Comemoram-se, por estes dias, os 50 anos do
movimento de agitação universitária que ficou conhecido, entre nós, pela “crise
académica de 1962”.
No ano anterior, a ditadura tinha passado pelo seu “annus horribilis”, desde o início da
guerra em Angola até à perda da soberania sobre a possessões na costa da Índia, passando
por diversos outros episódios que abalaram o regime, como o “golpe de Beja” ou
o assalto ao paquete Santa Maria. No meio de tudo isto, Salazar conseguiu
sobreviver ao “golpe Botelho Moniz”, uma tentativa de “pronunciamento”
palaciano, cujo fracasso pode ter sido responsável pelos 13 anos de guerra colonial que
se seguiram - uma triste aventura nacional contra a História.
Em Lisboa, nesse início de 1962, o mundo
universitário iniciou um ciclo de inquietação que, com surtos irregulares, nunca
mais iria parar, até ao 25 de Abril. Era essa a juventude que o regime ia utilizar
como tropa de choque nas guerras coloniais, inicialmente em Angola (1961), depois em
Moçambique e na Guiné (1964). Atravessada pelos ventos de liberdade que haviam
soprado forte aquando da candidatura de Humberto Delgado (1958), com o
“putchismo” militar a espreitar nas Revoltas da Sé (1959) e de Beja (fim de 1961),
a “crise" de 1962
demonstrou também que o episódio Botelho Moniz não havia esgotado as tensões
dentro do próprio regime: a demissão de Marcelo Caetano, de reitor da
universidade de Lisboa, em solidariedade com os estudantes, fazia transparecer algum
mal-estar e revelava que alguns preparavam já o pós-salazarismo.
A crise académica de 1962 é já vivida num interessante compósito
ideológico que, a partir daí, vai passar a marcar o mundo associativo universitário. Do
cultivo dos valores do republicanismo tradicional, que até então estivera sempre no eixo de toda a luta
oposicionista, os novos tempos mostravam a prevalência de uma agenda
cada vez mais socializante, com uma forte e tendencialmente hegemónica presença
do PCP, mesclada com um catolicismo radical emergente e até alguma sedução pelo
modelo castrista (bem presente na LUAR). Só a partir de 1962, com a cisão
marxista-leninista protagonizada por Francisco Martins Rodrigues, é que os
grupos maoístas viriam a imiscuir-se nessa luta.
Basta olhar para as lideranças académicas de
1962 para podermos entender o que aí vinha. Ao lado de Jorge Sampaio, de
uma esquerda marxista não-alinhada, apareciam nomes como Vítor Wengorovius,
ligado à nova “inquietação” católica (nascida, organizativamente, depois da
“carta do Bispo do Porto” e do "documento dos 101”), Eurico Figueiredo,
importante quadro do PCP, ou José Medeiros Ferreira, que seria candidato da "oposição democrática" às "eleições" legislativas de 1965, em cujo perfil político se projetava já o
socialismo democrático, que haveria de dar origem ao PS, mais de uma década
mais tarde. Com exceção dos maoístas, pode dizer-se que na crise de 1962 estão presentes as linhas fundamentais da movimentação política oposicionista dos anos seguintes, que iriam ter expressão organizada (e dividida) nas "eleições" legislativas de 1969 e, de uma forma singularmente bastante unitária, no exercício idêntico em 1973.
A crise académica de 1962
não se ter ficou por Lisboa, alastrando também às comunidades académicas de
Coimbra e do Porto, onde, a partir de então, nas associações ou nas "pró-associações", as movimentações políticas entraram num crescendo. Todo o mundo universitário português, a partir desse ano charneira de 1962, se tornou num palco fundamental para a luta política contra o regime.