quarta-feira, 29 de abril de 2015

Varoufakis


Muitos se alegrarão, por essa Europa liberal, com a humilhação sofrida pelo ministro grego das Finanças, ao perder o papel de principal interlocutor do seu país nas negociações com as instituições europeias, embora não tenha ficado muito claro se deixará igualmente de o ser com o FMI. 

Acho triste ir-se por aí, como observo no gozo saloio de alguns comentadores domésticos. Para mim, Varoufakis continua a ser o ministro de um país em dificuldades e em sofrimento, de uma Grécia pela qual tenho o maior respeito e simpatia. A eleição do Siriza e o seu novo governo representam, muito simplesmente, uma escolha eleitoral de desespero por parte de quem se cansou de eleger rotativamente a Nova Democracia e o Pasok, que conduziram o país ao Estado a que chegou. Esses foram, durante muitos anos, os interlocutores privilegiados das instituições europeias - e viram-se os resultados... O eleitorado grego, farto dessa receita, tentou escolher uma outra filosofia, titulada - e é bom que isto se diga, porque poucos o têm feito - por quem tinha e tem as mãos limpas das negociatas que arruinaram o seu país.

Mas voltemos a Varoufakis. Ele arriscou muito e cometeu alguns erros graves, o principal dos quais terá sido o de não saber medir, com prudência, até onde a sua "coreografia" poderia acabar por prejudicar a própria capacidade negocial do seu país. É verdade que os seus colegas no Eurogrupo não facilitaram as coisas, isolando-o e conduzindo cada vez mais a uma radicalização da sua atitude. Na reunião de Riga parece que se terá passado o "point of no return". Mas um negociador tem de ter "nervos de aço" e não se deixar arrastar pelas provocações alheias, também sabendo medir até onde pode levar as suas.

No terreno diplomático, as pessoas representam um país ou uma instituição, assumindo a cara dos seus interesses. A experiência internacional ensina que é vital conseguir manter um terreno mínimo de entendimento pessoal, mesmo com os nossos maiores adversários e até com aquelas pessoas que somos levados a detestar e mesmo a desprezar. Varoufakis terá descurado essa vertente e, por exemplo, ao faltar ao jantar informal que reuniu os seus colegas, por muito ofendido que pudesse estar (leia-se o seu blogue, onde cita Roosevelt, dizendo que os colegas o "odeiam"), deixou que a dimensão pessoal suplantasse a razão pela qual estava ali: defender os interesses do seu país. Em diplomacia, "engole-se sapos" com muita frequência, e isso não é nada agradável - e sei bem do que falo. Mas, repito, não somos nós quem ali está, é o país que representamos. Não perceber isto e colocar o orgulho à frente do serviço público é um erro muito grave.

Dirão alguns que o "estilo" de Varoufakis fazia parte da sua estratégia negocial. Escrevi por aqui, há pouco tempo, que se acaso a tática negocial titulada pelo ministro grego viesse a ter sucesso eu reveria, com gosto, tudo quando quatro décadas de diplomacia, nomeadamente europeia, me tinham ensinado. Infelizmente, eu não estava enganado, como também me parecia óbvio, e aqui ficou escrito, que se estava a começar a criar um "gap" entre Varoufakis e o seu primeiro-ministro. Por uma razão muito comezinha: pela falta de resultados.

Varoufakis fez o que devia fazer - dirão alguns radicais caseiros, para quem é cómodo ser espetador à distância da tragédia grega. Não é verdade! Não fez o que lhe competia fazer, não obteve resultados e a prova provada é que foi agora substituído numa atividade central daquele que era o seu mandato. Como acontece com todos os diplomatas (e quem negoceia internacionalmente, mesmo sendo político, exerce diplomacia), quem não consegue os objetivos a que se propôs afasta-se de cena e dá lugar a outros, tanto mais que soluções muito diversas só podem ser assumidas por caras novas. 

Mas também posso imaginar que, em certos setores do Syriza, se acaso o compromisso que os novos negociadores vierem a obter for considerado insuficiente ou "recuado", Varoufakis passe a tornar-se um ídolo. Tal como já é um ícone sexual para algumas amigas minhas, sei lá bem porquê! 

20 comentários:

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Caríssimo Chico

Mais uma análise da tua dimensão. Varoufakis não entendeu que a corrente parte sempre pelo elo mais fraco... Eu que o diga, pois a outro nível já conheci uma situação parecida se não igual e curiosamente quando estava no Ministério das Finanças...

Porém, creio que Varoufakis vai voltar à arena política, farto de rasteiras, de apunhaladas pelas costas, de traições dos que se dizem amigos...

Abç

Anónimo disse...

Mordomias.

Rui Quinta disse...

Antes de mais, e ainda que não concorde com a postura de Varoufakis e Tsipras, não me dá nenhum prazer o afastamento de Varoufakis, tal como não me dá que se mantenha a inexistência de acordo. Pelo contrário, lamento que a situação se arraste.

Porém, não me parece que de forma alguma seja benéfica para os seus interesses a forma como aturam desde o início o PM grego e o seu Ministro das Finanças (sobre o qual por vezes me deu a ideia de ser apenas um interlocutor da vontade de Tsipras sem qualquer poder).

Para se sentar à mesa de negociações é necessário, ou ter muito poder, ou mostrar vontade de... negociar. E aquilo que foi passando cá para fora, ou pelo menos a ideia com que fui ficando, foi de que os representantes gregos, desde o primeiro momento, se mostraram muito pouco flexíveis. Claro, e reconheço, também o Eurogrupo se mostrou pouco flexível. Mas não terá ajudado a intransigência grega, nem a ameaça de se virar à Rússia, nem a ameaça do Ministro da Defesa de deixar entrar terroristas na UE.

Varoufakis não foi à procura do melhor acordo possível, mas sim mostrar que o seu plano era o melhor possível. Acontece que o poder, nestes casos, está no lado de quem tem o dinheiro para emprestar, e quando o cliente vai ao banco impor as suas condições, ou convence o decisor do banco, ou arrisca-se a sair sem dinheiro e com o mesmo aperto. É o que está a acontecer.

Gosto em lê-lo.

Cumprimentos,
Rui Quinta

São disse...

Para mim não é um ídolo sexual, embora me agrade o estilo.

Para mim, é um homem que tentou ajudar o seu país a sair da terrível situação em que está e lamento que a UE tenha escolhido a humilhação sistemática da Grécia, sem ceder em nada de substantivo.

Além disso, veremos se o sacrifico de Varoufakis aclama os deuses, isto é, os mercados.Duvido.

Bom dia.

aguerreiro disse...

Ele há cagões assim! Nada está perdido, Aprende para a próxima! Baixa a grimpa e fica a saber que em qualquer talho, mesmo na Grécia, que a carne mais barata que lá se encontra é a da "colada e gorja"

Anónimo disse...

Concordo plenamente com a sua análise. Varoufakis optou desde o início por uma estratégia de confrontação gratuita, que só lhe arranjou inimigos, não foi capaz de analisar os limites até onde podia ir e agora foi ultrapassado pelo PM grego que necessita de resultados positivos.

Anónimo disse...



A baixa da TSU pensada por Costa é como a amnistia fiscal pensada por Varoufakis, as ideias da nova (sempre velha) esquerda que vive á conta do dinheiro dos outros.

Anónimo disse...

O que faltou a Varoufakis não foi traquejo negocial, nem falta de domínio de negociações internacionais, nem falta de experiência de aereópagos multilaterias. Enfim, talvez lhe tenha faltado também um pouco de tudo isso. Ou o que tinha, (sim porque já tinha) não chegou.

Mas o que faltou mesmo a Varoufakis foi conhecer as regras de decisão na UE, a coreografia do "decision-making process", a importância de sorrir para não obter nada, e a de procurar continuar a sorrir quando se perde, para logo depois, desfazer o que foi obtido por outros.
O que lhe faltou foi "skill" de negociação comunitária.

Como assinala o Embaixador, Varoufakis teria de ter criado um "terreno mínimo de entendimento pessoal, mesmo com os maiores adversários".
Foi exactamente o que ele não fez.

Sem relação pessoal com os outros 27, ou tendo gorado o início dessa relação, Varoufakis nunca se sentaria à mesa dos "major players" desta negociação. E quando não estamos sentados à mesa onde se jogam os dados da negociação, não temos a percepção de como vai " a missa", de quem gosta de nós e de quem não gosta, de quem se mostra flexível e de quem é irredutível, de quem tem margem de manobra e de quem não tem nenhuma, de quem tem o poder de alterar as coisas e de quem não o tem.

Não sei se o "estilo" de Varoufakis fazia parte de uma estratégia negocial própria, ou se era combinado com Tsipras. Não sei se a tática negocial era dele, ou também do PM grego.

Mas sei que, assim, não foram lá.
Os outros já lá andam há mais tempo.




Joaquim de Freitas disse...

O fato e o corte de cabelo importam pouco, Senhor Embaixador. O que conta é o poder financeiro e um "passaporte imperial".

"O que eu quero Senhor Palmer, é simples : quero que me retrocedam o meu dinheiro" 'I want my money back") .

Era no dia 30 de Novembro de 1979, quando a cimeira dos chefes de Estado e de governo dos nove países da Comunidade europeia acabava de se terminar num fracasso absoluto. Margareth Thatcher impôs o seu bem querer a todos, e sobretudo a Mitterrand, enquanto que o RU nem estava no Euro nem aceitou Schengen (mais tarde, certo).

Que o RU abandone a construção europeia teria sido grave. Havia o risco de praticar a política da "cadeira vazia" como fez De Gaulle em 1965. A Grécia pode ir embora quando quiser.

Quando Maggie tinha perdido o seu brilho, e que o RU tinha saído da zona de turbulências, Jacques Chirac quis recuperar o "check" dado em Fontainebleau . Ouviu-se a sua voz esganiçada responder a Chirac: " Shocking", , não temos a intenção de retroceder o dinheiro .

A Grécia deve pagar tudo o que deve . Aqueles que tanto devem à Grécia, em vidas humanas e dinheiro, são, como Thatcher, irreduzíveis.

Não é uma questão de diplomacia, Senhor Embaixador : Trata-se antes duma questão de moral e de humanidade. Mas quem espera lições de moral e de humanidade dos inventores dos campos da morte?

Zuricher disse...

E se a estratégia for, desde o princípio, realmente tirar a Grécia do Euro mas fazendo passar para o eleitorado Grego a imagem de que a culpa é do resto da Europa?

A conduta Grega tem sido demasiado desastrada, repleta de gaffes, provocatória. Em suma, absurda. Será mesmo possivel atribuir tudo isto a inexperiência e desconhecimento de tacticas negociais? Talvez... mas lá que há umas semanas que parece deliberado, lá isso parece.

Anónimo disse...

Atenção á vernissage do sebastião da névoa....há ovas de sardinha...

Anónimo disse...

Palpita-me que com os tubarões do eurogrupo (não contando com a frenética atividade tuga) chegaram ao ponto que os gregos queriam. o Varoufakis (com o seu perfil alto e chamando-lhes incompetentes - só assim se compreendem as bocas que apareceram da conversa lá dentro) sai de cena e muda o perfil. Agora entra um discreto se calhar um osso mais duro de roer mas eles não vão mudar nada: "70% do percurso já fizemos agora esperamos de vós os outros 30%"

Joaquim de Freitas disse...

Ah, estamos quase a chegar lá! O sistema económico e político vigentes, trabalham no desenvolvimento de técnicas que permitirão às oligarquias que nos comandam, que sempre existiram e que farão tudo para que possam existir sempre, de levar as pessoas a amar a sua própria servidão.
Mas os Gregos tenho a impressão preferirão lançar-se abaixo da Acrópole que aceitar isso. Espero, para nós que assim será.

Anónimo disse...

O grande problema do Governo da Grécia foi prometer o que "não era seu". E achar que podia exigir, e que tudo lhe seria dado, quando e como o exigissem. Mas as coisas não funcionam assim! Lamento pelo povo grego e o que está a passar, mas a arrogância do Governo a exigir e prometer o que é dos outros parece-me ridículo.









Anónimo disse...

Brilhante post. Parabéns!
Em concluindo, faltou-lhe diplomacia...e discrição.
VW

Anónimo disse...

Dos outros? Quais outros que também dependem de outros e estes doutros. Portanto respeitinho é a "sugestão"?

Anónimo disse...

Nem mais. É da vida! "Quem se ri por último..."

Joaquim de Freitas disse...

O Senhor Anónimo das 23:59 , parece ignorar que uma das principais causas do endividamento da Grécia seja directamente ligada às compras de armas provenientes dos "credores" franceses, americanos, alemães e ingleses. Qual é o país em falência da UE que é o 4° importador de armas no mundo? A Grécia.


De 2005 a 2008, a Grécia duplicou o valor dos seus empréstimos para pagar as armas das quais não tinha necessidade. Um relatório conjunto de juízes gregos e alemães, prova que os vendedores de armas utilizaram a corrupção para obter a colaboração de importantes homens políticos de direita como de esquerda, de funcionários e de chefes militares. O dinheiro fornecido à Grécia veio dos mesmos países donde vieram as armas.


E é o povo que deve agora pagar a corrupção e a incompetência das suas elites? Quando se sabe que outra parte significativa dos dinheiros comunitários foram parar nos bancos suíços e nos paraísos fiscais? desviado por quem? Conhece a historia da comissão da compra do submarino português e do dinheiro do BES que transitou algures ? O mesmo problema que na Grécia.

Majo disse...

~
~ ~ Pode chamar-me «comentadora doméstica» à vontade, pois é isso mesmo que sou presentemente, porém, não sou saloia, nem soberba, nem estúpida.

~ ~ A remodelação do governo de Tsípras é um ato de desespero total, serviu para descredibilizá-lo e, num país onde haverá poucos crédulos...
~ ~ Uma grande deceção para muitos (saloios), mas principalmente para os gregos. (Esqueceu-se de referir.)

~ ~ A corda por onde caminha o SYRIZA está cada vez mais bamba e se Merkel não encontrar a «solução para a Grécia» - miraculosa e digna - nas próximas semanas, a estadia do SYRIZA no governo liderado por Tsípras tem os dias contados.


~ Ps ~ Acho interessante, num apontamento de cariz político, ter se dado ao trabalho de falar do ''charme'' de Varoufakis e ter registado o ciúme...
~ É um atributo que não se explica... Sente-se.

~~~ Cordiais cumprimentos. ~~~~~~~~~~~~~~~
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JS disse...

Excelente "post" Sr. Embaixador. Gratificante ver a situação grega analisada desta forma ponderada.

Mas Joaquim de Freitas acrescenta algo a considerar. Esconder a aplicável figura da "dívida odiosa" -as doentias cumplicidades então criadas e que ainda perduram- não é nada de positivo numa união Europeia.