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quarta-feira, abril 22, 2015

Pires de Miranda e a diplomacia económica


Era um cavalheiro urbano e elegante, com mundo, inteligente e sabedor das coisas económicas, com um sorriso social algo distante, mas de trato pessoal simpático. Pelo menos, foi essa a imagem que dele guardei do escasso tempo em que foi ministro dos Negócios estrangeiros, quando Cavaco Silva chefiava o governo, bem como dos poucos contactos anteriores e posteriores que com ele tive. Já antes havia sido ministro do Comércio e Indústria e presidente da Comissão de Integração europeia. Profundo conhecedor do mundo dos petróleos, havia também sido nomeado "embaixador político", para especificamente tratar dessa questão. Nasceu em 1928 e morreu ontem.
 
Na sua breve passagem pelas Necessidades (1985-87), deu sempre ares de estar sempre algo desconfortável no seu papel. Na gíria da casa, atendendo à sua formação, era conhecido como o "petroleiro", sendo então chamado "cacilheiro" ao seu secretário de Estado da Cooperação, o comandante (da Marinha) Eduardo Azevedo Soares.
 
Embora nunca tenha tido a certeza de quem foi o verdadeiro "pai" da ideia, foi com Pires de Miranda na chefia da diplomacia que se processou uma das mudanças estruturais mais polémicas que o MNE sofreu. Tratou-se da eliminação da Direção-geral dos Negócios económicos, que foi fundida com a Direção-geral dos Negócios políticos, para dar origem à Direção-geral dos Negócios político-económicos, de que viria a ser titular José Cutileiro, também "embaixador político". Esta reforma acabou por fazer desaparecer parte significativa da dimensão económica do MNE, que acabou por ser claramente ultrapassada pela dimensão política, numa casa onde, como costumo dizer (para desagrado de muitos), o tropismo natural é para "mais Kosovo e menos batatas". Só não esperava isto quem desconhecesse o MNE. Concedo que a ideia parecia teoricamente boa: dar maior coerência ao tratamento integrado dos espaços regionais. Mas falhou redondamente e a máquina diplomática portuguesa sofreu imenso com isso. 
 
Anos mais tarde, procurar-se-ia corrigir a medida com a criação do Gabinete de Assuntos Económicos (GAE) e, mais tarde, da Direção-geral dos Assuntos Técnico Económicos (DGATE). Com o governo que agora cessa funções, a machadada na dimensão económica do MNE seria definitiva: a DGATE foi extinta, a AICEP "pareceu" integrar o MNE por algum tempo, isto é, até ao momento que Paulo Portas, irrevogavelmente, a levou no seu bolso político para o palácio das Laranjeiras, como veículo para o seu saltitar entre aeroportos, na versão moderna do "Oliveira da Figueira", a promover os nossos produtos. Conjunturalmente pode ter sido um remendo útil, institucionalmente é mais um desastre.
 
Volto ao engenheiro Pedro Pires de Miranda (na foto, à direita, com Jacinto Nunes e Mota Pinto), para aqui deixar registada uma sentida nota de pesar pela sua desaparição.   

É a vida!

Pode ser que seja apenas "wishful thinking", mas fiquei ontem com a sensação de que André Ventura já se está a ver, daqui a semana...