Tenho todo o respeito por esta senhora - ainda há dias falei de Andrew Duff, um deputado britânico gago e imensamente competente - mas temos que ser realistas: um partido que só tem esta voz no parlamento vai ter imensas dificuldades para ser eficaz no debate político.
quarta-feira, outubro 09, 2019
O papel selado
Naquele declinar da tarde, vi Délio Machado assomar a uma das portas da Gomes, a pastelaria de Vila Real onde, a todas as horas desses dias, abancávamos em morna conspiração política.
Estávamos em outubro de 1969, há precisamente 50 anos. Desde agosto, organizávamos no distrito a candidatura oposicionista às eleições para a Assembleia Nacional.
Délio Machado era uma figura importante da luta oposicionista local, uma espécie de lugar-tenente de Otílio de Figueiredo, o médico que era a grande referência democrática na cidade. Aproximou-se da mesa e disse-me: “O dr. Otílio quer fazer uma reunião urgente connosco”.
O trajeto era curto. O escritório da Comissão Democrática Eleitoral (CDE) de Vila Real ficava num terceiro andar (na imagem), que nos fora cedido gratuitamente, no mesmo prédio da pastelaria.
À subida da escada (o elevador nunca funcionou), a cada patamar, lá os víamos em frente, encostados “casualmente” à parede da Brasileira - os pides ou os bufos que informavam os pides de quem entrava no antro oposicionista. Nós sabíamos quem eles eram, eles sabiam que nós sabíamos quem eles eram e tudo assim funcionava naquela pequena e abafada cidade de província.
Entrámos na sala, onde Otílio de Figueiredo nos aguardava. Ficámos aí umas seis pessoas, basicamente o “núcleo duro” da CDE. Havia mais uma presença, um velho oposicionista de uma vila próxima, que tratava por tu Otílio de Figueiredo, gente de toda a confiança, daqueles que já tinham “feito o Delgado”, um ou outro mesmo “o Norton”. Pessoas que, sem falta, reapareciam quando era necessário reapelar às hostes contra o regime.
Otílio de Figueiredo deu-nos conta de que Sottomayor Cardia, da estrutura da CDE de Lisboa, nos perguntava se podíamos dar o nosso apoio a uma determinada posição comum, que se pretendia tão alargada nacionalmente quanto possível. A delicadeza do tema não tornava a decisão fácil.
A discussão começou. A certo passo, o velho democrata, um tanto inopinadamente, dado que não tinha funções na organização, decidiu intervir. Fê-lo um pouco fora do tom geral da conversa e, essencialmente, sem o menor sentido construtivo para a decisão que tinhamos de tomar, com relativa urgência. Espraiou-se em considerações, e nunca mais se calava. Nós olhávamos para os relógios, com o fim da tarde e a hora limite para a resposta a aproximarem-se.
Vi Otílio de Figueiredo começar a perder a paciência, a ficar nervoso, em silêncio. Sabedores da relação entre os dois, nenhum de nós ousava interromper a litania do velho democrata.
Num certo momento, Otílio olhou fixamente para ele, com ar sério, e perguntou-lhe: “Olha lá! Tu sabes a que horas fecha o Bragança?”. O Bragança era uma tabacaria que se via ao longe, a umas dezenas de metros. O outro, surpreendido, respondeu, sem certeza: “Lá para as sete e meia, creio eu”.
“Ainda temos algum tempo! Tu fazias-nos era um grande favor se, enquanto nós resolvemos aqui este assunto, fosses ali ao Bragança comprar já meia folha de papel selado para um requerimento urgente, de que já me tinha esquecido!”. O homem, sentindo-se útil, respondeu “Vou já!”, levantou-se e, prestimoso, saiu pela porta fora. Deve ter deduzido que íamos requerer algo importante ao Governador Civil.
Fechada a porta, saído o homem do “reviralho”, Délio Machado, interpretando a nossa curiosidade coletiva, inquiriu de Otílio de Figueiredo: “O requerimento é sobre quê?” O bigode do dr. Otílio sorriu, ao responder: “Sobre nada! Não há requerimento nenhum. Mas assim ganhamos algum tempo para tomar uma decisão, sem a presença daquele chato!”.
Terá sido nesse momento que eu percebi, realmente, que o velho “reviralhismo” deixara de ter a menor importância na luta da oposição à ditadura.
Lateralização ideológica
Um dos truques para tentar normalizar politicamente o Chega é equiparar simetricamente a extrema-direita a todo o espetro político à esquerda do PS.
Só gente mal informada, que não regula bem ou que está de má fé pode comparar André Ventura a Rui Tavares ou Catarina Martins.
O deputado das caixas da comentários
Somos um país ingénuo. Recordo-me de que, durante anos, nos fomos auto-sossegando pelo facto de não existirem vozes parlamentares que ecoassem os ódios da extrema-direita. Uns, mais líricos, diziam que éramos diferentes, que o racismo e a xenofobia não existiam por cá. Outros achavam que o trauma, relativamente recente, de uma ditadura imunizara o país contra apelos autoritários ou populistas.
E, agora, ele aí está: um deputado, um eleito do povo, com um discurso onde muitos leem o apelo à discriminação, um tom racista, xenófobo e autoritário, que cavalga, de forma demagógica e populista, medos e sentimentos mesquinhos, os mesmos que atravessam a lixeira moral das caixas de comentários dos jornais e dos “sites”, onde se alimenta a linguagem acre sobre “eles” – sobre os “pretos”, a “ciganada”, os “mouros”, os “monhés”, os estrangeiros, os imigrantes, os refugiados, enfim, sobre o diferente. Agora, já não são apenas “skinheads” e patrioteiros caricatos, abusando a bandeira verde-rubra. Será alguém engravatado, do alto da sua imunidade parlamentar, com direito regular a tribunas mediáticas, a espaços para fomentar proselitismo, junto desse Portugal de frustrados e de raivosos, do “isto é tudo um bando de gatunos e corruptos”.
Esse deputado demorou a chegar, mas chegou. A extrema-direita aí está, pronta a concitar politicamente receios, a explorar a criminalidade num dos países mais seguros do mundo, a rejeitar a abertura humanista aos refugiados, a pôr em causa a imensa riqueza que é vivermos hoje num país da diversidade, nesta bela praça de diferenças, feita de gentes vindas de um mundo por onde um dia outro Portugal andou.
Não me apetecia lembrar isto, mas não me posso furtar a fazê-lo: lamento que tenha sido Pedro Passos Coelho, alguém de quem discordo profundamente mas por quem tenho consideração pessoal, que tenha cometido o gravíssimo erro político de proporcionar, através do PSD, um palco a uma figura deste jaez.
Estarei a exagerar? Não será isto um mero epifenómeno, controlável e contível nas suas proporções? A história recente da Europa mostra-nos que esta é uma nódoa que alastra com grande facilidade, porque se apoia em sentimentos primários, em caricaturas fáceis, em reações epidérmicas. Quando vozes que ganham um estatuto institucional surgem a dizer alto aquilo que muitos, envergonhadamente, pensam ou murmuram, o mal está feito. É a democracia, dirão alguns. Prouvera que a democracia tivesse boas armas para combater a mentira. O facto é que, muitas vezes, não tem.
terça-feira, outubro 08, 2019
Verdes anos
A deputada "verde" Heloísa Apolónia foi, nos últimos anos, uma cara muito em evidência nas televisões, por virtude do seu trabalho parlamentar. Sai agora, por não ter sido eleita.
Ao tempo em que estive no governo, os “Verdes”, que já então aí ocupavam dois lugares, tinham como sua figura mais proeminente a minha amiga Isabel Castro, a par com Heloísa Apolónia. Isabel Castro já saiu há muito tempo da Assembleia da República.
Um dia, em 1998, a Isabel e eu fizemos parte da comitiva do presidente Jorge Sampaio, durante uma visita de Estado à Polónia. Estávamos a almoçar numa cervejaria em Gdansk quando, para surpresa de toda a delegação, que incluía representantes de todos os partidos, eu atirei, de chofre, a meio de uma conversa: "Pensando bem, acho estranho que a Isabel faça parte desta delegação".
Ficou toda a gente a olhar para mim, a começar por Jorge Sampaio, seguramente surpreendido pela dureza a minha frase, mas que, estranhamente, foi dita com um largo sorriso.
Isabel Castro era uma deputada respeitada, mantinha com todos nós uma grande cordialidade e companheirismo, pelo ninguém estaria à espera, da minha parte, de uma atitude tão pouco cavalheiresca. A começar pela própria Isabel, com quem eu tinha uma excelente relação pessoal, que ficou estupefacta.
Antes que alguém reagisse, esclareci logo: "Então não seria muito mais natural ter vindo a Heloísa 'à Polónia’ ?!'"
Acabou tudo a rir, o que era o meu objetivo, naquele grupo bem simpático de gente.
Manuela Silva
“Creio que ainda não nos conhecemos pessoalmente. Acompanho-o, à distância, há muitos anos. Gostava de lhe dizer que o oiço e leio sempre com muita atenção e agrado, mesmo quando às vezes posso não concordar consigo”. Guardo no meu álbum afetivo de memórias esta frase que, um dia, já há muitos anos, ouvi de Manuela Silva, ao vir ter comigo, com um sorriso simpático, no início de um colóquio na Gulbenkian, organizado pela “Comissão Nacional Justiça e Paz”, para o qual eu fora convidado por José Manuel Pureza.
Não sei o que lhe respondi, para além do óbvio agradecimento. Mas, apanhado pelo inesperado do gesto, muito provavelmente não soube então expressar-lhe a grande admiração que, desde sempre, mantinha por aquela senhora, que, partindo de uma postura religiosa que sempre a motivava a intervir civicamente por causas nobres, como a luta contra a pobreza e a busca da paz, me habituara a respeitar como uma figura com uma imensa dignidade na sociedade portuguesa.
Manuela Silva, que depois vim a cruzar em diversas outras iniciativas, e com quem cheguei a subscrever posições públicas conjuntas sobre alguns temas, morreu agora, aos 87 anos. Professora catedrática do ISEG, fez parte do primeiro governo constitucional e manteve-se sempre como uma relevante voz nos meios católicos portugueses.
segunda-feira, outubro 07, 2019
Quem me dera!
Quem me dera poder ir ao Grémio Literário, ali na rua Ivens, ao Chiado, pelas 18.30 da próxima quarta-feira, dia 9 de outubro, ouvir Nuno Júdice e Fernando Rosas falarem sobre “O Modernismo e a Primeira República”, em mais um encontro da série de debates que Luís Castro Mendes ali está a realizar. Mas infelizmente não posso!
A entrada, dizem-me, é livre, mas a escassez de lugares recomenda reserva (o telefone do Grémio, já agora, é 213 475 666). Depois do colóquio há um jantar (pago, claro), mas sobre as inscrições para o dito nada sei. Só sei que, graças à intervenção da “expertise” de José Bento dos Santos, a pedido do presidente António Pinto Marques, se está a comer cada vez melhor no Grémio.
America! America!
Digam lá se não é mesmo um imenso privilégio histórico viver num tempo em que um presidente dos Estados Unidos da América publica um “tweet” com este teor:
”As I have stated strongly before, and just to reiterate, if Turkey does anything that I, in my great and unmatched wisdom, consider to be off limits, I will totally destroy and obliterate the Economy of Turkey (I’ve done before!).“
“It’s the economy, stupid!”
Há quase uma década, no auge da nossa crise financeira, enquanto embaixador em Paris, chegado ao escritório, a primeira coisa que fazia era abrir o “Financial Times”, pela página do segundo caderno onde vinham os “spreads” da nossa dívida pública, referenciada face ao tratamento que os mercados davam à dívida alemã. Esse diferencial era a medida da nossa tragédia.
De seguida, baixava o olhar umas linhas e comparava o nosso “spread” com o da Espanha. Não me movem emulações peninsulares (a boa diplomacia portuguesa não usa a palavra “ibérico”), mas ia constatando que os nossos vizinhos tinham sempre uma melhor aceitação nos mercados. Não havia nenhuma conspiração contra nós ou algum conluio da imprensa financeira para favorecer Madrid. Aplicava-se apenas a famosa expressão que um assessor de Bill Clinton consagrou um dia para sempre: “It’s the economy, stupid!”
A Espanha continuou a ter um diferencial favorável face a nós, até hoje. Hoje mesmo! Leio num “alerta“ no iPhone que, nesta data de 7 de outubro de 2019, Portugal igualou o “spread” da Espanha. Olé!
Santana
Já quase tudo foi dito sobre Santana Lopes. Mas o que ontem se passou veio acrescentar uma linha triste a um percurso, pessoal e político, de alguém que parece não ter percebido - nisso não tendo sido ajudado pelos seus amigos - que a má gestão de uma ambição, por não ser acompanhada por um mínimo de bom-senso, pode debilitar, quiçá definitivamente, pelo caricato de algumas situações que arrasta, um perfil público que chegou a ter aspetos de assinalável relevância nacional.
Limitemo-nos ao essencial: é deprimente ver alguém que um dia chefiou a principal autarquia do país e até, episodicamente, um governo, embora nas condições em que este último facto aconteceu, tendo-o feito em nome de um partido axial do nosso sistema, surgir ao final da noite de ontem com o patético resultado que teve. Vê-lo, há dias, diluído no debate televisivo dos “pequenos”, já havia sido um espetáculo lamentável.
Dirá a sua “claque”, que aparentemente vive cega pela amizade e lealdade, que Santana foi apenas corajoso, que tudo isto faz parte das leis da democracia, que há por ali empenhamento cívico, humildade política e até uma saudável ousadia. Os amigos de Santana Lopes podem acreditar no que quiserem, até no Pai Natal, mas, com grande sinceridade, acho que fariam melhor se o ajudassem a defender-se de si mesmo. E mais não digo.
O Partido Socialista
O PS ganhou. Não foi uma vitória pírrica, mas foi um resultado que ficou claramente aquém daquilo que a sua governação, nestes quatro anos, justificaria, em termos de reconhecimento político por parte dos portugueses.
Pela qualidade daquilo que executou, pela sua solidez no plano financeiro e europeu, pela estabilidade “feliz” que proporcionou ao país, num diálogo construtivo à esquerda e com o presidente da República - tudo isso deveria ter conduzido a uma maioria robusta e, mesmo, absoluta.
O que é que falhou? Muita coisa. Há na imagem que o PS projeta alguns toques que são interpretados como de arrogância, sendo que essa alegada arrogância tem mesmo algumas caras e nomes. É também isso que leva a que todos tivéssemos encontrado, nos últimos meses, muita gente, que se dizia apoiante de António Costa e do PS, a afirmar que preferia que o partido não tivesse uma maioria absoluta, num reflexo quase masoquista só compreensível pela falta de confiança naquilo que o PS faria com essa maioria.
Os socialistas também alienaram, nestes tempos, setores importantes de algumas corporações - médicos, enfermeiros, professores, etc - ou induziram dúvidas noutras, como a magistratura. E isso também se contou ontem em termos de votos. Se o fator incêndios já havia sido relativamente reabsorvido, o escândalo de Tancos foi gerido pessimamente e deu uma imagem muito negativa ao governo, com impacto evidente nas urnas, com os habilidosos “timings” do Ministério Público a ajudarem à festa.
O PS é um partido que parece não perder uma oportunidade para conseguir perder uma oportunidade, e esta era verdadeiramente única: com a direita em frangalhos, nenhuma conjuntura, nacional e internacional, nos tempos mais próximos, dará ao PS melhores condições para conseguir uma maioria absoluta como as que teve na sua mão, no caminho para estas eleições.
Agora, nenhuma Geringonça será viável exatamente nos mesmos termos, sendo que um apoio eventual do Bloco de Esquerda, auto-excluídos que os comunistas parece estarem do cenário, a vir a ser conseguido, poderá ter um impacto negativo na identidade ideológica do PS, muito para além do efeito que algumas reversões de 2015 circunstancialmente acarretaram. Resta ainda a incógnita do PAN, cujo apoio também pode ter um custo, em termos de credibilidade e de moderação social, bastante elevado. Não vai ser fácil negociar o futuro.
Porque vivi (com António Costa) num governo que teve de fazer penosas alianças “ad hoc” para se sustentar, não esqueço os abalos, na coerência global do executivo, em que tudo isso resultou, até com registo eterno no anedotário político nacional.
Tenho grande esperança que o instinto de sobrevivência não suplante, no PS, o sentido de rigor e fidelidade ao seu programa. Por mim, com toda a sinceridade, tenho extrema confiança no sentido de responsabilidade de António Costa.
domingo, outubro 06, 2019
Têvês
Ter representantes dos partidos como convidados pelas televisões é sempre uma “seca”: nenhuma novidade sairá da boca de nenhuma daquelas caras, que vão para ali debitar “tempos de antena”, dizendo o óbvio. Uns irão “explorar o sucesso”, outros irão disfarçar as derrotas.
Queremos ouvir a sua voz!
O voto é o momento mais democrático da vida de uma sociedade. O voto de cada um é igual ao voto de qualquer outro.
Intimamente, há ainda muito quem ache que o seu voto, por ser mais informado ou educado, não deveria valer o mesmo que o de pessoas menos conhecedoras ou desinformadas. Esse elitismo, de quantos entendem o seu voto mais “qualificado”, reflete um vetusto sentimento anti-democrático, que, entre nós, esteve subjacente à ditadura, que reservava o direito de voto a uns “happy few”.
Ora é precisamente o saldo de diversidade de perspetivas e sentimentos o verdadeiro “barómetro” da sociedade e do país.
Posso perceber que alguém chegue à urna de voto e decida não escolher entre as opções que lhe são propostas, por não gostar de nenhuma delas ou por se considerar menos informado para escolher. Percebo o voto em branco.
Posso perceber quem, numa reação mais afirmativa, decide riscar a globalidade do boletim ou deixar nele expresso, tornando-o inválido, o que lhe vai na alma (seria, aliás, pedagógico estudar esses ditos), num qualquer gesto expressivo de revolta. Percebo o voto nulo.
Mas não consigo perceber o abstencionista. O abstencionista é um irresponsável e um inconsciente. Não percebo quem, não tomando deliberadamente posição (o voto em branco ou nulo representam, apesar de tudo, uma expressão de respeito mínimo perante o sistema, ao levarem o cidadão a ir ao local de voto), se acha depois no direito de vir protestar pelo andamento das coisas públicas.
Há cidadãos que não gostam daquilo que os que estão (pela vontade coletiva anterior) na gestão do Estado fazem ou não fazem? Então escolham outros em quem tenham confiança de que podem vir a fazer diferente. Ao não votarem, entregam o país àqueles que votam. Repito: depois não têm a menor legitimidade para se queixarem!
O abstencionista é um pária cívico, alguém que, no fundo, acaba por ser indigno da liberdade pela qual alguns lutaram, para que todos tivessem a mesma voz, por forma a, em conjunto, decidirem o futuro do país.
sábado, outubro 05, 2019
Ferreira de Oliveira
Estes dias complexos, com acontecimentos mediáticos acumulados, não podem fazer-nos esquecer aqueles que, de uma forma discreta, durante eles se vão afastando da vida.
Manuel Ferreira de Oliveira, que agora desaparece, foi um grande gestor português, uma figura de destaque do nosso mundo empresarial. Professor catedrático de Engenharia, tinha um impressionante currículo profissional, em especial na área dos petróleos.
Conheci-o no Brasil, há bem mais de uma década, num tempo em que ele presidia à GALP. Graças à sua prestimosa ajuda, e também a sua sensibilidade para as questões culturais, foi-me possível garantir uma interessante participação portuguesa nas comemorações dos 200 anos da ida da corte portuguesa para o Brasil, a qual, de outra maneira, não teria sido viável levar a cabo. Não esqueço isso, como não esqueço a sua permanente cordialidade e simpatia.
Há uns anos, nas Pedras Salgadas, falando com pessoas ligadas ao desenvolvimento que a companhia “Vidago, Melgaço e Pedras Salgadas” havia prometido para a vila e que viria a frustrar, ouvi da boca de um responsável local: “Nem imagina as saudades que nós temos de Ferreira de Oliveira!” Eram as saudades do modo humano e compreensivo como Ferreira de Oliveira tinha, no passado, gerido a Unicer, proprietária daquela companhia.
Deixo aqui uma muito sincera nota de pesar aos familares do engº Ferreira de Oliveira.
O cardeal
Nunca falei com Tolentino de Mendonça, e só esporadicamente fui leitor do que dele vi escrito por aí. Desse pouco que li, somado a boas opiniões a seu respeito que me têm chegado, resulta uma imagem muito positiva da figura daquele que é o novo cardeal português.
Olhando as coisas de fora, sinto que a instituição religiosa a que ele pertence, cuja importância continua a ser muito significativa na sociedade portuguesa, sai prestigiada por esta escolha do papa.
Calem-se ou pagam multa!
Hoje, dia "de reflexão", não se pode falar das eleições na comunicação social. Nem nas redes sociais, presumo. Um país que acreditasse na maturidade dos seus eleitores já teria posto termo a esta ridícula política de "faz-de-conta", que trata os portugueses como crianças.
O meu voto
(“Nunca digas em quem vais votar! O voto é secreto!”, dizia-me alguém um dia, equivocado com o sentido da frase. O voto ser “secreto” significa que ninguém deve ser obrigado a revelá-lo, mas não impede que o anunciemos, se assim quisermos fazer).
Votei sempre ao sabor do meus humores políticos. A liberdade e a independência são isso mesmo.
Votei na CDE durante a ditadura. Depois, nas primeiras eleições livres, em 1975, votei MES (uns gloriosos 1,02%), claro! Repeti o voto no MES em 1976 (“progredimos” para 0,57!). Podíamos ter ido longe, se tivéssemos continuado!
Nas presidenciais desse ano votei Otelo (sim, esse mesmo!), tal como fez Jorge Sampaio e muito boa gente, sabendo bem que não ia ganhar (teve 16,5%), mas para afirmar a minha distância face ao pré-bloco central que avançara com Eanes (em quem vim a votar, com toda a naturalidade, em 1980, menos por ser então a seu favor e, muito mais, por contra Soares Carneiro e a AD que eu detestava).
Em autárquicas, lembro-me de que cheguei a votar APU, porque, tendo vivido em Santo António dos Cavaleiros, agradou-me a gestão municipal de Severiano Falcão, em Loures.
Nas eleições legislativas e autárquicas seguintes, creio que sem exceção até hoje, depois dos “gestos” no MES em 75/76, sempre que votei, votei no PS, ou no seu bizarro e falhado heterónimo FRS. Mas, algumas vezes, nem sei bem porquê, abstive-me.
Em presidenciais, votei sucessivamente em Salgado Zenha (na segunda volta, em Mário Soares), em Mário Soares, duas vezes em Jorge Sampaio, de novo em Soares (estando Manuel Alegre na contenda), depois em Alegre e, finalmente, em Sampaio da Nóvoa.
Constato que nunca votei à direita, mas costumo dizer que, em presidenciais, poderia tê-lo feito se o candidato fosse Francisco Pinto Balsemão (e desde que não me agradasse o nome da esquerda) e não excluo poder vir a votar na reeleição de Marcelo Rebelo de Sousa, se o seu comportamento e equidistância se mantiverem de um modo que continue a apreciar.
Esta minha “transparência” (que percebo não ser muito comum) serve de prólogo a uma banalidade: no domingo, vou votar PS. Vou votar, essencialmente, em António Costa, porque é alguém que demonstra ser, a grande distância, a pessoa mais bem preparada para dirigir o país.
Teve a arte de escolher Mário Centeno, soube fazer uma opção inteligente pelo respeito pelos compromissos internacionais do país, ganhou respeitabilidade na Europa e (contra a minha opinião, mas quem estava errado era eu) fez uma aliança parlamentar com a “esquerda da esquerda”, sabendo repor justiça e humanidade nas políticas públicas, depois de uns anos para esquecer.
O PS de António Costa (e sublinho ser “este” PS, e não, necessariamente, um outro qualquer) é, na minha perpetiva, o partido mais equilibrado do nosso espetro político, combinando um forte sentido social com uma visão moderna da sociedade. Tem defeitos? Imensos! Mas acho que tem muito menos do que os outros.
Por isso, embora pessoalmente não o subscrevendo, gostava que alguns amigos mais relutantes seguissem o lema de Alexandre O’Neill: “Ele não merece, mas eu voto PS”.
sexta-feira, outubro 04, 2019
Freitas do Amaral - a solidão política
Diogo Freitas do Amaral foi sempre muito enfático ao refutar a ideia de que o seu percurso político tivesse sido marcado por qualquer incoerência ou ziguezaguear ideológico. Na sua perspetiva, a realidade envolvente é que foi mudando, tendo ele permanecido rigorosamente no mesmo lugar, o que acabou por alterar, aos olhos exteriores, a sua posição relativa face a alguns dos principais atores políticos. Não é claro que as coisas tivessem sido exatamente assim, mas há alguma verdade nisso.
É que há algo que parece evidente: no plano estrito das ideias, há que convir que a evolução de Freitas de Amaral se fez sempre num quadro de razoabilidade e moderação, que eram a sua indiscutível imagem de marca. Mas, obviamente, creio que ele próprio sempre entendeu que ser visto num dia ao lado de Durão Barroso e no outro de José Sócrates não deixava de ser impressivo, e chocante, para o observador externo. E essa era talvez a razão porque sempre sentia necessidade de se justificar.
A presidência
Tenho para mim que Freitas do Amaral sempre considerou que o seu imenso capital de experiência política era mal aproveitado pelo país. Tendo chegado à soleira de Belém em 1986, para depois ser tratado de forma vil por uma família partidária próxima por quem dera a cara, Freitas terá considerado que a hipótese de um “remake” com sucesso não estava afastada por completo.
A presidência
Tenho para mim que Freitas do Amaral sempre considerou que o seu imenso capital de experiência política era mal aproveitado pelo país. Tendo chegado à soleira de Belém em 1986, para depois ser tratado de forma vil por uma família partidária próxima por quem dera a cara, Freitas terá considerado que a hipótese de um “remake” com sucesso não estava afastada por completo.
Posso estar errado, mas acho que Mário Soares foi sempre o grande “culpado” pelo alimentar desse sonho. Como nas grandes batalhas militares em que os generais opostos acabam por gerar a estranha afetividade dos contrários, Soares e Freitas conseguiram ultrapassar a ferocidade, até verbal, da contenda de 1986, vindo a estabelecer entre si uma espécie de “entente”, mais do que cordial, que, na minha perspetiva, tinha a fidelidade comum à ideia da bondade do projeto europeu como o cimento de união.
O sonho da Presidência da República, a meu ver, esteve presente em Freitas do Amaral até à sua entrada, como independente, como ministro dos Negócios Estrangeiros de José Sócrates. O seu regresso às Necessidades, onde estivera quase duas décadas antes, criava-lhe um estatuto que ele entendia poder ser um degrau potencial para proporcionar a hipótese do acesso a Belém. Freitas terá medido mal duas coisas: a desafetação que o setor conservador do país tinha criado em torno do seu nome, visto como alguém que se “mudara” para o campo contrário, e o escasso apelo que uma sua candidatura poderia suscitar à esquerda, que nem o apoio de Soares e Sócrates era capaz de ultrapassar.
O partido
Difícil e dolorosa foi a relação de Freitas do Amaral com o partido que criou em 1974. O CDS havia sido um ato de coragem cívica, ao permitir um espaço institucional de acolhimento de quantos se não reviam no tropismo socializante da Revolução. Do mesmo modo, havia sido corajosa, e coerente, a decisão de fazer o partido quebrar o unanimismo na aprovação da Constituição, em 1976. O CDS e Freitas do Amaral pagaram, com essa atitude, um preço pesado, em termos de estatuto no campo democrático.
O partido
Difícil e dolorosa foi a relação de Freitas do Amaral com o partido que criou em 1974. O CDS havia sido um ato de coragem cívica, ao permitir um espaço institucional de acolhimento de quantos se não reviam no tropismo socializante da Revolução. Do mesmo modo, havia sido corajosa, e coerente, a decisão de fazer o partido quebrar o unanimismo na aprovação da Constituição, em 1976. O CDS e Freitas do Amaral pagaram, com essa atitude, um preço pesado, em termos de estatuto no campo democrático.
Limitado, desde o início, pela lógica de proselitismo eleitoral no campo da direita (recordo que a semântica política era outra, à época), Freitas cedo percebeu que a capacidade de afirmação política do seu partido, em termos de governação, obrigava a delicados jogos de aliança. Se não tinha votos, o CDS tinha pessoas, era esse o seu património e era por aí que poderia consagrar-se. E Freitas fê-lo, exemplarmente, num acordo com Sá Carneiro.
A morte de Sá Carneiro e de Amaro da Costa, alter ego de Freitas, viria a decapitar um certo projeto da direita portuguesa, que a frustrada candidatura presidencial de Soares Carneiro potenciaria. Freitas afastar-se-ia mais tarde do CDS e o partido, nas suas diversas encarnações, passou a exorcizá-lo, através do endeusamento de Amaro da Costa, cuja memória passou a ser arremessada, com regularidade, contra a imagem de Freitas. A retirada do retrato do fundador do partido das paredes da sede, um ato de falsificação da História cometido no consulado de Paulo Portas, representa talvez o ponto mais baixo dessa “vendetta”, cuja ingratidão muito terá ferido Freitas do Amaral.
A morte de Sá Carneiro e de Amaro da Costa, alter ego de Freitas, viria a decapitar um certo projeto da direita portuguesa, que a frustrada candidatura presidencial de Soares Carneiro potenciaria. Freitas afastar-se-ia mais tarde do CDS e o partido, nas suas diversas encarnações, passou a exorcizá-lo, através do endeusamento de Amaro da Costa, cuja memória passou a ser arremessada, com regularidade, contra a imagem de Freitas. A retirada do retrato do fundador do partido das paredes da sede, um ato de falsificação da História cometido no consulado de Paulo Portas, representa talvez o ponto mais baixo dessa “vendetta”, cuja ingratidão muito terá ferido Freitas do Amaral.
O Estado
Freitas nasce para o Estado com o 25 de Abril, ao ser convidado, sob o sobrolho cerrado de alguns, a integrar o Conselho de Estado. O seu estatuto académico, a imagem madura “avant la lettre” e uma certa “gravitas” concederam ao trintão Diogo Freitas do Amaral um estatuto que acabou por induzi-lo a criar um partido conservador democrático, explorando a necessidade que os militares sentiam de, feita a Revolução, construir o Estado, em moldes equilibrados que permitissem a aceitabilidade externa do regime.
O CDS de Freitas de Amaral não conseguiu, contudo, integrar qualquer dos governos provisórios, ao contrário do PPD (hoje PSD) e do PCP, bem como do partido heterónimo deste, o MDP-CDE. Só a vitória da direita, na viragem da década, levará Freitas e o CDS ao governo.
Freitas do Amaral mostrou, em todas as funções políticas que desempenhou, uma forte dedicação ao serviço público, um elevado sentido de Estado e uma qualidade de intervenção que nunca ninguém disputou com seriedade, para além das naturais divergências políticas. Refiro as duas passagens pela pasta dos Negócios Estrangeiros, de que fui testemunha próxima, mas igualmente no exercício do cargo de presidente da Assembleia Geral da ONU, um lugar que, não sendo executivo, tem uma delicadeza em termos de exercício que Freitas do Amaral soube interpretar com sabedoria, inteligência e uma forte cultura que era a sua, para prestígio de Portugal - afinal, o seu grande desiderato nos lugares por que passou.
O homem
Só bastante tarde, na minha vida, vim a conhecer pessoalmente Freitas do Amaral. Foi em 1999, em Nova Iorque, onde ambos tínhamos ido em trabalho. Depois de um jantar, pelas ruas, confessei-lhe que, nas presidenciais de 1986, eu chegara a temer que, a coberto da sua candidatura presidencial, “viesse por aí o fascismo”. Freitas do Amaral riu-se e disse esperar que eu tivesse ficado, entretanto, definitivamente convencido de que ele não era “um fascista”. Não era, disse-lhe que achava que ele era uma espécie de conservador inglês, nos tempos em que a maturidade já me permitia ter isso como um elogio. Nos dias de hoje, já nem sei...
O homem
Só bastante tarde, na minha vida, vim a conhecer pessoalmente Freitas do Amaral. Foi em 1999, em Nova Iorque, onde ambos tínhamos ido em trabalho. Depois de um jantar, pelas ruas, confessei-lhe que, nas presidenciais de 1986, eu chegara a temer que, a coberto da sua candidatura presidencial, “viesse por aí o fascismo”. Freitas do Amaral riu-se e disse esperar que eu tivesse ficado, entretanto, definitivamente convencido de que ele não era “um fascista”. Não era, disse-lhe que achava que ele era uma espécie de conservador inglês, nos tempos em que a maturidade já me permitia ter isso como um elogio. Nos dias de hoje, já nem sei...
Seria de novo em Nova Iorque, para onde eu entretanto fora viver, dois anos depois, que nos reencontraríamos. Alguns amigos políticos de Diogo Freitas do Amaral estavam furiosos com ele, por ter editado uma peça de teatro que foi lida como uma “deslealdade” face à memória de Marcelo Caetano. No almoço que lhe ofereci, revelou-me alguma mágoa com essas atitudes, que via como injustas.
Cruzámo-nos depois, uma ou outra vez, em Lisboa. Depois, em Brasília, em 2005, com ele já de novo como ministro, apreciei o modo assertivo como expunha a política externa do novo governo que integrava, numa atitude que mostrava, simultaneamente, um grande à-vontade no exercício do cargo mas também uma perspetiva muito nacional da função, diria mesmo que um pouco dissonante com o modelo “formatado” de diplomacia que prevalecia numa União Europeia, onde a máquina obedecia a uma linguagem cada vez mais comum. Fiquei curioso em ver o impacto futuro do estilo, mas Freitas do Amaral acabaria por ser obrigado, por razões de saúde, a abandonar o executivo.
Faz hoje precisamente uma semana, voltámos a coincidir, na mesma sala do serviço de um hospital, onde eu estava por uma coisa simples e onde ele tentava recuperar de um último esforço para superar a nova doença que agora lhe poria um ponto final na vida. Já não falámos.
(Texto escrito a convite da SAPO no respetivo site)
(Texto escrito a convite da SAPO no respetivo site)
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"A Arte da Guerra"
Esta semana, em "A Arte da Guerra", António Freitas de Sousa e eu havíamos de falar de quê? Ver aqui .
















