sexta-feira, 5 de abril de 2019

A farda


Nesta imagem antiga, que ontem apareceu no Facebook, o meu amigo e colega José de Bouza Serrano surge, elegantíssimo, na sua farda ou uniforme diplomático, prestes a apresentar credenciais junto de uma das várias cortes por onde muito bem representou Portugal como diplomata.

Mas os diplomatas têm farda?, perguntarão alguns. Existe, em algumas carreiras diplomáticas mais antigas, como é o caso da portuguesa, um uniforme histórico, que acompanha com um chapéu de bicórnio e um espadim. 

Não se trata, de forma alguma, de um traje de uso obrigatório. Cabe a cada diplomata decidir se adquire ou não a farda, tendo como única limitação, ao que me lembro, o facto das “ramagens” douradas incluídas no traje só poderem ir aumentando em “densidade” com a respetiva progressão na carreira. Mas é de “bom tom”, segundo sempre ouvi a alguns colegas mais ritualistas, manter a farda apenas com a quantidade de “dourados” que o seu proprietário tinha direito a usar nos seus tempos de juventude profissional.

Poucos diplomatas, contudo, têm hoje uma farda. A mim, por exemplo, nunca me passou pela cabeça adquirir uma, embora reconheça que se trata de um belo uniforme e que confere grande dignidade formal o surgimento público de colegas, nas ocasiões mais solenes em que tal se justifica, vestidos com aquele traje. 

As fardas, que são bastante caras, herdam-se ou compram-se, mesmo usadas, sendo vulgar ouvir, nos claustros das Necessidades, que “fulano usa a farda que foi de beltrano”. Peculiaridades de uma profissão muito peculiar...

O José Bouza Serrano, que muito estimulei a que entrasse para a carreira diplomática, como ele às vezes lembra e com o que eu sempre muito me congratulo, é uma pessoa que tem dado grande atenção às “liturgias” da casa. Chegou mesmo a chefe do Protocolo do Estado, sendo autor de uma obra de referência sobre o tema. 

Desde muito novo que o Zé usou uniforme diplomático. E eu sei a origem da sua primeira farda. Num dia de 1980, o Zé Bouza foi à Noruega, onde eu então estava colocado, preparar uma visita de Estado do presidente Ramalho Eanes. Numa conversa com o embaixador português em Oslo, António Cabrita Matias, este referiu que tinha uma farda diplomática, que pretendia vender. O Zé, de imediato, mostrou-se interessado em adquiri-la. E assim aconteceu.

Não testemunhei os pormenores quantitativos da transação, mas recordo que o embaixador logo referiu que, antes da entrega da farda ao seu novo proprietário, gostaria de tirar algumas fotografias com ela vestida, para guardar como recordação. 

Ora eu tinha comprado, poucos dias antes, uma sofisticada máquina fotográfica, cujo funcionamento me entretinha a estudar. E, naturalmente, ofereci-me para ser o autor desses retratos.

No dia seguinte, munido do novo aparato, lá apareci para a tarefa na residência do embaixador, que surgiu, garboso, nesse uniforme engalanado. Em várias poses, com ele a descer e a subir escadas, em cenários diversos dessa moradia na Drammensveien, fiz uma reportagem completa, destinada aos arquivos do meu chefe. O Zé Bouza testemunhou esses meus momentos de artista. E, depois, regressou a Lisboa, satisfeito com a farda adquirida ao embaixador.

Dias depois, passei pela loja onde tinha mandado revelar o rolo, para levantar as fotografias. Fiquei gelado, mais do que era vulgar naquele país, quando me foi dito que, por um qualquer erro mecânico meu, nenhuma imagem tinha ficado gravada. O embaixador iria assim ficar sem qualquer recordação da sua velha farda e lá tive eu de dizer-lhe, “de corda ao pescoço”, a penosa notícia. Já não recordo como a recebeu, mas registo que, aparentemente, o infausto episódio não veio a influenciar a minha carreira...

A minha única curiosidade é saber se a farda que o José Bouza Serrano exibe na fotografia que acompanha este texto é ainda aquela que o meu antigo embaixador lhe vendeu há quase quatro décadas! Alargada, claro!

5 comentários:

Anónimo disse...

Fabulosa história! Eh pá, Oh Francisco, você tem de escrever um livro, com uma súmula destas historietas diplomáticas! O Zé Bouza é um tipo impecável! Do melhor, mais requintado e recto que há naquela Casa, que é o MNE.
A propósito de fardas diplomáticas, houve um colega nosso, hoje "postado" na Europa, que, quando teve de servir num país asiático, lá se apresntou de farda diplomática. E o que ele estava cheio de vento (no bom sentido, claro). Ficou, desde ssa altura, com a alcunha - eu prefiro Cognome - de "O Plumas", dada a importância que dava ao chapéu de plumas no altom da cabeça.
Mas, o Zé Bouza é de outro estilo. Melhor. Nele, não há pluma, farda, o que seja que lhe assente mal. Ele é alguém à parte. E uma simpatia. Um daqueles Diplomatas que já vão rareando. Uma pena!
Forte abraço!

jose reyes disse...

O Senhor Embaixador fez-me recordar o seu amigo Macário que dizem ter sido igualmente exímio a fotografar sem rolo.

Anónimo disse...

Não, não é a farda do Matias Cabrita
Fernando Neves

Anónimo disse...

Claro que não pode ser a farda comprada em 1980 , pois nessa época o Embaixador Bouza Serrano só poderia usar uma farda de secretário de embaixada ou conselheiro . A farda usada na fotografia é destinada a embaixadores . E as plumas brancas em principio são destinadas a Embaixador de categoria . Antes dessa promoção as plumas são pretas ...

Anónimo disse...

Quando a farda foi comprada ao Embaixador Cabrita Matias obviamente que ele não era secretrário nem conselheiro de embaixada.

Concordo totalmente com o anónimo das 00h12. O Embaixador Seixas da Costa, cujo blog leio com regularidade desde o início, deveria publicar em livro as suas memórias e não só.

Eu confesso que os livros são uma das minhas paixões e prefiro ler um livro de papel a ler memórias na net.

Siga por favor o nosso conselho.

LBA