segunda-feira, fevereiro 13, 2017

Mais luz

Para o meu pai, que me deixou há uma década, não muito longe do bater da badalada dos seus cem anos, o dia 21 de dezembro era sempre uma alegria: "A partir de hoje, cada dia traz-nos mais dia". Referia-se aos minutos acrescidos de luminosidade que, a partir dessa data, se iam ganhando. Nessa mesma lógica, para ele, o período mais triste do ano era o outono, quando se notava mais que os dias começavam a encurtar. Se eu lhe falava dos meus invernos noruegueses, em que entrava na embaixada ainda na escuridão e, depois de uma jornada contínua, saía já de novo com noite, ele exclamava: "Eu dava em doido!". A luz do dia, para ele, era fundamental. E irritava-se quando eu lhe gabava a beleza dos fins de tarde de outubro, com uma chuvinha leve e os candeeiros já acesos, naquela hora de pré-recolhimento ao conforto da casa: "A noite é uma chatice!", sentenciava, bem sabedor de que as noitadas até de madrugada eram a minha perdição, desde a adolescência, a ouvir rádio e a ler. Nunca se reconciliou com isso, achando (e bem) que eu passei toda a minha vida a desprezar as manhãs: "A luz natural é tudo". Desde miúdo que me lembro de ouvi-lo contar que, à hora da morte, Goethe tinha pedido "mais luz!" E o meu pai acrescentava sempre: "Há, claro, uma explicação filosófica para essas últimas palavras. Eu acho, contudo, que ele apenas queria que abrissem as cortinas da janela..."

9 comentários:

  1. Rui C. Marques07:49

    A alegria solar do verão é tudo.

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  2. Acho que o seu pai tinha razão. A luz natural é a melhor coisa do mundo.

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  3. Anónimo14:11

    Um escritor que não se cala : J.Rentes de Carvalho

    Do blog " Tempo Contado", com a devida vénia:


    "Agora que o Ministro mente, o Primeiro-Ministro esquece, o Presidente da República não se ouve, recordo esta triste confissão, feita aqui pela primeira vez seis anos atrás, e que tantas vezes repito, incapaz de esquecer a mágoa.


    Precoce na leitura, cedo comecei a sonhar e a ter pena do meu país. Aprendi que lá longe havia outros sem medo nem miséria, de leis justas, menos desigualdade, menos desespero, os seus cidadãos e governantes mais interessados no futuro do que em glórias passadas.
    Parti, quando a minha hora soou. Ingénuo bastante para me maravilhar, mas cedo consciente do fosso entre a realidade que observava e os sonhos que tivera. Além fronteiras não havia paraísos, mas sociedades onde a esperança de melhoria era um facto, a desigualdade menos gritante, a repressão inexistente, a liberdade um direito sagrado. Fui vendo, estudando, comparando, e continuei a ter pena da terra onde nasci.
    Não me entusiasmou depois o florescer dos cravos, e espero o investigador de hombridade que faça a barrela desse momento histórico, mostre os interesses que a ele levaram, ponha nome nos fantoches e em quem segurava os cordéis.
    Passaram os anos. Sentindo mais funda a pena, vi o meu país de mão estendida. Com espanto vi-o depois a esbanjar o que não tinha, governantes e governados dando o espectáculo da mais incrível pelintrice, de uma inconsciência que só dos pobres de espírito se espera, tomando por realidade o país de Cocagne.
    Vivendo no conforto de uma sociedade rica, justa, bem organizada, materialmente não sofro com a desgraça daquela em que nasci, mas nem por isso me dói menos o esfregar sal na ferida.
    Curioso povo, o meu, onde gente supostamente séria e competente enrouquece a gritar que as dívidas dos países não se pagam. Para que fingem? Com que fim iludem? Pagam, e com língua de palmo, que quem dita os termos não é o caloteiro, mas aquele que tem numa mão a faca e o queijo, e na outra a corda com que o enforca.
    Com tristeza o digo e consolo não sinto: na minha idade é nula a esperança que tenho de ver Portugal sair do atoleiro e da miséria.
    Resta-me o sonho de que os que agora são jovens, e os que vierem, construam um país de que se possam orgulhar e não lhes doa como este a mim dói."

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  4. No natal, um saltinho de pardal; em janeiro, um salto de cordeiro; em fevereiro, bate o sol em todos os ribeiros.
    Revejo-me plenamente na atitude do seu pai.

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  5. Eu também, não há nada mas mesmo nada que se compare à luz de um dia de Estio...

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  6. Anónimo23:24

    Estou mesmo a ver que ninguém conhece as noites cálidas numa praça de Malaga!

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  7. solstício,sim. Equinócio,não!

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  8. Anónimo17:47

    Belo texto, senhor Embaixador.
    Eu sou do clube do seu Pai. Preciso de sol, o grande antidepressivo. Por mais que goste da noite.

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  9. Anónimo18:43

    Sol ainda vá que não vá, agora calor dispenso.
    Mas sim, sempre fui mais noctívago.

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