Para o meu pai, que me deixou há uma década, não muito longe do bater da badalada dos seus cem anos, o dia 21 de dezembro era sempre uma alegria: "A partir de hoje, cada dia traz-nos mais dia". Referia-se aos minutos acrescidos de luminosidade que, a partir dessa data, se iam ganhando. Nessa mesma lógica, para ele, o período mais triste do ano era o outono, quando se notava mais que os dias começavam a encurtar. Se eu lhe falava dos meus invernos noruegueses, em que entrava na embaixada ainda na escuridão e, depois de uma jornada contínua, saía já de novo com noite, ele exclamava: "Eu dava em doido!". A luz do dia, para ele, era fundamental. E irritava-se quando eu lhe gabava a beleza dos fins de tarde de outubro, com uma chuvinha leve e os candeeiros já acesos, naquela hora de pré-recolhimento ao conforto da casa: "A noite é uma chatice!", sentenciava, bem sabedor de que as noitadas até de madrugada eram a minha perdição, desde a adolescência, a ouvir rádio e a ler. Nunca se reconciliou com isso, achando (e bem) que eu passei toda a minha vida a desprezar as manhãs: "A luz natural é tudo". Desde miúdo que me lembro de ouvi-lo contar que, à hora da morte, Goethe tinha pedido "mais luz!" E o meu pai acrescentava sempre: "Há, claro, uma explicação filosófica para essas últimas palavras. Eu acho, contudo, que ele apenas queria que abrissem as cortinas da janela..."