sábado, agosto 10, 2019

Orwell, Kafka & Cia


Um amigo meu, estrangeiro, funcionário superior de uma organização internacional, notou que o seu passaporte era regularmente retido, nos controlos de fronteira, um pouco mais de tempo do que seria razoável. De início, achou estranho mas não se importou excessivamente. Porém, quando essa espera afetava as filas onde se colocava, levando a movimentos de impaciência dos restantes utentes, começou a ficar irritado e, simultaneamente, preocupado. Das vezes em que inquiriu dos controladores dos passaportes sobre a razão da demora, recebeu respostas vagas e nada esclarecedoras.

Um dia, à chegada aos EUA com a mulher, a situação tornou-se caricata: foi mandado esperar isolado numa sala, foi sujeito a um interrogatório estranho e só foi libertado ao final de mais de uma hora de conversa.

Viajar pelo mundo estava, assim, a tornar-se um pequeno pesadelo. O meu amigo lembrou-se então que tinha um conhecimento nos serviços de “intelligence” do seu país. Procurou-o e explicou o seu embaraço. O homem ficou de estudar o assunto. Semanas depois, conversaram.

E foi então que esse meu amigo ficou a saber o que se passava, ou melhor, recebeu disso algumas ideias. Aparentemente, ele havia estado, por mais de uma vez, no lugar errado no momento errado ou, se tal não acontecera, havia indícios de tal poder ter acontecido. Não podendo ser mais específico, o contacto desse meu amigo deu alguns exemplos: uma foto de multidão, numa manifestação violenta por ocasião de uma reunião do G8, trazia uma cara que podia ser a sua; ele havia pernoitado num determinado hotel, na véspera de uma bomba ter explodido nessa cidade; por duas vezes, viajara num avião que também levava pessoas sobre as quais recaíam fortes suspeitas de ligações radicais, eventualmente de apoio ao terrorismo; etc, etc. Tratava-se de cerca de uma dezena de “infelizes coincidências”.

O meu amigo estava siderado! Todas essas circunstâncias eram facilmente “desconstruíveis”, desde a primeira, em que provaria, com facilidade, que estava noutro lugar, até às restantes, em que as suas deslocações haviam sido feitas por decisões e motivos oficiais a que era alheio. Ao mesmo tempo, sentiu-se aliviado. Tudo era esclarecível. Com quem poderia falar para explicar cada um dos factos, com vista a anular as suspeitas?

O seu conhecido das “secretas” desiludiu-o: não podia falar com ninguém, não havia interlocutor algum com quem ele pudesse discutir o circunstancialismo que lhe afetava a imagem, nem sequer estava autorizado a utilizar publicamente a informação agora recebida. Os dados a seu respeito provinham de “serviços de informação” variados, estavam já cruzados numa rede comum, acessível a muita gente, embora grande parte dos utilizadores apenas tivesse, como nota relevante, a noção de que havia “algo de errado” em torno da pessoa em causa. Não era suspeito de nada, não era acusado de nada, pelo que não havia nada a fazer. Ou melhor: apenas havia que esperar que novos dados “comprometedores” não aparecessem, que pudessem “agravar” a sua situação.

Não tenho falado com esse meu amigo, agora já reformado. Qualquer dia pergunto-lhe se tem tido mais problemas.

sexta-feira, agosto 09, 2019

Agostos da vida - A reserva



Uma derradeira boleia deixou-me na Porte d’Italie. Nessa manhã, tinha partido de Blois, depois de oito dias com diversas paragens, condicionadas pelas disponibilidades de transporte. Tudo tinha começado na rotunda do Relógio, em Lisboa. Repito, à boleia.

O mapa de Paris que trazia comigo, obtido no turismo francês em Portugal, era o então conhecido “Paris à vol d’oiseau”, com desenhos dos prédios e um recorte do centro da cidade que nos dava a ilusão de podermos “conhecer”, por antecipação, os monumentos e artérias principais. Mal eu sabia, ao chegar à Porte d’Italie, que a capital francesa era muito e muito mais do que isso. E ainda hoje continuo a aprender...

Havia preparado, com extremo cuidado, aquela minha saída de férias pela Europa, depois de um ano académico muito pouco feliz. A boleia era então um método de viagem muito comum, particularmente para quem, à volta dos 20 anos, desejava conhecer o mundo europeu, sem grandes encargos, com uma mochila às costas. O Inter Rail estava ainda para ser inventado e os tempos que se viviam eram então suficientemente calmos para gerar confiança em quem nos abria, com simpatia, as portas das suas viaturas. E, pela parte de quem solicitava boleia, o sentimento de segurança era quase generalizado. Nessa que foi a primeira de três viagens do género que fiz pela Europa, o meu objectivo era ir de Portugal à Noruega, com Paris e Amesterdão como incontornáveis escalas. E cumpri exatamente aquilo a que me tinha proposto.

À chegada a Paris, lembro-me bem de ter apanhado, creio que pela primeira e última vez na minha vida, um daqueles históricos autocarros com uma plataforma aberta nas traseiras, que agora já só se veem nos filmes. Descobrir um lugar para uma dormida compatível com aquilo que tencionava gastar, numa tarde de um Agosto turístico, revelou-se uma tarefa muito difícil. Corri “seca e meca”, mas todos os “auberges de jeunesse” que os meus apontamentos indicavam estavam mais do que cheios. Comecei a ficar inquieto: o final da tarde aproximava-se.

Foi então que alguém me disse que o Centre International de Séjour, que existia na Porte de Vincennes, podia ter ainda vagas. De metro, fui lá parar, defrontando-me logo com uma fila de espera considerável. O processo de registo era assegurado por dois funcionários, cujo gesticular revelava já um certo cansaço, seguramente provocado pela pressão e pelo calor intenso do dia. Longos minutos decorreram e a fila pouco andava. A certo passo, um dos funcionários soltou uma sonora e impublicável imprecação… em castiço português. Não resisti e, lá de trás, do fundo da fila, mandei-lhe, bem alto, um “boa tarde!”.

O homem olhou-me à distância, com cara de poucos amigos, mas logo lançou, num berro, em português: “Você aí! Avance!”. Um tanto atrapalhado, ultrapassei a longa fila, com imensa gente a protestar, a caminho do balcão. O nosso patrício, com uma lata incomensurável, mas bem olímpico no seu desplante, limitou-se a informar os contestatários, bem alto, desta vez em francês, da óbvia evidência: “Este senhor tem reserva!". E tive!

quinta-feira, agosto 08, 2019

Miguel


Ficou-se agora a saber que o Miguel Lobo Antunes entra como ator num filme. A fita vai mesmo ao Festival de Locarno! Uáu! A imagem de cima é um fotograma dessa película em que ele faz de caixeiro viajante à beira da reforma, pelos vistos com mau feitio, papel que, como todos os seus amigos sabem, lhe deve ir a matar.

Fui aos meus arquivos e descobri a imagem de um outro filme, mais reflexivo, mais Murnau, em que o Miguel parece ponderar a expressividade de um gesto alheio, o qual, seguramente, suportava uma proposta programática que, se fosse seguida, nos daria a todos prosperidade e felicidades eternas. Outros tempos...



Saudades do Barata


A partir do final dos anos 60, Fernando Barata foi um nome bastante conhecido no setor turístico português. Empreendedor hoteleiro que subiu pela escada da vida, teve relevância no Algarve, onde se especializou no mercado britânico e era proprietário do restaurante “A Ruína”. Aliás, chegou também a ter um outro simpático restaurante em Londres, na Dean Street, por onde passei algumas vezes (chamar-se-ia “Sol e Mar”?). Foi também, creio, presidente do Farense.

Lembrei-me hoje de Fernando Barata ao abrir a janela e ver, tal como ontem, o nevoeiro cair sobre a praia, seguramente para desespero de muitos veraneantes, que não alugaram casa ou hotel para acabarem neste cinzentismo como paisagem. É que tenho ideia de ter lido que, numa das campanhas de promoção da sua atividade hoteleira no Algarve, Barata devolvia dinheiro aos turistas, nos dias em que o sol não surgisse. Que jeito que daria hoje esse sistema!

O senhor comandante


Aquelas longas noites do Hotel Trópico, em Luanda, nos primeiros meses de 1982, eram uma verdadeira "seca". Eu sofria o choque cultural de uma mudança direta, do meu anterior posto, na organizada Noruega. para a então caótica Angola. Por quatro longos e não saudosos meses, por ali me instalei.

Pelas salas do Trópico, fui conhecendo alguns portugueses, parte deles expatriados por razões económicas, às vezes apenas por semanas ou meses, e que atenuavam a sua solidão na conversa, a ouvir música ou em jogos de cartas.

Um dos bons amigos que fiz nesse ambiente, e que só há pouco tempo voltei a reencontrar, foi o Hélder Martins, funcionário da empresa de transportes STAR. Numa dessas noites, o Hélder convenceu-me a alinhar numa mesa de sueca que se criara entre alguns clientes. 

Sou, em regra, avesso a entrar em competições de qualquer natureza e, em matéria de jogos de cartas, o mais “longe” que chego é à sueca, à bisca, às copas ou à lerpa. Mas porque a única atividade lúdica alternativa que por ali havia - o visionamento, numa minúscula televisão a preto-e-branco, de alguns jogos do campeonato do mundo de futebol, que então estava a ter lugar em Espanha - se tinha entretanto esgotado, deixe-me entrar na jogataina. 

No grupo, havia um homem jovial, falador, bem mais velho do que nós, de S. João da Madeira, que representava em Angola uma empresa de calçado. A meio do jogo, ao pedir uma rodada de bebidas, vi que, apontando para mim, disse para o empregado: "Ali para o senhor comandante, é uma cerveja". De facto, eu tinha dito, instantes antes, que “o que agora caía bem era uma "Cuca”!” Estranhei ser qualificado de "senhor comandante", mas nada disse. Olhei para o Hélder Martins, que sabia perfeitamente que eu trabalhava na Embaixada, mas não notei na sua cara nenhuma surpresa. Optei por não reagir e, quando ela chegou, lá bebi a cerveja.

No dia seguinte, ao almoço, perguntei ao Hélder: "Você não achou estranho que aquele tipo, ontem, me tivesse tratado por 'senhor comandante'?". O Hélder retorquiu-me que não. É que, sabendo que eu tinha feito o serviço militar, por conversas anteriores, presumiu que, nessa qualidade, eu tivesse servido na Marinha, pelo que havia deduzido que o homem de S. João da Madeira sabia disso. Expliquei-lhe que a minha "arma" era bem mais prosaica, que eu havia sido oficial de "administração militar" no Exército, onde a minha especialidade era "ação psicológica", que nunca havia sido sequer "comandante de pelotão". E rimo-nos, esquecendo o assunto.

Passou, talvez, um mês. Eu havia, entretanto, deixado de frequentar as salas de estar do Trópico com tanta frequência. Uma noite, voltei a ver por lá o homem de S. João da Madeira, que simpaticamente me saudou, ao longe. 

Um dia ou dois depois, o Hélder Martins foi abordado por ele. Queria que ele me "metesse uma cunha": não tendo confiança comigo para me colocar, pessoalmente, o pedido, aproveitava a intercessão do Hélder, para, junto de mim, conseguir um "OK" para o voo da TAP para Lisboa, no dia seguinte. O avião estava cheio e "aquele seu amigo é que pode ajudar, como ninguém, a desenrascar-me o lugar", disse ele.

O Hélder surpreendeu-se. "Mas porquê ele?", perguntou. "Então, sendo ele comandante da TAP, deve poder conseguir isso, não?". "Comandante da TAP? Ele é diplomata na Embaixada de Portugal!", reagiu o Hélder. "Ai é?! É que, há tempos, vi-o à conversa com uma hospedeira da TAP, no bar do hotel, e fiquei com a ideia que ele fazia parte da tripulação, que sempre ali se aloja...".

("For the record", que fique claro que tenho a certeza de que a minha conversa com a hospedeira foi casual e bem inocente, não me recordando de ter assumido nenhuma particular familiaridade com a "colega"...)

Quando viajo na TAP e ouço, pelo altifalante do avião, aquela "rassurante" mensagem com que os comandantes se dignam saudar os passageiros, a meio do voo, acontece-me frequentemente lembrar-me que também "fui", um dia, "comandante" daquela companhia...

quarta-feira, agosto 07, 2019

Às tantas, lá p’rá noite, o dia ainda se compõe!


Está aí, está cá!


A Assembleia do 11 de março


A RTP passou, nos últimos dois dias, outros tantos programas sobre a Assembleia do MFA (Movimento das Forças Armadas) que ocorreu na noite de 11 para 12 de março de 1975. Há uns meses, aquando da passagem dos 44 anos daquela data, já havia sido difundida uma versão mais sintética. 

Para uma certa História, esta reunião ficou conhecida como a “assembleia selvagem”, em especial por ter sido convocada em moldes que não obedeceram às regras tradicionais daquele “parlamento” militar da Revolução e por nela terem participado pessoas que não haviam integrado as anteriores Assembleias.

Fiz parte dos militares que participaram nessa reunião, tendo mesmo tomado nela a palavra. Curiosamente, constato que terei sido, com grande probabilidade, dos poucos oficiais milicianos a intervir nas dez Assembleias do MFA que foram realizadas, tendo estado presente em três delas. 

Ao princípio da noite de 11 de março de 1975, integrei um grupo de oficiais que irrompeu pelo Palácio de Belém, obrigando a uma interrupção da uma reunião do “Conselho dos Vinte” (somatório da Comissão Coordenadora do MFA com os membros em funções da Junta de Salvação Nacional, os ministros militares, os chefes dos EM dos ramos e o comandante do COPCON). Esse grupo “exigiu” ao presidente da República, general Costa Gomes, que se deslocasse ao (atual) Instituto de Defesa Nacional para aí presidir a uma Assembleia extraordinária do MFA.

Esta Assembleia teve lugar ao final de um dia muito complexo. Na madrugada de 10 para 11 de março, o general António de Spínola - que havia renunciado à presidência da República, na sequência do “28 de setembro” de 1974 -, à frente de um grupo de oficiais, ocupou, com cumplicidades internas, as duas unidades militares existentes em Tancos, mandou bombardear o Regimento de Artilharia Ligeira nº 1 (RAL 1), em Lisboa, do que resultou um morto e vários feridos, ordenando a ocupação (que viria a ser frustrada) dessa mesma unidade por paraquedistas. 

Spínola viria a desistir do golpe ao final de algumas horas, por não ter conseguido congregar a prevista adesão de outras unidades. Uma das justificações para a ação “spinolista”, para além da reversão do curso político da Revolução, foi a existência de uma lista de 500 personalidades a abater - a “matança da Páscoa” -, ação que iria ser levada a cabo por grupos revolucionários de extrema-esquerda. É hoje claro que a “lista”, que aliás nunca ninguém viu, foi uma completa invenção de quantos queriam convencer Spínola a liderar o golpe de Estado. Ele e alguns dos seus sequazes fugiriam depois para Espanha, sendo detidos alguns dos outros revoltosos. 

Alguns setores mais radicais do MFA, com os quais, à época, eu me sentia basicamente solidário, entenderam não dever desaproveitar o ensejo para “acelerar” a Revolução. A realização de uma Assembleia extraordinária do MFA foi o instrumento encontrado. Dela saiu a institucionalização do Conselho da Revolução (no dia seguinte, acabei por também participar também numa reunião de setores do Exército em que se discutiram os nomes do ramo para esse Conselho) e um apoio de princípio às nacionalizações e à Reforma Agrária que, dias depois, seriam decretadas.

Há meses, descobriu-se a gravação dessa Assembleia do MFA e foi decidido publicar em livro as intervenções das cerca de sete horas e meia de debate. A convite do “proprietário” da gravação, comandante Almada Contreiras, do presidente da Associação 25 de abril, coronel Vasco Lourenço, e do professor universitário e jornalista da RTP, Jacinto Godinho (que realizou os programas agora editados), fiz a apresentação do livro, em duas ocasiões públicas.

A transcrição completa da reunião, permite acabar, definitivamente, com alguns mitos.

Desde logo, fica desfeita a ideia do alegado caráter tumultuoso da reunião: esta passa-se em perfeita ordem, com elevado sentido de disciplina hierárquica, embora com alguma (natural) emoção à mistura. Alías, com escassas exceções, os intervenientes nessa noite foram exclusivamente os membros das Assembleias regulares do MFA.

Depois, fica claro que a propalada questão do “fuzilamentos”, pedidos então por algumas vozes para os conspiradores envolvidos no golpe, foi um ponto que mereceu uma esmagadora rejeição da Assembleia. Em especial, a gravação mostra que o coronel Varela Gomes, contrariamente a uma versão que sobreviveu décadas, nada teve a ver com essa insana ideia.

Finalmente, fica claro que as vozes (que também as houve) que pretenderam então aproveitar para adiar as primeiras eleições livres (previstas para o dia 25 de abril seguinte) foram muito escassas e também logo suplantadas pela vontade coletiva da reunião. Creio que surpreenderá alguns verificar que o almirante Rosa Coutinho, neste como em outros momentos mais tensos da reunião, foi das figuras que impôs serenidade e assumiu posturas mais moderadas.

A Assembleia do 11 de março, analisada agora com distância e serenidade, mostra ter sido o último momento de algum aparente consenso (mas já sob inescapável tensão) entre a chamada “Esquerda Militar” (linha que tinha muitos pontos de contacto com o PCP e que tem por expoente o general Vasco Gonçalves) e o grupo mais moderado, “teorizado” por Melo Antunes, que irá publicar, meses mais tarde, o chamado “Documento dos Nove”. A tentativa de golpe de Spínola força, nesse dia, uma aliança tática conjuntural entre as duas tendências, embora reforçando mais, no imediato, a primeira, a qual, a partir de então, procurará radicalizar o processo, sendo a constituição do V Governo Provisório, em agosto de 1975, o ponto máximo desse processo vanguardista, a que o “25 de novembro” virá pôr termo. 

Foi há 44 anos, mas, às vezes, parece que foi ontem.

O preço da democracia


Numa noite de 1990, em Versalhes, num jantar com os pares do mundo ocidental, em que se faziam os arranjos finais da Guerra Fria, Margaret Thatcher terá tomado consciência de que, quando regressasse a Londres, deixaria de ser primeira-ministra do Reino Unido.

Contestada desde há meses no Partido Conservador, ao qual outrora proporcionara uma liderança de indiscutível êxito, fora entretanto perdendo contacto com a realidade, deixando, a partir de certo momento, de ser parte de uma solução do futuro para se transformar num problema imediato para os seus correligionários, que assistiam a uma crescente credibilização da alternativa trabalhista.

No Partido Conservador, ao tempo, competia exclusivamente aos deputados escolherem o nome do primeiro-ministro. (Nos trabalhistas, o processo era diferente, dada a preeminência dos sindicatos). Nem as estruturas locais do partido, nem muito menos os militantes, tinham a menor palavra a dizer sobre o assunto. Para além da seleção dos candidatos a deputados e a organização local das respetivas campanhas, apenas essas grandes "missas" ideológicas, não decisórias, que eram os seus congressos anuais constituíam, à época, a manifestação visível do papel do partido a nível nacional, projetando as diferentes "constituencies".

A escolha da liderança fazia-se essencialmente em Londres. Noutros tempos, as votações chegavam mesmo a ser dispensáveis, numa cultura política em que os nomes "emergiam" num conciliábulo entre os poderes fáticos, ouvidos discretamente os meios económicos e outras instituições relevantes do "establishment", numa decisão apurada em discussões fechadas, sob o fumo e o álcool inspirador dos "gentlemen"s clubs".

Com o tempo, as coisas evoluíram. O processo mudou por mais de uma vez, até chegar ao modelo atual, que submete aos militantes conservadores uma "short list" para escolha final do nome que passará a dirigir o partido e, estando este em maioria no Parlamento, que será o primeiro-ministro.

Foi assim que Boris Johnson acabou por ser escolhido. Num exercício especulativo, podemos perguntar-nos se, na aplicação do modelo antigo, o seu nome teria resultado da tradicional seleção elitista. Tudo parece indicar que não. Ironicamente, poderíamos ser levados a concluir que é precisamente pelo facto de haver hoje mais democracia no seio dos conservadores que ocorrem resultados como este. Mas, vá lá! Não tirem conclusões erradas...

terça-feira, agosto 06, 2019

2021


É óbvio que o PSD de Rui Rio e o CDS de Assunção Cristas vão apanhar uma forte “abada” em outubro. Poderão mesmo atingir traumáticos mínimos históricos. 

Apenas então se ficará a saber se o PS terá quatro anos de maioria absoluta ou se precisará de um qualquer modelo de Geringonça para sobreviver como governo minoritário. Em definitivo, não acredito António Costa leve para o governo qualquer dos parceiros à sua esquerda.

Rui Rio vai inevitavelmente cair e o PSD “passista” vai voltar, quase de certeza com Luís Montenegro, que se diz estar já a tentar federar os descontentamentos criados pelo processo da construção das listas - que terá corrido pior do que expectável.

Montenegro (que não estará na AR) terá em S. Bento um grupo parlamentar inexperiente, (inicialmente) adverso e politicamente frágil. Um cenário ainda pior do que aquele que Rio enfrentou desde que foi eleito.

Porque o resto da direita (Ventura, Santana e os liberais da paróquia) não passará de isso mesmo, de restos, sem a menor expressão que não seja mediática, tudo indica que passará a haver um setor significativo do eleitorado que se verá sem uma representação institucional significativa. 

Contrariamente ao que certa esquerda pode pensar, isto não é uma boa notícia para a saúde, a prazo, do sistema politico - mas não se pode pedir à esquerda que resolva os problemas dos seus adversários. 

Era a isto que Marcelo Rebelo de Sousa se referia quando falava da crise que, para a direita, aí virá, depois de outubro. A grande questão é saber se, depois da sua reeleição, o presidente se sentirá tentado a intervir no seio da família política de que é originário. Mas essa é uma questão para 2021.

A terra como meta


Não tenho uma perceção concreta da relação afetiva que o país tem, nos dias de hoje, com o seu ciclismo. Fico com a sensação de que a maioria dos portugueses apenas acorda para a modalidade quando, nas televisões, surge a estival Volta a Portugal (este ano patrocinada por um banco espanhol, não visitando nem o Alentejo nem o Algarve!), que já não há grandes ídolos, mas apenas uma meia dúzia de nomes mais conhecidos, renovados de tempos em tempos, só muito poucos com presença internacional medianamente significativa. Mas o facto de nunca mais se ter repetido um fenómeno como Joaquim Agostinho não deve deixar de ser um fator desmotivador.

Sempre achei, aliás, irónico que, por alguns anos, o mais popular ciclista português de uma nova geração, Cândido Barbosa, nunca tivesse obtido uma vitória na Volta a Portugal. Não deixava, apesar disso, de ser um campeão da simpatia, tal como em França sucedeu com Raymond Poulidor. É o charme que os “losers” sempre têm...

A desaparição, por alguns anos, dos clubes de futebol mais conhecidos no papel de promotores da modalidade, simultânea com a entrada de empresas e marcas estrangeiras no nome das equipas, terá retirado muita da rivalidade que alimentou o velho ciclismo. Não sei, contudo, se isso foi uma coisa boa ou má.

Valha a verdade, porém, que um dos grandes duelos históricos do nosso ciclismo ocorreu entre Alves Barbosa e Ribeiro da Silva, apoiados então, respetivamente, pelos modestos Sangalhos e Académico do Porto. Mas as camisolas do Benfica, Porto e Sporting (aqui por ordem puramente alfabética, claro...) foram a chave de décadas de entusiasmo nacional pelo ciclismo. Os mais velhos (que não eu...) recordavam a rivalidade Benfica-Sporting entre José Maria Nicolau e Alfredo Trindade, com o último a cunhar uma frase magnífica, numa das suas vitórias: “Finalmente, limpámos o sebo à gajada do Benfica” (anteontem, bem gostava de poder ter dito isso...)

Na minha juventude, a passagem da Volta por Vila Real era um momento de grande emoção, em especial quando por lá terminava uma etapa. Nessa época, lembro-me de acompanhar pelos jornais desportivos, ao segundo, a evolução da classificação geral. Vivia-se então a Volta com entusiasmo.

Pela rádio ficava a saber-se, a certa altura, que "já chegaram ao Alto de Espinho!", pelo que imaginávamos a descida rápida desses 15 km, que antecedia a curta subida da ponte do Cabril para a meta na cidade, quase sempre situada no chamado circuito, nas traseiras da minha casa. Há tempos, numa publicação do Museu do Som e da Imagem (a quem também roubei esta imagem), dei comigo numa fotografia, aí com uns 11 ou 12 anos, junto com a restante ganapada, à volta de um ciclista qualquer, numa dessas etapas terminadas na “Bila”.

Desmontadas essas metas onde, horas antes, nos apinháramos para ver a chegada da caravana suada, o “espetáculo” passava então para a Avenida Carvalho Araújo, convertida num parque caótico de "carros de apoio", cheios de rodas com um reluzir metálico, de veículos da organização com papelada colada, os passeios subvertidos por hordas de estranhos, de identificação pendurada ao peito, o que lhes conferia uma dignidade mítica.De chanatos arejados, numa mais do que duvidosa elegância, cheirando aos óleos da massagem pós-competição, os nossos "heróis" passeavam-se, impantes, ou jaziam refastelados em cadeiras de esplanadas, da Gomes ao Camposana, passando pela Brasileira. Às vezes, viamo-los confraternizar com os jornalistas "da Volta". É que ali estavam, à nossa vista, o Aurélio Márcio, o Carlos Miranda, o Artur Agostinho, o Amadeu José de Freitas, o Manuel Dias, o Nuno Braz - nossos "íntimos" de "A Bola", do "Record", de "O Mundo Desportivo", do "Norte Desportivo" ou da "Emissora". Depois, todos recolhiam às pensões Excelsior, Mondego, Coutinho ou Areias - salvo as equipas ricas, que se permitiam os luxos do único hotel, o Tocaio.

Como espectáculo de rua, tenho a consciência de que o ciclismo continua ainda a ser uma festa para as terras por onde passa. Há uma merecida admiração por esses homens que, no tempo mais quente do ano, passam horas a sofrer. Uma luta que se passa à nossa escala, porque há que ter em atenção que a Volta a Portugal está a anos-luz de importância das suas grandes congéneres europeias - a espanhola, a italiana e a francesa. De qualquer forma, conseguir subir a Senhora da Graça ou a Torre continua a ser uma proeza impressionante e até comovente.

A minha cidade, Vila Real deu ao ciclismo português um nome importante: Delmino Pereira. Porém, na minha infância, havia por lá um outro ciclista, Firmino Claudino, o qual, durante alguns anos, alinhou em Voltas a Portugal, sem que, no entanto, tenha deixado a menor marca de vitórias. Recordo-me bem da sua figura, dono de uma loja de bicicletas e, com bastante mais êxito do que no ciclismo, do seu estatuto de um dos melhores bilharistas nas mesas do Café Excelsior.

Firmino Claudino não nascera em Vila Real, mas sim nas Pedras Salgadas. Numa Volta nos anos 60, que teve uma etapa que aí finalizou, mantenho viva, na minha memória de miúdo por ali em férias, a sua imagem, num final da tarde, impante de orgulho, a passear-se de braço dado com Alves Barbosa, numa assumida e ostensiva revelação de proximidade com aquela que era, à época, a grande estrela do ciclismo português. Essa terá sido, seguramente, a sua maior vitória ciclística... 

Anos mais tarde, a caravana da Volta voltou a atravessar as Pedras Salgadas. Reza a lenda, mas não consigo confirmá-la, que Firmino Claudino, que ia no pelotão, nessa passagem pela sua terra natal, decidiu desistir por lá. Seria a etapa final da sua última Volta. Ter a própria terra por meta não deixa de ser bonito.

segunda-feira, agosto 05, 2019

Livros


Ora essa! Claro que dobro as páginas dos meus livros! E sublinho-os e tomo notas neles a tinta, quando me dá na gana. E gosto de ver surgir os vincos nas lombadas, por colar a capa à contacapa, quando os leio. 

Ah! e não há ninguém que goste mais de livros do que eu, aposto!

A bomba

                                  
No aeroporto de Lisboa, dentro de um avião, pertencente à companhia de um país para o qual ia viajar um ministro português que me cabia acompanhar, demos conta de que o voo tardava bastante em partir, sem que, no entanto, qualquer explicação fosse dada. 

Constatei que uma estranha agitação originava idas e vindas para a cabine de pilotagem, induzindo um raro ar de preocupação na cara dos próprios tripulantes. Argumentando com a presença do ministro, tentei saber o que se passava. Com discrição, informaram-me que havia uma ameaça de bomba. 

Fiquei escandalizado! Exigi que abandonássemos, de imediato, o aparelho, enquanto o assunto não fosse devidamente esclarecido. Em poucos minutos, isso viria a acontecer. A comitiva oficial portuguesa saiu, sendo colocada na sala VIP. Os restantes passageiros, como viemos depois a saber, foram mantidos no avião, enquanto as buscas sobre a possível bomba a bordo prosseguiam...

Não deviam ter decorrido mais de 20 ou 30 minutos quando fomos convidados a regressar ao aparelho. A viagem iniciou-se. Estávamos já a voar há quase uma hora quando o comandante do avião veio esclarecer o ministro português sobre o atraso na partida. Disse que uma chamada telefónica anónima, creio que para o aeroporto, desencadeara o alarme. Todos ligámos o incidente à morte violenta em Portugal, precisamente na véspera, de um opositor do regime do país que íamos visitar. 

O comandante do avião explicou também: “Tentámos que o atraso fosse o menor possível, porque fomos informados de que o senhor ministro tem um programa muito sobrecarregado, logo à chegada à nossa capital. Neste tipo de situações é vulgar as buscas poderem demorar algumas horas, mas recebemos instruções para as apressarmos. Conseguimos, assim, concluí-las em menos de uma hora...”

Os membros da delegação portuguesa, esmagados de “gratidão” pela rapidez da vistoria, olharam uns para os outros, muito perplexos. Detetei sinais de uma impotente inquietação nos olhos de alguns, a começar pelo ministro. No que me toca, devo confessar que me custou bastante a adormecer...

(Para quem aprecia a precisão factual, posso informar que a viagem teve lugar no dia 22 de abril de 1988.)

domingo, agosto 04, 2019

Apoio no infortúnio

Agora percebo melhor a presença de Marcelo na tribuna no jogo de hoje. 

Ele não perde uma oportunidade para dar alento às vítimas de qualquer tragédia.

Venezuela


Nos dias de hoje, um governo que haja declarado reconhecer a autoridade de Guaidó sobre Maduro, quando tem de resolver um problema concreto na Venezuela, fala com quem? 

A precipitação, o “wishful thinking” e o seguidismo não são atitudes sensatas, em política externa.

Portugal adotou uma postura reconhecidamente muito prudente nessa questão: nunca esteve na primeira linha dessa deriva no seio da UE e só se juntou à atitude coletiva quando não fazê-lo traria riscos que importava evitar.

Biden


Já me enganei suficientemente na leitura de sinais na vida política americana para me poder dar ares de autoridade, mas tenho cada vez mais para mim que a candidatura de Jo Biden não vai longe. Embora sério, não é entusiasmante e já leva a seu débito demasiadas contradições.

Tancos


Tancos é para mim um crescente mistério. Como é possível que um episódio que envolveu um escasso número de pessoas, já há mais de dois anos, em que já se percebeu o essencial do que se passou, não tenha hoje os culpados julgados e na cadeia?

Que raio de sistema judicial temos?

Guantanamo


A indignação arrefece com o tempo: que será feito dos presos em Guantanamo, que estão lá desde os tempos de George W. Bush, sem que as suas condições de detenção possam ser monitorizadas pelas organizações internacionais que se ocupam dos Direitos Humanos? 

Nem os tão incensados democratas americanos, Obama incluído, com eles se preocuparam...

Brasil (4)


O ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Jean-Yves Le Drian, qualificou como “emergência capilar” a decisão do presidente Bolsonaro, do Brasil, de cancelar à última hora o encontro que tinha com ele para ir cortar o cabelo. 

Uma grande diplomacia é também isto.

Brasil (3)


O ministro das Relações Exteriores do Brasil foi a Roma, em maio, e constatou que estava frio. Daí, concluiu que o aquecimento climático é uma balela. Já Trump tinha chegado à mesma conclusão, aquando dos nevões nos EUA.

No passado, estas coisas só aconteciam nas anedotas.

Dislate

Eu sei que, nos fins de semana, as redações têm mais estagiários. Mas devia haver um "adulto na sala" que impedisse este tipo de d...