quinta-feira, 29 de junho de 2017

"A escolha do silêncio"

A expressão em título ficou-me de um daqueles longos arrazoados que um cronista chamado Marcelo Rebelo de Sousa publicava na página dois de um semanário que, há quase quatro décadas, nos habituava a ter notícias frescas. O cronista mudou de ramo e o semanário traz agora opiniões a fingir de "caixas". 

"A escolha do silêncio" foi o título um dia escolhido pelo cronista para qualificar a ausência de palavras de Ramalho Eanes, que ao tempo se refugiava atrás de uns óculos escuros que lhe davam um ar (para mim) pouco sossegante, numa qualquer semana política desses anos 70 ou 80. Eanes optara por não dizer nada sobre uma determinada situação ocorrente e o país, reverente perante aquela intimidante farda política, fazia uma elaborada exegese da ausência da palavra. A hipótese dele não ter nada para dizer nem sequer era colocada.

Lembrei-me, há dias, da expressão, por uma razão completamente diferente, quando estava a almoçar no "Chana do Bernardino", na Aldeia da Serra, na serra da Ossa (um bela opção para refeiçoar, podem crer).

Sentaram-se cinco pessoas numa mesa ao nosso lado: um casal com um filho e uma filha, mais uma empregada. Olhei-os de soslaio, à entrada, e logo os esqueci. Minutos depois, estranhando o silêncio, olhei a mesa. Estavam, os cinco, cada um deles especado a olhar para o respetivo telemóvel. Agitaram-se, por segundos, quando tiveram de interromper as respetivas tarefas individuais para formular os pedidos. Mas logo regressaram, concentrados, ao mutismo absoluto. 

Passou um quarto de hora. Veio a comida. Pai e mãe trocaram umas palavras. Os rebentos, aí com 15 e 12 anos, mantiveram o olhar atento aos ecrans e, com sorte, iam conseguindo espetar uma garfadas nas vitualhas, que emborcavam como mera atividade secundária. A empregada, a quem ninguém deu a confiança de dirigir uma única palavra, pousou por minutos o aparelho, enquanto comeu e olhou a paisagem, através da janela. Alguns sons ecoaram na escolha das sobremesas. Depois, o marido pagou a conta e saíram, sempre num silêncio quase sepulcral, com os miúdos ainda a tropeçar nas cadeiras, sem largar a máquina, seguramente a caminho do banco do carro, onde prosseguiriam a operosa atividade comunicativa e informativa.

Aquela família ilustrava, como ninguém, a "escolha do silêncio", que cada vez mais por aí se pratica. Quantos dos leitores se reconhecem neste retrato? Sinceramente.

9 comentários:

Anónimo disse...

Essa passagem deu-se entre 2010 e 2012. Lembro-me bem, no turismo, de começar a ver cada vez mais jovens que falavam mais com o computador do que com os vizinhos. Depois generalizou-se aos iphones e agora deu esta grande treta em que parte da "civilizaçao" é activada por controlo remoto... Ah!... que desejo de viver sem bateria!

Para ser mauzinho, se calhar se abrissem a boca era pior... (suspiro)

Anónimo disse...

Assustador!
Tenho observado no Metro o mesmo comportamento.
Na última viagem de comboio Porto-lisboa observei à minha volta - idosos agarram-se ao Sudoku ,a maioria aos telemóveis e uma jovem à minha frente trabalhava a sua selfie compulsivamente. Mundo delirante!

Luís Lavoura disse...

Os smartphones são um perigoso vício. As pessoas ficam agarradas àquilo, como se fosse cocaína.

Anónimo disse...

Mas há pior, há os que não se calam e sobre tudo debitam saber de coisas que ignoram. E são muitos, pelo menos na rádio e na televisão. Quanto ao silêncio dos políticos está tudo no Eca e na carta do Fradique à Madrinha.
Fernando Neves

Francisco de Sousa Rodrigues disse...

O meu pai e os amigos têm um método, quem pegar no telemóvel paga o almoço/jantar a todos.
Há horas para tudo e na hora da comezaina é para dar ao dente entre belas conversas e garfadas.

Anónimo disse...

Há pouco tempo circolou nas redes sociais um vídeo com o título: "Os netos visitam a avó" A imagem mostrava a avozinha, cabelos brancos, possivelmente já viúva e meia dúzia de netos ( vinte e tal, trinta anos). Diálogo não havia. Cada neto/neta concentrado no seu TM. Só a avó não tinha TM...

josé ricardo disse...

Numa situação dessas, eu agradecia ao telemóvel por ter mantido em silêncio essas cinco criaturas e me terem deixado merendar em paz e sossego.

Helena Sacadura Cabral disse...

Meu caro Francisco
A propósito deste seu post, dou-lhe uma achega, igualmente delirante. São aqueles casais que em publico, no social, se derramam um pelo outro e que, mal chegados à rua, ou quase andam à pancada ou parece que se não conhecem.
A nossa tv tem casos típicos...

Anónimo disse...

Muito a serio reconheco-me.

Ate ha cerca de 3 semanas agarrei-me teimosamente ao meu velho Nokia com desculpas "este ao menos faz telefonemas", etc, etc. Tive que me render a evidencia. No meu caso ja era penoso nao poder aceder a mails fora de casa. La fui fazer o upgrade e sai com uma maquina nova. Ainda ando a aprender e andarei por muito tempo. Mantenho em relacao ao telemovel a mesma rotina que tenho com o computador. Ao raiar do dia e antes de ir para a cama ver mails, 1 ou 2 blogs, navegar na net, relaxar com 1 ou 2 jogos - solitaire e serpente e nada de exageros. Nos transportes publicos atendo se ouco o sinal mas tento nao falar sobre banalidades. Infelizmente a nova maquina nao tem o jogo da serpente (poupo bateria)...

Exageros/abusos a que tenho assistido: MUITOS. So alguns exemplos: No autocarro/metro criancas e pre adolescentes mergulhados a fundo na maquina lambuzam a dita com dedadas de gelado, chocolate, sei la o que. Maes/pais/ que dizem "Zezinho eu ja te tinha dito....olha que ainda to tiro..." etc, etc. Os utentes embrenhados no ecran quase batem com a cabeca, tronco ou membros no varao em frente. Adolescentes/ jovens/nao tao jovens, atravessam a rua sempre a olhar/jogar ignorando o transito. Ha dias em Camden Town vi uma jovem com mais saltos nos sapatos do que juizo na cabeca, andando, teclando, tropecando no passeio. Ia-se estampando. So lhe disse "careful". Respondeu sem deixar de teclar "thanks, didn't hurt". Respondi, cruel "next you may break the phone". Respondeu "Oh dear" sempre teclando...

Temos direito ao silencio e pelo menos enquanto jogam tirem o som. Sem querer vou somando pontos e distraio-me da leitura do "Guardian". Ja Calimero dizia "nao e justo"...

Fez-me saudades de ler Vercors (1942) e ver Melville (1949) "Le silence de la mer" livro e filme que me marcaram e revisito quando posso. E tambem, nessa onda "Le monde du silence" Jacques Cousteau/Louis Malle. E por silencio agora que ha uma copia restaurada por ai vou rever "The Graduate". Anne Brancroft/Dustin Hoffmann/ Simon and Garfunkel "THE SOUND OF SILENCE"! Que nem ginjas...

Bom fim de semana

F. Crabtree