As opções para um programa lúdico eram algo escassas, naquela pequena capital europeia. O embaixador português e o seu secretário bem se tinham esforçado por encher a agenda do jovem secretário de Estado, oriundo de um ministério técnico, na tarde que lhe restava na cidade.
À proposta de visita a uma livraria inglesa, o político comentou que tinha estado em Londres, há poucas semanas, embora, através de outros comentários, não desse mostras de ser pessoa altamente interessada pela leitura. O passeio pelos arredores, a visita ao porto e ao famoso parque da cidade não o entusiasmaram, da mesma maneira que estava a manifestar um visível enfado pela explicações arquitetónicas que o embaixador fazia, à passagem por certas artérias.
A certo ponto, o embaixador teve uma ideia:
- O senhor secretário de Estado não estará interessado em visitar o museu nacional? Tem peças lindíssimas...
O jovem político olhou para o diplomata, com um sorriso indefinível mas "blasé", e comentou:
- Sabe, senhor embaixador, a mim o passado diz-me pouco e os museus só nos mostram o passado.
Aí, o secretário de embaixada não resistiu e lançou, "fininho":
- É verdade que os museus "têm a mania" do passado. Não há muito a fazer...
O nóvel governante fez uns instantes de silêncio, mas não "se ficou":
- Não é bem assim, sempre há os futuristas...
De facto. O secretário ainda pensou falar-lhe em Marinetti, mas recuou, temendo, seriamente, que ele pensasse que era um médio ala da Juventus.
