segunda-feira, 21 de setembro de 2015

O barco


A conversa com aquele meu amigo teve lugar há muito tempo. Aliás, ele morreu também já há alguns anos, naquela localidade de província onde, com alguma regularidade, nos íamos vendo, nas minhas visitas.

Um pouco mais velho que eu, era uma pessoa metida consigo mesma, com muitos azares na vida, feitos de erros de percurso, as mais das vezes evitáveis por uma sensatez que a sua agitação interior não permitia. Era muito teimoso e reagia de forma às vezes desabrida quando eu, por realismo, tinha a ousadia de procurar dar-lhe algum conselho. Mas éramos bastante amigos, sempre o fomos. Ele sabia que podia contar comigo - e por uma vez ou duas contou, em situações de emergência - e eu tinha a sua lealdade pessoal por garantida.

Não me recordo de termos falado alguma vez de política. Mas isso deve ter acontecido, conhecendo-me... Ele sabia muito bem, e de há muito, por que lados eu andava e eu sentia-o tendencialmente conservador, fruto da sua passagem na guerra colonial e dos escassos círculos em que andava se situarem maioritariamente por essa área. Mas nunca por nunca o vi inclinado a afirmar-se em termos partidários.

Foi assim que, um dia, o encontrei num café. Durante uma boa hora, "pusemos a escrita em dia". Veio à conversa, num certo momento, a casa onde ele vivera com os pais. Perguntei-lhe se lá residia. Disse-me que não, que vivia agora num bairro social, que estava mesmo muito satisfeito com o apartamento novo que havia obtido. Não era grande, mas chegava para as suas necessidades.

- Mas não foi nada fácil. Antes, tive de entrar para o barco! 

Estranhei a expressão. Barco? O que era isso de "entrar para o barco".

- Oh! Como se tu não soubesses como essas coisas são...

Eu não sabia, confesso! "O que é o barco? Diz lá!", insisti.

E então ele revelou que tivera de se inscrever no partido que dominava o município, antes que a assistente social que tratava dos processos de candidatura recebesse luz verde para lhe atribuir residência.

A política portuguesa tinha (tem) destas "grandezas", infelizmente, ao que parece, dos vários lados do espetro político.

12 comentários:

Anónimo disse...

lido por aí:

"A putativa direita, sempre designada como a inimiga de classe a que o socialismo reivindica pertença, quase nem existe em Portugal, desde há muitos anos. Praticamente desde o golpe de 1974, a direita que se identificava com certos ideais do salazarismo e do caetanismo desapareceu da cena da relevância política. O que restou dessa tal direita incorpora agora figuras do estilo de um Freitas do Amaral ou de um Marcelo Rebelo de Sousa, seres híbridos que deslustram o carácter do que foi um país.
Talvez por isso o socialismo democrático enfileirado no PS entenda que tem um direito quase consuetudinário a governar e orientar intelectualmente o país. Quem ouve ou lê uma figura de jornal tipo São José Lopes ou a mãe do candidato Costa e do jornalista Costa, uma tal Palla, antiga jornalista do fassismo, na Flama, tem o retrato completo dessa esquerda fossilizada que repudia o totalitarismo comunista mas não afeiçoa verdadeiramente a liberdade."

Anónimo disse...

Ah! Ah! É uma expressão exclusiva de Vila Real! Será que há outra localidade de província onde é usada?... E diz-se “tive que saltar pó barco”!
Atualmente estão a saltar de um barco para o outro sem pisarem terra!... (tipo refugiados...)

Anónimo disse...

Cunhas, contactos,nepotismo, trocas de favores e de dinheiro , entradas nos ' barcos': estas 'nuances do networking', parecem ser formas habituais de se conseguir singrar na vida.

Francisco Seixas da Costa disse...

As notas personalizadas que o comentador das 12.10 aqui deixou não podem ser publicadas sem a devida e completa identificação do comentador. Julgo que compreenderá.

Anónimo disse...

Claro que entendo Embaixador e não lhe vou levar a mal isso. Mas que tudo é verdade isso é, aliás já deve ter ouvido tudo isso. Não levo a mal costumo ser justo e por isso tem razão.

Anónimo disse...

A coisa em Vila Real é tão esquesita(atenção que acredito que nas outras terras seja igual)mas eu falo da minha cidade que a conheço de gingeira. Mas dizia a coisa é tão esquesita que se trocam cargos e tachos vários entre destacados militantes do PS e PSD e vice versa. Portanto aqui os navios(já não são simples barcos), são mais parecidos ao do célebre projecto Filadélfia dos anos 40(o Embaixador, será que esta gente destes partidos saberá o que foi este projecto?) é que normalmente eles são bons a singrarem dentro dos partidos para os tachos, mas normalmente nunca me constou que a maioria deles fosse dado a esta coisa da cultura geral ou da literatura. Falo obviamente da maioria dos apaniguados do Partido Neoliberal( PS E PSD).

Anónimo disse...

Foi, é, e continuará a ser assim!... Bem me lembro dos tempos da UN e, depois, dos que vieram a seguir.

Anónimo disse...

Desculpe não concordar ai de uma afirmação sua,então diz dos dois lados do espectro Politico, está a dizer que PS e PSD são dois lados opostos do espectro politico portugu~es? sabe bem que não são. O lado é o mesmo,a variante é que pode ser rosa choca ou laranja podre.

Reaça disse...

No tempo da UN, era fino ser filhote de uma família a viajar de camarote de 1ª e saltar para a água e ir até Paris, Roma e até Cuba do pré-histórico Fidel.

Muitos embora mais tarde fossem a deputados alguns e algumas ficaram por deputedas.

Mas a família aí continua sempre de camarote.

Anónimo disse...

Caro Reaça, O Fidel, não deixava lá entrar os caganitas da União Nacional. Eu estive em Cuba em 96, mas eu pertenço á elite cultural e não á elite falida e ignorante de onde provieram esses da UN.

Reaça disse...

Até a filha do Silva Pais foi parar a Cuba.

Até o filho de Armindo de Stau Monteiro, o Luís foi de lamborguini para o PCP.

E uns tantos burgueses do Norte com sotaque e tudo viraram cantautores por Paris, enquanto a familia continuava no camarote do barco burguesmente.

Sempre existiu o barco para embarcar, só que agora há mais escolha, do que no tempo da UN.

Anónimo disse...

Ao comentador das 09,17. Olhe que era o Século Ilustrado! A Flama era mais da Igreja. Mas nesse tempo era tudo publicações fascistas e as pessoas tinham direito a trabalhar honestamente, ou não. Já agora, onde é que parava no 25 de Abril. a que o amigo chamou de golpe?