sexta-feira, 24 de março de 2017

Turras

Os mais novos não conhecem o termo. Os "turras" era a expressão simplificada que, no início da guerra colonial em Angola, qualificava aqueles a quem o regime chamava "terroristas" - isto é, todos quantos lutavam de armas na mão pela independência das colónias portuguesas, das quais se sentiam mais cidadãos do que portugueses. 

Nos idos de 1961, a palavra "turras" andava na boca de toda a gente e sempre desconfiei que a expressão "tugas" representou contraponto fonético de resposta nacionalista para designar os "portugas" brancos (devia escrever "europeus"?) de quem os independentistas se queriam ver livres.

Os "turras" eram portugueses? Na maioria, claro que sim, "jus solis" e "jus sanguinis", como a rapaziada do Direito gosta de dizer no latim que lhe nobilita os pareceres. 
Porquê? Porque eram nascidos no Portugal de lei, fihos de portugueses de lei. Mas seria mesmo assim? Ou não se daria o caso de os pais serem "assimilados", essa deliciosa fórmula racista que o Estado Novo consagrou, como que a dar a "honra" do aportuguesamento a quem vivia nas suas Angolas? E os "turras" brancos, de que o MPLA estava entãbatulhado.

Lembrei-me disto ao ouvir Theresa May dizer que o autor do atentado era "britânico de nascimento". É deliciosa, esta "de nascimento". O assassino das cinco pessoas em Londres era tão "britânico" e europeu como o anormal que hoje, em Barcelos, matou quatro. Este era "tuga" e, se calhar, também será "turra", ao olhar de alguns.

Posso estar enganado, mas com o caminhar para esta sofisticação no léxico, que conduz alguns a discriminar entre os cidadãos de lei do mesmo país, regredimos ao tempo dos "filhos de algo", que a corruptela veio a designar já não sei como - e a que um decreto pós 5 de outubro pôs termo. Definitivo.

11 comentários:

Luís Lavoura disse...

A Theresa May é uma gaja que mete nojo. Só de a ouvir falar na televisão agora por esta ocasião fiquei agoniado. É uma racista operacional - diz que não é mas na prática faz melhor do que se fosse.

Retornado disse...

Turra foi um termo que não teve nada a ver com o "Regime", apesar de este o adotar o termo.

O Regime não tinha imaginação para tanto, a coisa saíu espontânea do povo, principalmente do indígena que tinha dificuldade em pronunciar "terrorista", telulista, terrulista, terorista..."turra" e acabou.

Ainda hoje o carioca no Rio ainda diz lalanja, o português é muito complicado.

Teve a ver com os massacres da UPA (FNLA), de brancos pretos e mulatos, tudo o que mexesse e não fosse bakongo.

!5 de Março de 1961.

Foram massacres idênticos ao "Biafra", "Boko Haram", isto na Nigéria, Hutus e Tutsis no Uganda e o que se passa hoje na República Centro-Africana onde os nosso Comandos bem treinados já entraram em acção, sem baixas, graças-a-deus-pela-alma-de-quem?

Lutar pelas suas independências com aqueles ventos da história?

Já está na altura de largarmos a máscara!

michael disse...

francamente, acho que nao é bem essa a intencao do "british-born".

ao referir que o cidadao em questao é nascido britanico, de imediato se coloca de parte o pensamento de que se importou o terrorismo de qualquer outra parte do mundo.

a discriminacao lexical (ou, por outro lado, a preocupacao de especificar nao só a nacionalidade, como a naturalidade), afasta as análises discriminativas que poderiam ser tidas quando se olha para o nome do responsavel pelo crime em westminster.

(perdao pela falta de acentos e cedilhas, mas escrevo da ilha)

Anónimo disse...

É preciso ter muita lata, para fazer comparações.

Sabe muito distinguir as situações e motivações, não faça dos outros estúpidos.....

Joaquim de Freitas disse...

Perguntas simples :

Qual era a diferença entre um "Indigena" e um "Português", nas Colonias ou Ultramar?


Porque é que fui obrigado a tirar passaporte para ir a Moçambique, nos anos 50.

Porque era necessària a licença militar para ir a Moçambique?

Anónimo disse...

Pior do que está expressão só mesmo tugas, ou dentro do género, geringonça.

Retornado disse...

Qual era a diferença entre um "Indigena" e um "Português", nas Colonias ou Ultramar? pergunta o Joaquim de Freitas sem saber perfeitamente o que quer saber.

O que ele quer perguntar, é a diferença que havia entre um preto "Indígena" e um preto "assimilado".

Mas se perguntar aos pretos em Lisboa no Largo da Igreja de São Domingos ou na Cova da Moura ou no Concelho do Seixal, ou na selecção nacional, ou no panteão ao Eusébio ou no fundo do Mediterrâneo há lá muitas dessas vítimas, que lhe explicam tim-por-tim-tim o que se passava.

E o senhor Joaquim Freitas para ir para as colónias nos anos 50 não precisava de passaporte, era um pouco mais complicado, precisava, do atestado do registo criminal, (limpo)vacina febre amarela, varíola, uma carta de chamada por algum familiar ou alguem que se responsabilizasse por lhe proporcionar uma palhota porque não havia hotéis.

Já antigamente também não precisava de Passaporte, para ir para Luanda chegava espetar uma naifa na barriga de um amigo e nem precisava pagar a passagem.

Há muita desinformação na cabeça dos anti-salazaristas.

Anónimo disse...

Em que universidade estava em 24/3/62 ?

Direito? Filosofia?

Eu estava lá em Coimbra.

Anónimo disse...

O comentário das 08:42 transcreve a realidade da década de cinquenta !

Joaquim de Freitas disse...

“Há muita desinformação na cabeça dos anti-salazaristas.”
25 de março de 2017 às 08:42


O senhor « retornado » , que é « anónimo », (não sei porquê, porque hoje não há a PIDE e podia assinar o seu nome), parece desconhecer certas coisas desse tempo.

Fui às “colónias” como viajante comercial, com um bilhete de regresso assegurado, e mesmo assim fui obrigado a tirar passaporte… e a obter uma licença militar, no meu regimento de Penafiel, com a obrigação de passar todos os meses no Governo Civil de Lourenço Marques para assinalar a minha presença. Claro que a vantagem era que podia emigrar para o país do apartheid, mesmo ao lado.

Existia em Lisboa, o MINISTÉRIO DAS COLÓNIAS – Inspecção-geral DOS NEGÓCIOS INDÍGENAS – que o senhor retornado aparentemente ignora.

O senhor “retornado” talvez ignorasse também que Portugal “exportava” os seus indígenas de Moçambique para a África do Sul.

Negocio que continuou depois, após a Independência, claro.
Olhe que a desinformação não está onde pensa.

Retornado disse...

Talvez de todos os comentadores que aqui aparecem, o Retornado sem aspas, será o menos anónimo de todos.

Há menos retornados que Joaquins, Silvas ou Freitas em Portugal e Ilhas, portanto considero-me muitíssimo mais identificado para o efeito a que se destina.

Nas velhas listas telefónicas da Madeira, um terço das páginas eram Freitas.

As minas sul-africanas contratavam trabalhadores a tempo certo, nos territórios vizinhos, Moçambique, Angola, Malawi, Rodésias...não importavam.

Por acaso regressavam bem tratados, alimentados, bem vestidos e calçados e todos queriam repetir outro contrato, eram tão voluntários como os nossos médicos e doutores que hoje exportamos para a Inglaterra e Europa em geral, e já exportávamos pedreiros e faxineiros para o bidonville noutros tempos.

Parte do salário daqueles mineiros era pago em Moçambique em escudos quando os indígenas regressavam, mas a remessa vinha em ouro para Lisboa, para o mealheiro de Salazar, que os baderneiros abrilistas foram desbaratando quanto puderam.

Todos os portugueses que quizessem sair para o estrangeiro, e tivessem menos de 45 anos tinham que pedir autorização à unidade a que pertencia(mos) (isso não era uma invenção salazarista, vinha desde os nossos avós)

O anti-salazarismo primário cega as pessoas.

Essa do passaporte do senhor Joaquim Freitas devia ser pela ideia de muitos brancos de Moçambique que o requeriam para poder fazer umas visitinhas aos boeres de Mandela.

Muitos por lá ficavam! e muitos por lá continuam.