frequentadores das redes sociais são reconhecidos peritos. É óbvio que foi uma cretinice, mas os factos foram o que foram, nesse ano de 1967.
O valor das palavras
Toda a vida pensei que “calamidade” era uma situação pior do que “emergência”. Afinal, não é. Vamos sair da “emergência“ e passamos, com mais alegria, à “calamidade”.
Pergunto-me agora: no dia em que o estado de “calamidade” acabar, poderemos, enfim, vir a dar-nos por felizes quando entrarmos na “tragédia”?
A língua portuguesa é muito matreira.
Subscrever:
Comentários (Atom)
IA, meu!
Há dias, deparei com um artigo no “Observador” com a menção de que tinha sido produzido pela IA e revisto por um jornalista. Como trazia uma...










