A pretexto de algumas lamentáveis reações à morte de António Borges, a historiadora Maria de Fátima Bonifácio deu à estampa no "Público" um texto inqualificável, no qual, misturando deliberadamente os seus ódios com bugalhos alheios, deu uma expressiva nota da intolerância que afeta as mentes de certos setores políticos em Portugal. Ao lê-la, devo dizer que me percorreu um frio na espinha, sentindo o sopro de um vento ideológico que eu pensava amainado e enterrado no passado. Com a sofisticação de quem sabe o que escreve, a professora Fátima Bonifácio fez-me recuar aos tempos em que, noutros contextos, alguns intelectuais de mérito serviram de adubo pensante e justificador de certas barbáries.
Devo dizer, com sinceridade, que mantenho respeito intelectual pela professora Maria de Fátima Bonifácio, com quem integrei, no ano passado, um grupo de trabalho, nomeado pelo governo, que produziu as bases para um novo Conceito Estratégico de Defesa Nacional. Reconheço-lhe a autoria de uma obra relevante, que, desde há uns anos, tem vindo a ser produzida sob o prisma de uma linha ideológica cada vez mais radical. Contudo, leio-a sempre com bastante proveito e continuarei a fazê-lo, a ela bem como aos restantes cultores de uma historiografia conservadora, alguma mais liberal que outra, que agora está um pouco na moda, que reconheço que é muitas vezes (embora nem sempre) servida por boa escrita e interessante investigação, que se apoia em setores universitários e em editoras que alimentam a mesma agenda ideológica, sendo também promovida com empenhamento por certa imprensa e blogues.
Situando-me, com cristalina clareza e sem ambiguidades, no espetro das "sinistras" ideias diabolizadas no texto da professora Fátima Bonifácio, fica-me a dúvida sobre se o que aqui escrevi sobre António Borges, na ocasião da sua morte, também se enquadrará nos comentários por ela policiados.