José Medeiros Ferreira é uma personalidade marcante da democracia portuguesa. Dirigente do associativismo universitário, na crise académica do início dos anos 60, e opositor à ditadura, viria a fazer um tempo de exílio, de onde, promonitoriamente, teorizou o modelo de revolta que o 25 de abril viria a seguir. Foi ministro dos Negócios Estrangeiros e deputado, dedicando-se, em paralelo, a uma carreira académica de mérito na área da historiografia contemporânea, com as questões militares e as relações internacionais no centro prioritário dos seus interesses.
O seu pendor heterodoxo e a insistência, quase obsessiva, na livre independência crítica poderão ter contribuído para que tivesse passado ao lado de posições que merecia ter ocupado na nossa vida pública, no que o país muito teria beneficiado. Esse mesmo tropismo, associado a uma gestão peculiar de algumas das suas opções cívicas, colocou-o, frequentemente, em conflito com certas personalidades ou linhas políticas, obrigando-o a percursos bastante solitários. Mas, paradoxalmente, esse seu "defeito" é a face mais sedutora da sua forte identidade pessoal, servida por uma inteligência fina e aguda, mas quase sempre pouco complacente, como as suas aventuras pela blogosfera e pela imprensa espelham.
No passado, nem sempre estivémos de acordo, mas julgo que nos encontraremos sempre numa certa forma de ver o país e os seus interesses, no preito à amizade e na alegria de saber que ambos pensamos pela nossa própria cabeça, sem receio de dizer alto as ideias, mesmo que elas pontualmente não coincidam ou possam incomodar terceiros. E quem partilha o mesmo barbeiro pode também dar-se ao luxo de sair por vias opostas na 2ª circular.
Neste momento em que um livro celebra o seu importante percurso académico, tendo servido de pretexto para ter sido homenageado por um grupo de colegas e admiradores, aqui deixo um forte e solidário abraço ao José Medeiros Ferreira.
