sábado, setembro 17, 2011

Não há almoços grátis

Em abril de 2006, ao tempo que vivia no Brasil, fui convidado para ir falar a Harvard sobre a experiência de integração portuguesa nas instituições europeias. No almoço oferecido pela universidade, antecedendo a minha prestação, um professor canadiano perguntou-me, com uma surpreendente naturalidade, até quando Portugal conseguiria manter-se no euro.

Estávamos na ressaca do primeiro período de desregulação no seio da moeda única, com vários países, entre os quais o nosso, a excederem as barreiras macroeconómicas previstas no Pacto de estabilidade e crescimento, fixado em 1997. Portugal estava então a fazer uma tentativa, temporalmente bem sucedida, de redução do seu défice público.

Confesso que, à época, foi para mim um grande choque a pergunta do canadiano. Levei-a mesmo à conta de alguma arrogância anglo-saxónica e de uma leitura paternalista da realidade europeia. A minha resposta foi simples e muito sincera: todo o esforço que Portugal tiver que fazer para se manter na moeda única europeia será sempre muito inferior ao preço que o país terá de pagar no caso de ser obrigado a sair do euro.

Ao olhar para o debate que, em alguns sectores de Portugal, começa a gizar-se em torno da nossa pertença ao euro, dou por mim a pensar hoje exatamente aquilo que então disse em Harvard.

6 comentários:

  1. Anónimo12:41

    Uma vez mais, concordo. É repetitivo, mas é verdade. Ponto.

    Mas, há coisas que fazem com que olhem para nós com ar de comiseração. Por exemplo: o Financial Times, no seu blogue Alphaville titula «A Ilha Trapaceira»...

    Com os nossos inimigos podemos nós mais ou menos bem; agora com os nossos «amigos» carunchosos...

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  2. O problema não estará nos esforços que faremos (aliás, que já estamos a fazer), para nos mantermos na moeda única.

    O problema reside em sabermos até quando nos querem lá.

    E, ao que parece, os países nórdicos confortavelmente instalados em economias (aparentemente) sólidas, não parecem muito dispostos a suportar-nos.

    Ainda por cima com as trapaças que vão surgindo à luz do dia.

    Carlos Fonseca

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  3. Senhor Embaixador: estou totalmente de acordo que sair do euro, "par la petite ou la grande porte" traria repercussões desastrosas a Portugal. Só uma casta de irresponsáveis continuam a “discutir o sexo dos anjos” quando o pais precisa, mais que nunca unir todas as vontades para ultrapassar, uma vez mais, uma crise que não soube gerir.

    A obscenidade personificada que contribuiu ao agravamento do défice do “rectângulo” defende agora, com ar de vitima, a legitimidade da factura de mais de 30 anos de "boa gestão" que ofereceu com arrogância e de charuto nos beiços, a quem sofria de dor de cotovelo”. Com gente assim, que assina e persiste, com a complacência de pares que, esses sim, sofrem de dor de corno, por mais sacrifícios que se lhe impõem, Portugal só voltará à tona, com um mínimo de sobriedade, no dia em que recusar almoços gratuitos.

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  4. Francisco.
    \Tenha um bom finm de tarde sem pensar em Portugal . Pode? Porque acho que está certo, mas fazer o que?
    com carinho MOnica

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  5. Pois Deus o ouça, porque andam para aí uns iluminados nacionalistas, que julgam que o retorno ao escudo é que será a nossa salvação.
    Confesso que nunca fui uma europeísta convicta, no que á zona euro respeita. Talvez porque amasse demasiado o país e temesse que nos diluíssemos na Europa. Ou talvez porque o exemplo de Inglaterra me fazia pensar.
    Mas uma vez que a decisão foi tomada seria desastroso, a meu ver, uma saída agora.

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  6. Confesso que levei um tempão a digerir o título face à essência do texto, socorro-me sempre com legitimidade da obtusidade Transmontana para desistir, depois a querida carinhosa Mônica fez-me luz pelo avesso...

    Não é possivel não comunicar, e daí dessa transversalidade nasce a obrigatoriedade de pagar a alimentação reciproca.

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