Seria importante para a imagem internacional de Portugal que Woody Allen fizesse um filme em que Lisboa fosse o cenário de fundo? Claro que sim.
Se Allen "agarrasse" bem a capital portuguesa, numa trama inteligente e sem clichés, fugindo ao modelo, a meu ver demasiado simplista, que usou para Paris e Roma, ficaria orgulhoso em poder contar com a capital portuguesa no seio daquela que (já) foi uma das filmografias mais geniais da minha geração.
Mas suspeito não é isso que se pretende. O que por aí se anseia é o afadistar da película, é a reiteração do óbvio - um diálogo romântico no alto do parque Eduardo VII com o Tejo a diluir a outra banda, a Baixa ensolada do miradouro do castelo, o elétrico a chiar na já estafada esquina de Alfama, o bilhar do Pavilhão Chinês, a bica na mesa de Pessoa no Martinho da Arcada ou com o Pessoa da Brasileira, um "tête-à-tête" num dos poisos do Avillez ou com um prego no prato e um fino na Trindade, um "contre-plongée" no elevador da Bica ou cenas de rua no Bairro Alto grafittado, o olhar nostálgico do jardim de S. Pedro de Alcântara ou da saramáguica Casa dos Bicos. Duvido que tenham coragem para incluir o "suspense" de uma viagem mistério com um taxista do aeroporto ou a emoção da carteira fanada no 28, agora que o Intendente passou de moda.
Claro que isso traria a Lisboa gente, euros, dólares e balzaquianas, que passariam os dias a fazer "takes" caseiros, a imitar a película no seu iPhone, a comer os pastéis de Belém do Álvaro, a inundar os Jerónimos de "uáus!" e o terraço das Portas do Sol de turistas. Seria o "Allgarve" de Manuel Pinho em versão alfacinha, desta vez a cheirar a sardinhas no verão e a castanhas no inverno.
Era bom para o turismo? Era capaz de ser. Mas, desculpem lá, tudo isso soa-me demasiado, no pior, a um "remake" do SNI e Moreira Baptista, e, no melhor, a Verde Gaio e António Ferro. Deixemos o Woody Allen em paz, nas boas recordações que nos fixou! Não alimentemos esta espécie de Zelig urbanos que agora lhe enchem os bolsos.
Bom, a menos que ele traga para a fita a Scarlett Johansson! Uma cena com ela no Procópio far-me-ia rever tudo quanto atrás escrevi, devo confessar...
