sexta-feira, maio 14, 2010

Guide Michelin

As classificações dos restaurantes anualmente atribuídas pelo Guide Michelin Rouge (os guias verdes são de lugares turísticos) sempre foram, aqui em França, um tema de alguma controvérsia. Há acusações de favorecimento e de "habituação", por vezes não se entende bem se são os "chefs" que são premiados ou se são os restaurantes a ser destacados, muitos dizem que são seguidas meras "modas" gastronómicas e que prevalecem modelos estereotipados. Não obstante tudo isso, a chegada da edição anual do Michelin é sempre um acontecimento e os restaurantes "estrelados" acabam por sofrer um efeito comercial muito positivo. Perder uma "estrela" no Michelin (são atribuídas uma, duas ou três estrelas, como sinal crescente de qualidade) é considerado uma "tragédia" e já houve um "chef" francês que se suicidou por isso lhe ter acontecido.

No que me toca, como não-especialista mas como leitor regular dos Guides Michelin, de há muito que cheguei a algumas conclusões. A primeira, é a de que os restaurantes a quem são dadas "estrelas" são sempre bons, embora, confesse, não tenha uma sofisticação de gosto suficiente para saber se devem merecer uma ou mais "estrelas". A segunda é a de que os restaurantes que ganham "estrelas" passam, de imediato, a ser muito mais caros - e às vezes já eram bastante. A terceira conclusão é a de que não considero ser totalmente fiável o critério seguido pelo Michelin quanto à lista dos restantes restaurantes que o guia destaca em cada cidade, isto é, todos os que aparecem mencionados, para além daqueles a que são atribuídas estrelas. A seleção é frequentemente muito discutível. Esta observação, que já era válida para o guia sobre Portugal (cujos consultores sempre me pareceram seduzidos por um mercado de restauração turística em que não me revejo), tenho-a confirmado, cada vez mais, aqui em França.

Se o leitor me perguntar: mas usa ou não o Guide Michelin? Claro que uso, mas sempre em conjugação com outros guias. Um critério que considero imbatível para aferir da qualidade de um restaurante que não conheça é vê-lo referido positivamente em três ou mais guias conhecidos e respeitados, um dos quais o Michelin, claro. Este ano, em que saiu a 101ª edição anual do Guide Michelin Rouge, o tradicional "tijolo" tem uma opção bem mais cómoda para transporte e consulta, num "coffret" com seis volumes, com guias agrupando regiões.

Em tempo: um indiscreto mas muito amigo comentarista referiu uma velha observação minha, revelando um critério para obter o nome de um bom restaurante num lugar que desconheçamos: perguntar a uma pessoa local com ar abastado e "rotundo". De facto, esse foi um critério que utilizei e utilizo, por razões que me parecem óbvias. E, tal como o Gustavo, a experiência tem sido boa... 

quarta-feira, maio 12, 2010

Versalhes

Duarte Ivo Cruz, uma personalidade com uma presença multifacetada na vida pública portuguesa, que incluiu uma passagem pelo governo no âmbito do Ministério dos Negócios Estrangeiros, decidiu estudar e reunir em livro, com o apoio da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, as atas da participação portuguesa na Conferência de Paz que, em 1918-1919, regulou as consequências da vitória aliada na I Guerra Mundial e celebrou o Tratado de Versalhes. 

É muito curioso e instrutivo, particularmente para quem analisa as relações externas portuguesas, ver o modo como os interesses nacionais foram abordados e protegidos, nessa ocasião, pelos atores políticos e diplomáticos intervenientes, nomeadamente no que toca às dimensões coloniais que estavam em jogo.

Surrealismo

Artur Cruzeiro Seixas fará este ano 90 anos. É a principal personalidade viva do surrealismo português. No passado sábado, fiquei muito satisfeito ao ver trabalhos seus expostos na principal sala da Dorothy's Galery (27 rue Keller, em Paris).

Nesta oportuna mas simples rememoração do movimento surrealista, por lá encontrei a escultora Isabel Meirelles com o pintor Benjamim Marques, outras honrosas presenças portuguesas nesta exposição.

Paris continua a ser um local único, onde, de há muito, se cruzam gerações muito distintas de artistas portugueses.

terça-feira, maio 11, 2010

Protocolo (2)


Posso garantir que o chefe do Protocolo desta história não era o mesmo da outra que há dias contei.

A cerimónia de apresentação de cumprimentos de Ano Novo do corpo diplomático ao presidente da República é, em Portugal, um momento único, em que se reúnem todos os embaixadores estrangeiros residentes em Lisboa e aqueles que, embora estejam acreditados no nosso país, residem no estrangeiro - principalmente em Paris (mas nunca em Madrid, onde, por qualquer razão que me escapa, não há nenhum embaixador que esteja acreditado em Lisboa...). A cerimónia, que conta com a presença do ministro dos Negócios Estrangeiros, inclui uma longa sessão individual de cumprimentos, seguida dos discursos da praxe, do decano do corpo diplomático e do chefe de Estado português.

No nosso país, como acontece em várias partes do mundo, o decano dos embaixadores não é, necessariamente, o embaixador mais antigo: por tradição, é sempre o Núncio Apostólico, o representante diplomático da Santa Sé.

Estava-se numa dessas cerímónias, no Palácio da Ajuda, num qualquer mês de Janeiro. Na sala onde apresentação de cumprimentos ia ter lugar, o nosso presidente e o ministro estavam já a postos, há alguns minutos. Os diplomatas estrangeiros encontravam-se do outro lado do palácio, numa sala bem longe, separada por um longo corredor. Algum inesperado atraso, talvez devido à tarefa de ordenação por antiguidade dos diplomatas estrangeiros, fazia com que o primeiro dos diplomatas que devia saudar o nosso Presidente - o tal representante da Santa Sé - ainda não tivesse surgido, à frente dos restantes colegas.

O chefe do Estado português dava já mostras de alguma impaciência. O ministro fez sinal ao chefe do Protocolo para apressar as coisas. Pressuroso, o nosso homem aproximou-se da porta que dava para o corredor, ao fundo do qual se movimentavam os seus colaboradores. Fez-lhes imensos sinais com os braços, mas, do outro lado, ninguém parecia notar. Para grandes males, soluções à altura. De repente, no ambiente austero que precedia a solenidade, ouvem-se três sonoras palmas do chefe do Protocolo, seguidas de um berro de comando, bem alto e audível ao fundo do corredor: "Saia o Núncio!"

O presidente e o ministro desataram a rir. Entre a Ajuda e o Campo Pequeno a distância encurtou, nesse momento.

Barthes

Roland Barthes, que tenho dificuldade em classificar nas suas várias categorias como intelectual, teve uma parte muito importante da sua vida ligada à região sudoeste de França, onde se encontra sepultado junto da sua mãe. Quem leu o seu triste e póstumo "Journal de Deuil" perceberá melhor este encontro na morte. Ontem passei nesse cemitério, em Urt, perto de Bayonne.

Esta historieta é também a propósito de Roland Barthes.

Estávamos em 1973, na caserna da Escola Prática de Infantaria. Eu tinha por hábito, depois do encerrar formal das luzes, ficar a ler uns minutos mais, com uma lâmpada elétrica, que não incomodava ninguém. Numa noite, tinha comigo o "Mythologies", um dos primeiros livros de Roland Barthes, composto por peças publicadas na imprensa francesa, com leituras de uma surpreende imaginação e profundidade sobre temas simples do quotidiano, denunciando mitos da nova cultura de massas. O texto que estava a ler era o "La nouvelle Citroen", uma análise magistral, escrita ainda nos anos 50, sobre o impacto de uma nova viatura no imaginário francês. Trancrevo apenas esta frase desse texto, para se entender de que se tratava (e, a quem não conhece, recomendo vivamente que leia o livro, claro): "Je crois que l’automobile est aujourd’hui l’équivalent assez exact des grandes cathédrales gothiques: je veux dire, une grande création d’époque, conçue passionnément par des artistes inconnus, consommée dans son image, sinon son usage, par un peuple entier qui s’approprie en elle un objet particulièrement magique."

Subitamente, nessa noite, um tenente entra na caserna, numa visita rara de inspeção. Como eu estava deitado logo à entrada, e surpreendido com a minha solitária leitura, o oficial estende logo a mão para o livro e pergunta: "Ó nosso cadete! Que diabo está você a ler, a esta hora?". Esperava, talvez, literatura política, mais ou menos clandestina. Passei-lhe o livro para as mãos, ainda aberto na página da leitura. "Ah! E em francês!", saiu-lhe, inquiridor, já esperançoso numa descoberta. "Vamos lá ver então o que é que você estava para aqui a ver, às escondidas".

Um segundo depois, tudo mudou. Com um sorriso simpático, sai-lhe: "Citroen?! Você gosta de carros?". Devo ter dito que sim, o que nem sequer era ou é verdade. "Ora, sim senhor, aqui está uma boa leitura: livros sobre carros! Mas olhe uma coisa, homem: isto de carros franceses não é coisa que se veja. Eu gosto é dos italianos, são mais nervosos. Tenho um Alfa, sabe?". E eu que nem carta de condução tinha.

segunda-feira, maio 10, 2010

Normalidade brasileira

Alguns leitores fazem-me notar que há, por vezes, neste blogue uma frequência excessiva de notas sobre o Brasil. É verdade, "old habits die hard" e o Brasil marcou-me muito.

Por isso, sigo ainda com alguma atenção a vida política naquele país, que entra agora num período de grande animação, com as eleições presidenciais daqui a meses.

O mais interessante desta disputa, em que se defrontam duas figuras que tiveram a ditadura militar no seu encalce - Dilma Rousseff e José Serra - , é a sensação de normalidade que tudo isto já tem numa sociedade que, até há uns anos não muito distantes, era palco de uma cíclica conflitualidade, que abria permanentes interrogações quanto ao futuro. Hoje, o Brasil enfrenta a saída de um Presidente com o carisma de Lula da Silva com uma serenidade que não assusta nenhum investidor, que não dá aso a especulações de crise, não obstante permanecerem na sua sociedade focos de tensão social que só os anos e o crescimento económico atenuarão. 

O ambiente político que hoje se vive no Brasil tem dois grandes responsáveis: Fernando Henrique Cardoso e Lula da Silva. Ambos, cada um a seu modo, com erros que são os da vida, souberam dar mostras, no seu tempo próprio, de um elevado sentido de Estado, transportando a vida institucional brasileira para os caminhos da rotina democrática. O Brasil fica a dever a essas duas grandes figuras o salto para a sua modernidade política. É pena que alguns vizinhos não aprendam com o seu exemplo.

Diversidade

Estive ontem, acompanhado do "maire" de Bayonne, Jean Grenet, na inauguração do novo espaço da associação "Divulgação da Cultura Portuguesa", uma corajosa aventura de um grupo de figuras das nossa comunidade, liderado por Óscar Oliveira, que honra imenso a imagem portuguesa na região.

A cinco metros da associação portuguesa constroi-se uma mesquita, com o seu minarete, uma vizinhança que pode não ser totalmente confortável para alguns. Nos nossos discursos, Jean Grenet e eu próprio sublinhámos o respeito que é devido ao culto daquela que é hoje a segunda religião de França. A presença, como convidado, do presidente da associação de muçulmanos da costa basca foi muito significativa.

A imagem impecável que os portugueses criaram neste país, em matéria de integração, tem de conduzi-los a saberem sempre respeitar, em pleno, a cultura de diversidade que é a chave inescapável da França do futuro. 

domingo, maio 09, 2010

A feira

Viver no estrangeiro torna-nos ingénuos saudosos do país, atribuindo uma bondade automática às coisas que há por lá. Todos os anos, ao confrontar-me com a notícia da abertura da Feira do Livro, sinto uma insuportável inveja pelos meus amigos que têm a felicidade de passear-se, Parque Eduardo VII acima e abaixo, por aquelas bancadas com livralhada a metro, hoje em parte responsáveis por espaços de parede da minha casa em Lisboa. Confesso: sou um viciado de feiras do livros, paro em qualquer rua ou vilória onde vislumbre alguma, tenho já nelas comprado coisas que me fazem interrogar sobre a minha sanidade mental no momento da aquisição.

Comecei a minha longa vida de Feiras do Livro no Porto, na praça da Liberdade, nos idos de 60. Depois, já de passagem pela cidade, cheguei a vê-la junto à Câmara, creio que uma vez no palácio de Cristal e, depois, já na Boavista. Em Lisboa, não sou do tempo da Feira no Rossio, mas creio que perdi poucas edições na Avenida da Liberdade, como não deixei de a visitar no Terreiro do Paço, quando para lá migrou episodicamente. 

Perpassa-me uma nostalgia das incursões à Feira à hora de jantar, com lugar para estacionar, menos gente e mais tempo para espiolhar as barracas. Tenho uma (há muito) testada técnica de zig-zag, que ilude edições bíblicas, livros infantis e técnicos, com uma jornada noturna para cada ala do parque. Como português incurável, também por lá passei várias últimas noites, antes do fecho definitivo, cheio de sacos, angústia e pressa, nunca soube bem porquê.

A Feira é, além do mais, um fantástico "meeting point", para nos cruzarmos com amigos perdidos há anos, de quem passamos a conhecer os novos cônjuges e com quem combinamos miríficos almoços.

Que falta me faz a Feira do Livro!

Liga de Paris

É na tarde da próxima sexta-feira, dia 14, que terá lugar na Embaixada de Portugal, 5 rue de Noisiel, em Paris, o Colóquio "A Liga de Paris e o exílio político português em França".

Esta foi uma iniciativa que entendi dever empreender, neste ano em que se celebra o Centenário da República", e que conta com a organização a cargo do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa.

Especialistas credenciados, como os professores Fernando Rosas, Yves Léonard, Luís Farinha e Cristina Clímaco, falarão, respetivamente, sobre meio século de exílio português em França, a política francesa e o regime salazarista, a Liga de Paris e o "reviralhismo", bem como o exílio anti-fascista português durante e após a guerra civil de Espanha. 

O acesso ao Colóquio faz-se por convite, mas qualquer pessoa interessada em assistir pode inscrever-se através do telefone geral da Embaixada (01 53 70 12 99), por fax (01 53 70 98 37) ou por e-mail mailto@embaixada-portugal-fr.org.

Joaquim Vital (1948-2010)

Tínhamos a mesma idade, o que descobrimos num agradável e longo almoço a dois, há algumas semanas, aqui em Paris. Escritor, editor, tradutor, personalidade multifacetada de intelectual livre, Joaquim Vital era uma das grandes figuras da cultura portuguesa em França. Faleceu ontem, subitamente, em Lisboa.

Ouvira falar dele, há muito, através de amigos comuns. Ainda antes da minha vinda para França, a Manuela e o Nuno Júdice recomendaram que o procurasse. Só acabámos por conversar, com calma, muito mais tarde, já depois de eu ter lido o seu curioso "Adieu à quelques personnages", como aqui referi em Agosto do ano passado. Há semanas, enviou-me uma cuidada edição da "Ode Marítima" de Fernando Pessoa, sobre quem o tinha ouvido falar na Casa de Portugal, na Cité Universitaire de Paris.

Exilado desde os 18 anos, Joaquim Vital viveu em Paris desde 1973. Aqui fundou as "Editions la Différence", onde publicou traduções de muitos escritores portugueses, algumas das quais da sua própria autoria. Dos editores, escrevia: "Pode dizer-se, parafraseando Fernando Pessoa, que há três espécies de editores: os que publicam os livros de que gostam, os que gostam dos livros que publicam, os que não gostam de livros - e que não são editores. É a esta terceira categoria que pertencem os industriais e financeiros que decidiram, por razões de estratégia empresarial, atacar o mercado do papel impresso".

Joaquim Vital era uma figura que honrava a cultura portuguesa, que muito fez por ela e pelo prestígio do nosso país em França. Oportunamente, a Embaixada de Portugal em Paris irá homenagear a memória de Joaquim Vital.

Em tempo: sobre Joaquim Vital, leia mais aqui, aqui, aqui e aqui.

sábado, maio 08, 2010

Praça Vermelha

Ver tropas americanas a desfilar na Praça Vermelha, em Moscovo, nos 65 anos do final da Segunda Guerra Mundial, é um bom sinal para o mundo. 

O retrato de José Estaline, ao fundo, entre antigas bandeiras soviéticas, espelha bem a complexidade da memória russa.

Aniversário?

Passa hoje  o Dia da Europa. Há precisamente 60 anos, no Salon de l'Horloge, no Quai d'Orsay, aqui em Paris, Robert Schuman proferiu uma declaração, preparada por Jean Monnet, que é considerada o momento fundacional da unidade europeia.

Por que será que, este ano, poucos parecem interessados em celebrar um aniversário tão significativo? Há omissões que falam por si...

Reino Unido (2)

Os britânicos perdem a sua fleuma quando as coisas institucionais entram nos domínios do inesperado.

Tradicionalmente, e para quem não saiba, as eleições legislativas no Reino Unido ocorrem às quintas-feiras. No dia seguinte, de manhã, o líder do partido mais votado vai à rainha, recebe mandato para formar governo e, às 14.30 horas do mesmo dia, apresenta-se com ele completo no parlamento. Isto, porém, no caso de ter obtido maioria absoluta, o que quase sempre acontece. Mas não aconteceu, desta vez.

O sistema político britânico está construído, embora não explicitamente, para que um dos dois maiores partidos - atualmente, o trabalhista ou o conservador - ganhe as eleições com maioria absoluta. Por isso, o terceiro partido, o partido liberal-democrata, acaba por ser sempre o maior sacrificado, porque o sistema de voto o desfavorece fortemente. Nestas eleições, com 23% dos votos, acabou por ter menos de 8% dos deputados. Por essa razão, a reivindicação histórica dos liberal-democratas é a mudança do sistema eleitoral, para um modelo de representação proporcional. E, por outras razões de interesse próprio, conservadores e trabalhistas opõem-se a isto, com muita firmeza. 

Não se sabe, neste momento, como vão terminar as conversações entre os partidos britânicos e que espécie de governo delas poderá resultar. Uma coisa parece certa: mais cedo ou mais tarde, o partido que liderar o novo governo vai convocar (porque, no sistema britânico, pode fazê-lo sem limitações, dentro dos cinco anos do seu mandato) novas eleições, esperando então obter maioria absoluta. E costuma ganhá-las, porque aos britânicos repugnam maiorias relativas. Resta acrescentar que, a partir desse momento, passam a contar mais cinco anos (durante os quais, se acaso lhe der jeito, o governo pode convocar novas eleições, e assim por diante...)

Até lá, com a autoridade nacional que todos temos em matéria de governos com maioria relativa, só podemos dizer aos nossos amigos britânicos: habituem-se!

sexta-feira, maio 07, 2010

Protocolo

O serviço do Protocolo do Estado, que fisicamente se situa no Ministério dos Negócios Estrangeiros, é uma estrutura sobre a qual recai, entre uma multiplicidade de outras tarefas (apoio às missões estrangeiras em Portugal, emissão de documentos diplomáticos de viagem, condecorações, etc), toda a responsabilidade na organização dos milhares de pormenores de todas as visitas e viagens de altas figuras do Estado. É um trabalho que exige imenso tacto, posse de uma "massa crítica" de experiência, um grande bom senso e... uma incomensurável paciência. Tenho muitos anos de observação do trabalho do nosso Protocolo, que coincidem com idêntico período de admiração por colegas que, nesse serviço, dão ao serviço público um grande exemplo de dedicação e profissionalismo. Infelizmente, a sua ação, muitas vezes caricaturada por quem conhece mal estas coisas, tende a passar desapercebida, ou melhor, só se destaca se acaso ocorre alguma falha.

Como acontece um pouco por todo o lado, sempre por lá houve colegas mais atentos e empenhados, ao lado de outros que o são um tanto menos. Vai já para muitos anos, havia um chefe do Protocolo um pouco distante, conhecido pela sua escassa dedicação aos detalhes, que repousava o serviço no labor dos seus esforçados colaboradores. Nas visitas ao estrangeiro, a tendência do nosso homem era para se comportar quase como um convidado, dedicando o seu tempo a falar com os ministros ou com os empresários, relegando a "intendência" para os seus funcionários. E estes, coitados, lá iam dando conta do recado. 

Um dia, numa visita presidencial, um assessor do chefe de Estado encontra o nosso homem no hall, entretido numa boa conversata com um famoso empresário, e pergunta-lhe: "Parece que houve uma mudança no horário. Afinal, a que horas é que o senhor presidente sai para o jantar?". E o diplomata, bem embrenhado que estava no diálogo, responde-lhe, leve: "Eh! pá, não sei. Pergunta ao Protocolo..."

Rigor

Foi com alguma surpresa que membros da delegação oficial do primeiro-ministro português, hoje de visita a França, notaram a aberta rejeição, por parte do primeiro-ministro francês, de aceitar o qualificativo de "plan de rigueur", usado por um jornalista para qualificar as medidas de controlo orçamental que havia anunciado no dia anterior.

A surpresa vem do facto de que, em Portugal, falar de "plano de rigor" ser perfeitamente aceitável para descrever políticas de restrição financeira.

Porquê, então, a diferença de conceitos? Porque em França, historicamente, o discurso político consagrou a expressão "plan de rigueur" como significando medidas que combinam corte de despesas com aumento dos impostos. Ora o governo francês diz que não vai haver qualquer aumento de impostos.

Às vezes, traduzir palavras é diferente de traduzir conceitos.

Reino Unido

Habituamo-nos a olhar para o sistema político britânico como a "mãe das democracias". À hora da madrugada a que escrevo, as televisões dão-nos nota que, em muitos locais de voto, milhares de pessoas foram impedidas de votar, que isso originou inéditos protestos, num sistema que costuma ser "à prova de bala" em matéria de legitimidade. E isso ocorreu precisamente num momento em que a possibilidade de uma maioria simplesmente relativa se apresenta como plausível. Acontecesse isto em Portugal e caíam-nos todos em cima, com acusações de primarismo e de desorganização latina ou mediterrânica.

Sempre tive a sensação de que os britânicos mantêm uma certa snobeira no caráter quase artesanal do seu sistema de voto, que obriga a longas contagens pela noite dentro e às paroquiais leituras dos números dos sufrágios, que antecedem os discursos de vitória dos deputados, acolitados pelo cônjuge e prosélitos, com aquelas rodelas de folhos coloridos ao peito. Mas também tenho a certeza que as confusões de ontem, se não vão colocar minimamente em dúvida o resultado final dos sufrágios, irá obrigar a uma reflexão futura sobre o sistema. Mas duvido muito que mudem...

Quanto ao resto, a noite eleitoral televisiva foi o que costuma ser: divertida, plural, agitada. Devo dizer, contudo, que senti saudades dos gestos largos de Peter Snow, que nos mostrava as ondas vermelhas ou azuis, com os seus "swings", nas paredes virtuais da BBC, bem como das gravatas berrantes de Jeremy Paxton, que agora deram lugar a modelos com um cinzentismo digno da "city". Quanto ao resto, para quem acompanha o sufrágio britânico pela televisão já há algumas décadas, foi um sereno "déjà vu", de David Dimbleby a John Simpson. Podia ser diferente? Podia. Mas não era a mesma coisa...

Diferente do habitual, claro, só o resultado.

quinta-feira, maio 06, 2010

Europa?

A Europa está numa encruzilhada. E nada pior do que estar num cruzamento sem a menor ideia do caminho a seguir. Como agora acontece, com toda a evidência. O que é mais chocante, para quem acredita nas virtualidades do projeto, é verificar que parece não haver sequer linhas de rumo alternativas em estudo, que a Europa claramente "navega à vista". Às vezes, ao observar o comportamento e o discurso lúgubre de certos líderes, quase que dá a sensação que alguns integraram  já no seu pensamento o euroceticismo que pressentem prevalecer nos seus cidadãos, entrincheirando-se na defesa de egoísmos nacionais, porque sabem que assim estão melhor protegidos de críticas. Esses lideres esquecem uma realidade simples: no passado, os grandes passos da Europa, aqueles que consagraram os seus antecessores como figuras da História, fizeram-se com atos de vontade e de ousadia, com propostas que não eram, necessariamente, populares quando foram apresentadas. Liderar não é seguir as sondagens da opinião pública, é ter a coragem de pôr em prática novas políticas para convencer essa mesma opinião pública a mudar.

A grande ilusão europeia, que consistiu em criar instituições e modelos de ambição limitada, que foram o saldo do que, relutantemente, a tibieza de alguns conseguiu consensualizar na gestão mesquinha dos egoísmos nacionais, no pressuposto de que a mera dinâmica viria a consagrá-las como eficazes, mostra estar a chegar ao fim, precisamente às mãos das perversidades e caprichos de um mercado que sempre pensou que conseguiria adaptar às suas regras.

A ironia é ver hoje países poderosos, aliados reticentes de outros com fragilidades que todos sempre conheceram, à  espreita matinal dos mercados, à mercê do imprevisível resultado das negociatas de especuladores, adotando com atraso soluções provisórias para problemas definitivos.

Como ontem disse Jacques Delors, na sua entrevista à revista "Challenges", "a Europa está face ao seu teste mais importante" e, se quer salvar o euro, tem de avançar para a aproximação das políticas económicas nacionais e das legislações fiscais, bem como atuar no âmbito das políticas sociais. Para Delors, as coisas têm de voltar ao que foram: "sentido de ação, cooperação acrescida, pequenos passos, método comunitário (...) e, depois, agir". É uma receita simples, que sempre se mostrou eficaz.

Quando o euro foi criado, recordo-me que uma das grandes preocupações era a assimetria das consequências da introdução da moeda única em economias nacionais de matriz e "performance" tão diversas. O otimismo prevalecente, essa espécie de "bondade" natural que se pensava que o euro acabaria por ter para todos, obnubilou o outro lado da moeda (única): as consequências, a prazo, dessa mesma diversidade na sustentabilidade do euro, sem uma aproximação progressiva de outras políticas complementares, que se mantinham diferentes entre os Estados subscritores. Bastava olhar para a Europa do euro como se olha para um país para perceber isto, mas a verdade é que todos pareceram apostados em não enfrentar as evidências.

Jacques Delors, que foi o estratega dos tempos mais positivo da integração europeia, relembra agora, como o fizeram, sem o afirmarem, Robert Schuman e Jean Monnet, que "o medo pode ser bom conselheiro". Às vezes é, porque, outras vezes, pode apenas paralisar as tropas. À suivre, como se diz na banda desenhada.

quarta-feira, maio 05, 2010

Pedro Rosa Mendes

Uns meses após chegar a Paris, alguém me falou no nome do futuro correspondente da agência noticiosa Lusa, que iria ser aqui colocado: Pedro Rosa Mendes. Interroguei-me sobre se seria o escritor do excelente romance "Baía dos Tigres". Era.

O Pedro acaba de publicar a "Peregrinação de Emnanuel Jhesus", onde projeta a sua experiência timorense. É um simpático "luxo" para os portugueses de Paris terem aqui, como correspondente, um escritor já consagrado pela crítica.

Marx

Faz hoje 192 anos, nasceu em Trèves, uma cidade alemã, um filósofo e político cujas ideias iriam dividir o mundo: Karl Marx. 

Para utilizar uma expressão que Sophia de Mello Breyner dizia a propósito de um certo crítico literário, na minha juventude li mais Marx do que compreendi... Nesses tempos de universidade, para muitos de nós, ser "marxista" estava no "air du temps", qualquer que fosse a tendência que se escolhesse - e elas eram imensas, no menu ideológico disponível. O marxismo, mais ou menos "mecanicista" (que estiver interessado pode aprofundar o conceito), fez parte da escola de pensamento de muita gente da minha geração. Não deixa. aliás, de ser patético observar o modo como alguns se empenham em querer fazer esquecer esse seu tempo. Coitados... 

Há dias, ao ouvir referir que Trèves pertenceu ao Luxemburgo, tendo essa região sido integrada na Prússia num momento de infortúnio, lembrei ao embaixador desse país em França que, afinal, Marx poderia ter sido... luxemburgês!

"Para a troca", o meu colega disse-me que o atual arcebispo de Munich se chama Reinhard Marx e que tinha nascido em ...Trèves! 

Nunca se sabe as surpresas que as (eventuais) famílias nos reservam...

terça-feira, maio 04, 2010

O futuro

Um amigo antigo, homem "sábio" que conheci nas lides de Bruxelas, dizia-me ontem que o ambiente de mal-estar que atravessa a Europa se deve, essencialmente, ao facto de, pela primeira na história da unidade europeia, haver a clara consciência de que, às novas gerações, estará reservada, por um tempo indeterminado, uma qualidade de vida inferior à que as gerações precedentes usufruiram. No passado, o discurso oficial e o sentimento popular iam no sentido de mostrar que o "progresso" iria contribuir para a melhoria de condições de existência, razão pela qual valia sempre a pena ter esperança no futuro. Agora não.

"O problema já não é as pessoas não acreditarem que esta Europa nada pode fazer por elas. A grande questão é que começa a generalizar-se o sentimento de que as coisas estão piores por causa da Europa...", disse-me esse amigo, entre o desencantado e o resignado, mas, apesar de tudo, confortavelmente apoiado na choruda reforma que a União Europeia não deixa de dispensar aos seus leais servidores. Ao contrário do que sucede com as angústias por que passam os "civil servant" dos Estados membros.

Esta conversa fez-me lembrar uma graça que por aí anda, com a crise: "Este ano está a ser tão mau, tão mau, que já parece o ano que vem"...

O revisionismo da tasca

Raramente cito algum texto por aqui. Hoje, depois de ler no X este texto de Ricardo F Lima (@MimeticLima), apeteceu-me transcrevê-lo, com a ...